domingo, 8 de janeiro de 2017

6 de janeiro de 2017, às 9h e pouco

Sinto falta de Vitória. Algo estranho para se dizer, tendo em vista que embarquei há pouco, de volta à Pauliceia. Da primeira vez, estive lá em 2003, em visita a Maria, minha mãe. Foi um "alumbramento" -- como diria Manuel Bandeira (confira lá em Evocação do Recife). Amei a cidade; desconfiei de suas intenções -- diante de tantos grupos religiosos a tripudiar sobre o Estado laico (sim, e a despeito do nome sugerido por suas iniciais). A bem da verdade, não é bem do mapa ou da paisagem que sinto falta. Mas de minha mãe. 

sábado, 31 de dezembro de 2016

Para além do caviar

Nonada. Eu havia me comprometido em ler uma relação de dez livros no prazo de seis semanas. Mas, hoje, não resisti e comprei o último de 2016: Caviar é uma ova, do Gregório Duvivier. Não é a primeira vez que folheio o material. Eu já o havia feito, dias após o lançamento na Livraria. Desta vez, encontrei-o em outra loja, aqui do Centro da Pauliceia: reunião de crônicas desse humorista e articulista de grande talento. Reparo que o volume abre com um relato ao lado de Clarice e termina com aquela bela carta que Gregório dedicou a ela, para sua coluna no jornal. Não creio que essa disposição esteja assim por acaso. Mas, se porventura o for, a coincidência só valoriza o livro e atesta a coerência e sensibilidade de seu autor. Minha maior dúvida, agora, é se o incluo, ou não, na lista dos dez, que, assim, virariam onze. Creio que sim: posso mostrar aos passageiros de Guarulhos que há algo mais inteligente que as emissoras a que assistem e as revistas e jornais que persistem em ler, como se se tratassem de mensageiros da verdade. Podemos muito mais. Levemos Gregório por aí, ainda que seja para mexer com a suscetibilidade das pessoas, horrorizadas com o tom de vermelho (e azul, e branco, e preto, e dourado) que vai na capa.   

segunda-feira, 26 de dezembro de 2016

Homens que trotam

Alguém já terá notado. Sujeitos(as) que se julgam (mais) importantes, costumam sobrevalorizar seus mínimos gestos, supondo reafirmar sua máxima dignidade, na tosca supremacia que autoproclamam perante os demais. Provavelmente isso acomete todas as classes e ofícios. Há doutores, mais "graduados" que outros, que exigem a anteposição do título, que vai no diploma, ao nome. Também existem os que caminham bem devagar, a sinalizar para os pares e subalternos que eles, sim, têm tempo (também) porque possuem mais poder e dinheiro. Porventura estejam certos: quem anda com vagar corre menor risco de ser (ou parecer) estabanado. O caminhar leve, ondulante e vagaroso sugere ponderação, enquanto o sujeito discursa, absoluto, sobre amenidades. De fato, não há muita elegância em correr para pegar o ônibus que está a ultrapassar o ponto. Nem há dignidade em escapar ao fechamento da agência bancária, para obter uma cifra de papel. A questão, é claro, não se resume a comparar os caminhares, mas em lamentar que haja pessoas a vangloriar a si mesmas, malgrado a miséria moral e material padecida pelos outros. Não há qualquer mérito ou generosidade nisso. Bastaria que os sujeitos morosos acompanhassem alguns cavalos a galope para ver que, nos animais, o porte não demanda esforço -- mesmo porque eles seguem as leis da natureza. Nós, racionais, ególatras e exclusivistas, é que temos a competência inigualável para nos desfazer dos outros em tom de soberba, para justificar a distinção social em nosso favor. Evidentemente, não estamos iguais: criação e oportunidades fazem muita diferença. Mas, somos humanos. Truísmo que vale a pena relembrar, para além de cenas hipócritas em torno de manjedouras, tamanho miniatura. O sol não nasceu para todos; tampouco a estrela-guia. 

