domingo, 14 de janeiro de 2018

Visita a Martín y Mariana

Javier Drolas e Pilar Ayala são meus amigos desde 2012, mas sequer o imaginam. Digo melhor, pois me refiro a Martín e Mariana -- personagens a que deram vida em Medianeras, (2011) "película" de Gustavo Taretto. 
Durante os dias em Buenos Aires, passei um punhado de vezes pelas ruas de bairros em que o filme foi gravado (Retiro e Recoleta, em particular). Motivado pela indistinção entre pessoa e personagem, realidade e ficção, fiz-lhes duas visitas. 
Como não estivessem em casa, caminhei outro tanto até a esquina da "calle" Alvear com a "Libertad", onde eles se encontraram de costas no semáforo do canteiro central. Também relembrei a história do prédio Kavanagh, construído por Corina para obstruir a visão da igreja (encostada no grande edifício: uma espécie de antigo Mappin). 
Não tinha ido a Buenos Aires e digo que a trajetória errante de Mariana e Martin esteve, o tempo inteiro, no horizonte -- misturada às narrativas de Amélie (2001) e Lost in Translation (2003). Era especialmente em Martín e Mariana que eu pensava, quando procurava por livros na Avenida Corrientes; quando admirava as ruas planas e simétricas da cidade; quando estive no planetário (e nave espacial) do parque 3 de outubro.
Sim, sei bem que Pilar é espanhola e que Javier é argentino. Também constatei que os endereços fornecidos no filme (Avenida Santa Fe, 1105 e 1183) não correspondem a sua morada -- (de) onde Mariana e Martín dialogavam através da internet e rompiam brechas na lateral dos edifícios, a contrapor a ordem dos afetos à ilógica tacanha e voraz dos anúncios publicitários.
Mas, gosto de figurar que Mariana e Martín continuarão a ser meus amigos. Significa que estarei a torcer por sua felicidade, feito casal que descortinou os segredos de Where is Waldo? Talvez não se encontrem Martíns em páginas coloridas; talvez nossa cabeça não seja tão fácil de organizar quanto um Macintosh -- como Mariana desejava.
Diga-me, lá, qual a relevância de nos atermos (com discutíveis margens de segurança) aos fatos e de que matéria eles se constituem. Os efeitos de Medianeras permanecem -- provocados pelo roteiro e pela dupla inteligente e sensível de Taretto. 
Não se trata de comédia romântica qualquer; mas de narrativa colada à arquitetura e à cidade, a relembrar que somos compostos de memórias, janelas e "calles".  

domingo, 31 de dezembro de 2017

Durante uma xícara de café (em 31 de dezembro de 2017 d.C).

Quem vai circularmente de um ponto para o mesmo ponto, 
quanto mais se aparta dele tanto mais se chega para ele 
(Antônio Vieira, "Sermão de Quarta-Feira de Cinza", 1672).


A million miles between us / Planets crashing to dust 
(Garbage, "Cup of Coffee", 2001).



Relembra-te de que és falível. 

De que sabes, talvez mais, (mas, provavelmente, menos) que outrem; e de que a largueza, altura ou profundidade do que manipula, deduz ou cogitas -- graças a teu (i)limitado repertório -- não invalida o alheio, nem te faz ente superior (nem inferior). 

Pergunta-te se és homem, gente, animal ou mercadoria. 

O que efetivamente apreendeste? Quanto sabes dizer, contar e interpretar? Como mensuras o que (como e por que) diz o outro? Estás seguro das tuas certezas? Serás capaz de questionar teus honrados princípios?

Aciona o mesmo raio laser ao avaliar o que vires. Aprecia amigos, simpatizantes, concorrentes e adversários com o mesmo critério -- embora desconfiemos de que a neutralidade é quimera situada para além das metafísicas.

Recorda-te de que tem espaços e limites. De que o fato de falar uma ou dez línguas não confere maior compreensão do que se passa nas cordas que sustentam os homens. 

Repara, com a maior honestidade de que fores capaz, em quantas ocasiões te valeste dos mesmos exemplos para te expressares, fosse com amigos, fosse com amores. 

Antes de falar em ética, rememora, feito exercício para uso particular, em quantos momentos sorriste com os comensais sem exatidão, nem espontaneidade? Será isso expressão da honestidade a toda prova? 

