sábado, 17 de setembro de 2016

Metonímia da Carteira

Sabemos como é temerário classificar as pessoas. Mas podemos justapor atitudes assimétricas, com o fito de refletir. Coloquemos nestes termos. Há dois tipos de gente: aquelas que, de antemão, separam o bilhete único, o ingresso do cinema, o documento, as cédulas (ou as moedas) e aquelas que não o fazem. As do primeiro tipo agilizam a sua viagem, a sua entrada e acomodação no cinema, o acesso à área de embarque, o pagamento da passagem, a aquisição do produto que desejam. Assim, favorecem o fluxo da fila no ônibus, na bilheteria, no portão, no caixa. Ou seja, de alguma forma consideram a existência do coletivo. As pessoas do segundo tipo julgam-se privilegiadas por "terem chegado" lá. "Agora é minha vez: vou saborear o momento, valorizar o passe. Os outros que me esperem". O pior é que, muito frequentemente, os indivíduos da segunda categoria (e de segunda categoria, a meu ver) tomam os espaços a que pesssoas mais simples sequer têm acesso. Comumente, bons modos e bom senso não caminham juntos com a posição na escala social. Pelo contrário, muita gente de segunda classe supõe que a espera do outro as coloque, de alguma forma misteriosa, sob o patamar mais elevado -- ainda que seja no papel incrível de passageiras de ônibus ou avião, espectadoras de cinema ou clientes a comprar cebolas no mini-mercado.  

terça-feira, 13 de setembro de 2016

De volta à ativa

Após as férias usufruidas em julho e o afastamento por motivo de saúde até a semana passada, eis-me de volta à Universidade. E quem diz "Universidade", também diz "Unidade", "Departamento", "Colegas" e "Alunos", café em companhia dos amigos possíveis -- dentro do universo acadêmico. É a primeira vez que retorno às atividades profissionais, após um período forçado (e sentido) de ausência. Vá lá, deve ser a vantagem de ter quarenta e poucos anos. Nesse intervalo, estive apenas uma vez no Campus. Era domingo: vim retirar um livro indispensável para a escrita de um texto sobre os jesuítas. Os dias de expectativa por exames e procedimentos levam a gente a repensar tudo. obviedade a que me dou o direito de mencionar. Isso significa que sempre podemos aprimorar nossas capacidades de (in)tolerância, rever ou consolidar convicções. Mas, por falar na Companhia de Jesus, muitas descobertas foram feitas no que li -- o que permite relativizar os múltiplos papéis dos irmãos da Ordem, por mais de dois séculos, nos Estados do Brasil e do Grão-Pará. Até os embates com a Coroa, eles foram soberanos (espiritual e temporalmente) nesses territórios. Não é coisa de somenos: ainda hoje, assistimos a lutas bem menos refinadas em torno do poder, sob o patrocínio da iniciativa privada, com direito à bala, fundamentalismo e a chaga do latifúndio.  Pensando bem, será ótimo ir ao Rio, no domingo. Uma semana à mais para uma universidade de menos: fórmula orginal e oportuna, a ponderar no café da Rua do Ouvidor.

terça-feira, 6 de setembro de 2016

Quadras Militantes

 
Decerto a mulher que aí vês é devota:
Fez o sinal da cruz, mal avistou a Igreja
Metros à frente, ao mendigo ajoelhado
Como de praxe, afetou vista grossa.

Certamente o garoto que aí tens é esforçado:
Fez sinal para o motorista, quando passou o ônibus
Passos distante, o gesto transformou-se em ordem
Ele que me espere: ao fim do mês tem ordenado.

Quiçá a jovem que percorre a loja é deveras feliz:
A cada gôndola uma gargalhada, entre colas e giz
Mal sabe o funcionário, o cliente e o gerente
Que motivos eles dão à moça de brim.

Por certo o homem fardado está ao lado da ordem:
Manda fechar bares e sair clientes, o dedo em riste
Não aprendeu a reconhecer seus legítimos inimigos
Em nome da lei, ele é quem cega, fura e espeta.

Não duvide, o senhor que sai do carro é refinado:
Botou o auto em frente à entrada e, indiscreto,
Ordenou pelo contrário: – Deixei ligado!
Tinha pressa o sujeito, assim muito se explica.