sábado, 24 de dezembro de 2016

Meditação sobre a prancheta

Era uma vez uma prancheta, objeto para ler, escrever e apoiar. Fazia uns quarenta anos que ela estava em meus planos: item a carregar palavras alheias e próprias; material para afixar folhas e transferir ideias. Coisa e sinal de que se pretende aprimorar o contato com o reino dos vocábulos: contágio para muito se estimar. A superfície plana, o grampo firme: micro-contexto ideal para que o lápis (metonímia), estável e sólido, liberte o maior número de palavras velhas e novas. Textos a rascunhar, gêneros a preencher: anotações, registros, bilhetes para mim mesmo. Pista para pouso e decolagem de meditações. Prancha diminuta não impede algum velejar. 

 

quarta-feira, 21 de dezembro de 2016

Atende-se

Chama-se Francisco e trabalha num café. Espremido e o tempo todo em pé. Nesses anos de idas e vindas pela Consolação, nunca o vi mal humorado, malgrado o tratamento nem sempre equivalente que recebe dos fregueses (habituais) ou clientes eventuais. Chama-se Francisco e costuma tratar a todos de modo doce e afetuoso: "Tudo bem, Querido?". Já reparei: quando percebe que o consumidor precisa de mais palavras, desata a falar amenidades; e se o visitante anseia por silêncio, só se ouve o som do expresso, o abrir e fechar da portinhola, as leves pancadas da espátula no porta-pó, o tilintar da colher. Francisco pergunta, "Acúcar ou adoçante? Quer uma aguinha com gás"? Nem sempre correspondem ao tratamento que lhes dispensa, mas ele prossegue, com a implacabilidade que só a doçura permite. Obrigado, Franciscco. Amanhã passo lá no café e tento levar a sua amabilidade adiante. Esta Pauliceia, pós-moderna, a-histórica e hostil anda a precisar. Diga-me se posso lhe ofertar esse punhado de palavras, se as julgar convenientes e merecedoras do seu caráter. Cordialmente.

terça-feira, 11 de outubro de 2016

Das Coleções

Nunca fui muito bom em colecionar coisas. Selos, carros em miniatura, CDS promocionais etc. Mas eis que, nos últimos anos, consegui completar algumas delas. Na sexta-feira passada, adquiri o último número de uma série de "grandes nomes da literatura". Por isso, semanas antes havia me programado para declarar a todos (e especialmente para mim mesmo) que não me envolverei mais em desventuras do tipo. Especialmente no caso dos livros, a tendência é acumular títulos dobrados. Quando a edição antiga está anotada, o questionamento é ainda maior. Talvez só o fetiche explique a falsa necessidade de contar com duas (ou mais) obras idênticas de um autor que sequer pretendemos estudar. Exercendo uma severa autocrítica, "colecionismo" pode bem ser uma palavra enfeitada que utilizamos em lugar de "consumismo", puro e simples. Dizem que tomar consciência é percorrer metade do caminho que nos leva à mudança. Porventura os outros cinquenta por cento sejam fruto da convicção ou temperamento da idade. A ver. De todo modo, o auto-manifesto está proclamado: coleções, não mais. 

quarta-feira, 5 de outubro de 2016

O monstro do banheiro

Dia desses, a caminho de um curso extensão sobre o legado da ditadura no Brasil, tendo chegado bem antes do horário da aula, pedi um café e duas empadas num barzinho simpático, uma quadra antes do Shopping Santa Cruz. Tomei, comi, paguei. Em seguida, pedi para utilizar o banheiro. Três minutos depois, ainda na cabine, fui surpreendido com três pancadas muy civilizadas na porta. Irritado com a falta de compostura alheia, perguntei em voz alta: "-- Sim?!", ao que a criatura do Lago Ness não respondeu. Acelerei os procedimentos para antecipar a saída e, espantem-se, o sujeito havia desaparecido, talvez encolhido na mesa à esquerda, devidamente acompanhado. Coitada dessa mulher. Coitado desse bar. Coitada desta cidade. Eis o legítimo Estado-Violência. Bora escutar Titãs e ler Agamben?