Não te esquece de cultivar os pequenos prazeres e de buscares maior coerência. Começa por uma xícara de café, percorre um sermão de Antônio Vieira e amplia a tua habilidade de escuta com o poderoso apelo interpretado por Shirley Manson.     

sábado, 9 de dezembro de 2017

Piano

1981. Tinha oito anos, quando meu pai anunciou que havia comprado um piano. Àquela altura, morávamos provisoriamente num apartamento simples do Jabaquara, em que nos espremíamos um tanto para transitar. Certo dia, o instrumento chegou. Era todo preto, com pinturas à mão. Belo timbre, tanto para os agudos quanto para os médios e graves, coisa rara de se ouvir. Já serviu como suporte para televisores, partituras e livros. Um dia, a ex-eposa, enfurecida, riscou fundo o tampo superior e a lateral com a chave. Certa feita, tocando com Karran, Fábio Di Dário e Fábio Pagan um jam com covers dos Doors, tive a ideia de botar um bilhete, assim: "Piano não é móvel", a fim de evitar que o pessoal depositasse copos ou garrafas sobre ele. Durante anos, os antigos colegas de banda brincaram com isso. "Ha, ha, ha: piano não é móvel. Ha, ha, ha". Piano Brasil, pintado de preto, modelo Luxo, 360 quilogramas* (*vim a sabê-lo apenas hoje). Há instantes, ele acabou de ser retirado do apartamento e seguiu para a oficina do Valmir Rodrigues da Silva. Lá receberá um belo trato nas madeiras, forro, cordas, cravelhas, pedais, teclas, e só deverá retornar em fevereiro. Será acolhido da melhor forma: presente que me dei de aniversário. É simbólico que ele parta agora. 2018 será o ano da saúde e da música. Claro, sem contar a literatura e os estudos informais sobre arquitetura e pintura. Piano não é móvel, mas mobiliza um bocado a gente.

sábado, 25 de novembro de 2017

Do Porta-Lápis

No estojo, que imita couro, vão três lápis de corpo e cor que não se confundem com as quatro canetas que lá estão -- todos para sobre muito tentar falar. Nem falta a borracha, que suprime, a régua que mensura, um par de clipes a prender rascunhos teus à palavra já impressa. 
Procurando mais um tanto, toparás com o apontador, que afina os lápis, a dizerem de mais perto o que o sujeito mal retém. Escrever é abrir comportas. Melhor fica se à ponta estreita do grafite corresponder proporcional agudeza. 
Retira do estojo a régua, que também é apoiar, sublinhar e cortar; mantém a borracha a distância conveniente; sublinha certos dizeres em variada cor. 
Porventura alargará a mancha, ultrapassarás as margens da palavra, precisarás o gênero, discorrerás sobre a matéria que o volume aporta, dirá mais: sobre a época em que foi dado a público e o estilo que emula. 
Findo o trabalho de escrever -- arte, ofício e engenho --, bota tudo no recipiente, corre o zíper e reposiciona o estojo ao alcance dos livros e mãos: livres para eles percorrer outra vez, assinalar, recriar. 
Repete, sem cessar.

quarta-feira, 15 de novembro de 2017

Inexprimível?

Se quiseres definir "amor", à primeira dificuldade dirás: "ah, não se explica; só se sente". Repara que, nem por isso, os sábios deixaram de descrever o aspecto de quem o experimenta, tampouco dissecar seus múltiplos sintomas. Empédocles disse que o amor soma; o ódio subtrai. Afirmava o Kama Sutra que o sexo dispensa o amor; mas não o contrário. Nos Cânticos de Salomão, marido e esposa ressentem a união e a despedida; Nos sonetos líricos, Camões emula Petrarca, para formular o afeto sob a forma de antíteses. No segundo volume de Dom Quixote, o cavaleiro observa a Sancho Pança que amor e poder são as "duas maiores forças" sobre a Terra. Antônio Vieira explicou, no "Sermão do Mandato" (1670) que o amor "naturalmente une; mas se é excessivo, divide", no que reverberou Platão e Santo Agostinho. O excesso redunda em morte. O ciúme matou o amor que Bentinho Santiago talvez nutrisse por Capitu, no que imitou o gesto de Otelo, três séculos antes. Um narrador de Lima Barreto assegurou que "a doçura é a maior força da Terra". Sigmund Freud disse, em "Mal estar da Civilização", que o custo da civilização era a contenção dos desejos. Dave Gahan suplicou, em "Stripped", que a pessoa se afastasse da cidade, desnudasse "até os ossos" e "cantasse apenas para ele". Bono Vox disse, em "Bad", que se pudesse, se conseguisse, deixaria as coisas seguirem outro rumo. Em "Clocks", Chris Martin indefine a mulher ("You are") -- forma bem mais inteligente que relatar minudências chorosas e pueris, a exemplo de uma penca de cantores ditos "sertanejos universitários". Quanto a mim, disse incertas vezes que água demais afoga; terra demais resseca. Convenhamos, rediscutir o tópico não mudará as nossas vidas, mas talvez valha como exercício mental.      

segunda-feira, 13 de novembro de 2017

It's not a garbage!