Dia desses, hão de se encontrar na passeata infeliz
A mulher, que ora dará um carro ao filho empenhado
A jovem risonha, ao retirar as algemas do namorado
O senhor atarefado, em nome de deus e da pátria.

quarta-feira, 31 de agosto de 2016

Metafisica de Mefistófeles

Para Lincoln Secco, autor de História do PT

Gostaria de conclamar aos leitores desta Revista Pausa a que leiam a oportuníssima edição n. 109, da Revista Brasileiros – especialmente dedicada a discutir os bastidores que removeram a Presidenta Dilma Roussef do Palácio*, a despeito dos 54 milhões de votos que recebeu há coisa de dois anos.
Hoje, no início da tarde – a exemplo do que já houvera em dias igualmente sombrios –, a cada rojão, acompanhado de gritos de ofensa pessoal, uma parcela bestificada e tacanha da Consolação confirmou a que veio ao planeta: brigar pelo “seu” (o que quer que isso signifique e implique), desqualificar o que não compreende, aniquilar aqueles que “caem na contramão, atrapalhando o tráfego”.**
À época em que Fernando Collor de Melo foi impedido de reinar, vinte e quatro anos atrás – na província de pernas abertas para todo e qualquer capital estrangeiro –, nossa atriz maior*** esteve num Programa entediante e emburrecedor de domingo, e observou com notável lucidez que o “impeachment” do ex-Presidente era a demonstração cabal de que 500 “palhaços” votaram contra 1.
Ora, o episódio de hoje envolve métodos similares, embora os motivos sejam muito diversos. No caso de Dilma, afora os abafamentos do presente e do passado, os meios de comunicação tiveram papel decisivo, ao construir e consolidar uma imagem negativa da mulher e do Partido que ela representa.
Evidentemente, quando as gentes lúcidas, como Mino Carta, Leonardo Boff, Chico Buarque, Letícia Sabatella, Gregório Duvivier etc vieram à internet para manifestar as necessárias ponderações – frente às premissas construídas segundo o ritmo martelado de “ladrões, corruptos, comunistas” –, a imprensa tratou de cristalizar uma nova tática: disseminar a ideia de que uma sigla partidária foi capaz de dividir todo o país.
Mais uma vez, a estratégia simplista – tão óbvia, quanto infeliz – foi imediatamente absorvida e reproduzida por um bando de mentes fracas, cuja opinião é facilmente construída ou desconstruída, ao sabor das “autoridades” globais ou moralistas de ocasião (aqueles que matutam as capas mais ofensivas e partidárias, no país).
Não se trata de inocentar o pessoal que errou, mas de ampliar o alcance do periscópio seletivo das operações de nome pomposo e escopo mínimo. Vale (re)lembrar a história da imprensa no Brasil. Nossos jornais e revistas de maior circulação funcionam sob o tripé Empresários/Anunciantes/Índices de Audiência. Reitero o óbvio: não há discurso neutro; não há jornal sem partido****.
Por exemplo. Noutro dia, visitei um apartamento (o meu está à venda), para tentar uma eventual permuta. Como eu relutasse em dizer que era professor da Universidade de São Paulo, o corretor insistiu, insistiu, até que revelei a disciplina que ministro... e onde. Adivinhem a pergunta seguinte? “Mas você não é daqueles doutrinários, não, é?”. Como se não houvesse doutrina de Direita...
A grande diferença entre uns e outros é que gente da Direita se deleita em provocar sobremodo os outros, ainda que a Esquerda (sim, ela existirá enquanto os entreguistas persistirem em seu cinismo pseudopatriótico) esteja “quieta no seu canto”, como sugeria aquele grande poeta mineiro (puxa, uma terra de pessoas tão diferentes!)*****
Ah, mas é claro: poesia é coisa de gente idealista. O mundo se move segundo os desvãos da Economia, do Sexo e conforme a lógica unitária e perversa da recompensa (a carona, o diploma, o dever de casa, a viagem de formatura, o carro dos dezoito anos, o casamento como perpetuação da Casa Grande...).
Diz pra esse moço pretensioso, metido a blogueiro, que mude de país e reaprenda a conviver com a democracia (unitária) de quem defende o progresso (a qualquer custo), por sobre os mendigos (gente inútil) que se apinham nas ruas, a mercê dos rostos excessivamente maquilados e mentes fúteis, que desfilam na Oscar Freire e na Maria Antônia – sobranceiros, gastando as bolsas do governo e as mesadas de papai e mamãe, enquanto admiram o penteado mefistofélico do estadista de ocasião. Tsc, tsc [31 de agosto de 2016].