Conheci o som da banda Garbage no final da década de 1990. Àquela altura, eles haviam lançado dois álbuns (Garbage, de 1995; 2.0, de 1998) e eu ficara bastante impressionado com a qualidade do pop rock/alternativo/hip hop que eles produziam.
De tempos em tempos, boto os CDs para rodar ou acesso a alguns de seus clipes no YouTube. Decorridos alguns meses, a sensação de escutar “Stupid Girl”, “The trick is to keep breathing” ou “Cup of Coffee” (esta, do Beautiful Garbage) é ainda impactante. Afora as belas melodias e complexos arranjos do grupo, a belíssima voz de Shirley Manson e a postura da banda, sob o palco, transborda entusiasmo.
Não costumo esperar pela semana final do ano, para percorrer uma viagem interior. Tenho agido dessa forma há muito tempo (salvo engano, desde os vinte e poucos…). Significa que começo a prestar mais atenção a mim mesmo, às coisas que disse (ou calei) e as atitudes que tomei ou suspendi em novembro – espécie de "mês quinta-feira", se o ano se resumisse a uma semana tida por atarefada e útil.
Na imersão deste 2017, topei com versões raras de diversas bandas, conheci grupos novos, recordei letras de algumas músicas e me deparei com um livrão que traz a biografia do Garbage, escrita em parceria com o jornalista Jason Cohen. Estiloso, em capa dura, e recheado de fotos e depoimentos dos meninos grandes, a biografia começa da melhor forma: a mãe de Douglas Erikson, além de Shirley Manson, “Duke” Erikson, Steve Marker e Butch Vig, registra(m) suas impressões sobre a banda e seu papel nela. 


A chegada do livro, hoje pela manhã, fez-me celebrar o dia com maior alegria ainda. Suspeito que deixarei de fazer muito do que estava em meio (anotações nos TCCs de meus orientandos, leitura de uma tese sobre Guimarães Rosa, escrita de um ensaio sobre Saramago, interpretação de algumas linhas do Garbage no baixo etc), afinal “it’s always Garbage time”!

sexta-feira, 29 de setembro de 2017

Arte de Acolher


"War, children, it's just a shot away

It's just a shot away" (The Rolling Stones)



"Dar guarida" é expressão de alguma beleza e sentido, mas desgastada pelo tempo que, dentre outras coisas, tornou-nos menores, mais exigentes e incertos termos piegas. Vá lá, cogitemos em um sinônimo atualíssimo... Pronto: "acolher". Está bem, assim? Muito obrigado. O senhor é muy gentil.
Afora a questão semântica, pense cá, Quando eu lecionava na Fatec São Caetano do Sul, costumava dizer aos alunos (e colegas), dentro e fora da sala de aula, que acolher os estudantes é tarefa primordial da instituição de ensino dito superior.
Disse e repeti isso ao longo de cinco anos (ou dez semestres), três, quatro vezes por semana, para todas as turmas (ADS, Jogos, Secretariado e Segurança da Informação), onde vendia barato aulas de Língua Portuguesa (I, II e V), Comunicação (I e II) e Ficção Interativa. 
A partir de abril de 2014, percebi que "dar guarida" continuava sendo uma questão importante, também na universidade. Persisti em dizer o mesmo, de outras formas. Há que se investir parte do nosso tempo e energia na acolhida aos estudantes. 
Porventura, alguns verão nisso atitude brega e demagógica; outros, populismo rasteiro e antiacadêmico. Pouco importa. Há que se abrigar os alunos: não podemos nos furtar a servir como eventual referência para eles. Nisso não entra pretensão; apenas obviedade. 
De nada adianta pensar no que fazer, quando eles deixarem a universidade. Acenar de longe é dizer adeus duas vezes. Não confundamos sala de aula com doutrinação mercadológica. 
Que eles vejam, em nossa companhia, oportunidade de refúgio ao senso comum e à padronização. É bem verdade que corremos o risco de não sermos levados a sério, ou que confundam o nosso papel de professor/orientador. Será a oportunidade de dizermos aos nossos alunos: discernimento também é saldo da aprendizagem.