Notas, em tese, elucidativas:

*Palácio passou a ser um perverso eufemismo, no país dos sem-teto, dos sem saúde e dos sem aumento salarial.
**Excerto de Construção, música de Chico Buarque de álbum homônimo (1970).
***Refiro-me a Fernanda Montenegro.
****Alusão ao projeto de lei “Escola sem Partido”, proposto pela gente de bico chato e largo (e seus asseclas).
*****Refiro-me a Carlos Drummond de Andrade (1902-1987).

terça-feira, 23 de agosto de 2016

Balanço Olímpico

Algumas coisas chamaram a atenção, durante a realização dos jogos no Rio de Janeiro. Para começar, a banalização do adjetivo "olímpico" por parte de uma emissora de televisão. A repetição do termo só perdeu a medalha para a qualidade de locuções redundantes e comentários pífios de gente que não merece nem o posto, nem o salário, tampouco a audiência que recebe. Tão ou mais impactante que a fala desautorizada de tanta gente foi a torcida evidente das emissoras pelos atletas dos USA. Vejamos. Na maratona feminina, o grupo que ia à frente recebeu menos consideração que a "valente" corredora ("americana") que vinha bem atrás. Até as câmaras se posicionavam de modo a destacar os esportistas em azul, vermelho e branco, não só nessa modalidade. Durante as apresentações dos ginastas, um repórter experiente ressaltava que a Coreia do Norte fazia de seus atletas garotos-propaganda do regime ditatorial. Como muita gente, ele se esqueceu (providencialmente) de comentar que algo similar acontece, desde a segunda guerra mundial, com os representantes da pseudo democracia liberal estadunidense. Na partida de vôlei com a Rússia, em disputa pelo bronze, à medida que o jogo avançava, a empolgação de locutor e da comentarista perdiam a aparente neutralidade, até a indisfarçável comemoração em torno de mais uma "conquista" daquele país. Por sua vez, a torcida local -- que assustou tanta gente por não respeitar os silêncios necessários e por vaiar gente esforçada, inclusive no pódio -- vestiu a camisa da corrupta entidade futebolística, no melhor "espírito olímpico". Quando digo que muitos dentre nós não passamos de neo-colônia dos Estados Unidos, não há exagero nisso. Cultural e economicamente, muitos brasileiros se espelham nos casos de "sucesso" de lá, embora eles mesmos ressaltem as enormes diferenças entre os países. Estamos cercados de basbaques com microfone e, pior: eles são os maiores responsáveis por "formar" a opinião pública de quem não pensa sem a sua tevê (seja ela smart, ou não).      

quinta-feira, 2 de junho de 2016

A Revolução dos Guarda-Chuvas

As revoluções elegem seus símbolos, lugares e protagonistas. Foi assim com a Revolução do Porto; assim se deu com a Revolução Cubana; assim assado com a Revolução dos Cravos. 
Em tempos de solidariedade rara e engajamento pífio, o sol, a chuva, a tormenta da "grande" mídia; a violência alastrada como justificativa para o "estamos aí", "o mundo é assim", não há como negar o impacto provocado pela soma, pelos movimentos que agregam, repõem e propõem.
Quarta-feira, 1o de junho de 2016 d. C., em acordo com com o Calendário Gregoriano. Sob a chuva, incontáveis guarda-chuvas: metonímia multicor das vozes que não se calam, nem bastarão.

segunda-feira, 23 de maio de 2016

Pausa

Hoje estreio na Revista Pausa, assinando a coluna Literatices -- a convite da editora Márcia Costa e da cronista Marina Ruivo. A ideia é que as colaborações sejam semanais e versem sobre assuntos não exclusivamente relacionados à "Literatura" (conceito recente, aliás, do ponto de vista histórico). No texto inicial falei sobre José Saramago. Não sei bem qual será o tema dos próximos dias e essa boa ansiedade em escrever, para além da forma e do currículo, talvez seja a maior motivação. A revista congrega gente muito boa, inclusive contistas, artistas, pensadores e críticos -- razão, outra, que me orgulha por integrar a equipe. Pausemos. http://revistapausa.blogspot.com