quarta-feira, 13 de setembro de 2017

Como Buscar um Livro

1. Encomende o exemplar recomendado por pessoa de confiança (seja ela de osso, seja de papel)
2. Certifique-se de que há bons cafés perto do sebo (seja para tomar um coado, seja um expresso)
3. Cumprimente as(os) antendentes e, de pronto, diga o nome do autor e/ou título do volume
4. Não deixe a loja sem consultar as demais sessões
5. Carregue o livro com a capa virada para a multidão
6. Peça um café para saborear o novo artefato duplamente
7. Compartilhe a mais nova aquisição com leitores em potencial
8. De volta à casa, cheire, manuseie, percorra capas, lombada e orelhas com os dedos
9. Folheie o interior: ficha catalográfica, sumário e colofão
10. Deposite-o na estante ao lado de outras obras do mesmo autor (ou de seus rivais teóricos)

domingo, 10 de setembro de 2017

Ut Pictura Poesis

Chamava-se Juliete Roinat Chauvin. Muitas vezes, quando visitava meus avós em Garibaldi, descia até a "cave" (porão) e me postava silenciosamente ao lado dela, enquanto pintava. Ninguém lá ia: um local úmido forrado de brita. De lá escutávamos os passos da família, as imprecações de quem estava a jogar cartas com o marido, Jean Alphonse. Vestida com o avental, cheio de cores difusas, Juliete sorria de soslaio, ajeitava os óculos e, caso eu perguntasse, explicava algumas técnicas de autodidata ("assim a gente faz o rio", "assim a gente faz as folhas das árvores", "este aqui no barco, quem é?"). Todos sabíamos: quando a voz de minha avó não se fazia ouvir, ou ela estava dormindo, ou na "cave", a representar retratos, equipada de tubos de tinta, paleta de madeira, pinceis de vário tamanho, removedor e pote d'água. Naqueles instantes -- longe da azáfama da cozinha, depois de recolher as migalhas da mesa de jantar com o verso das mãos, lavar e enxugar a louça, após colher vagens, ervas, cenouras e frutas no quintal -- a desejada solitude. Minha avó era calmaria e atividade em uma só figura: doce e compenetrada. Falava baixo, murmurava explicações, métodos do seu pintar. Era um neto pequenino; não havia lido Horácio, nem sabia que as escolas de pintores se classificavam de acordo com as épocas, estilos, gêneros, técnicas, dimensões, materiais empregados; tampouco o que era decoro. Eram momentos que não saberia exprimir, quando criança; que não sou capaz de versificar ou traduzir, enquanto pretenso adulto. Mas chamava-se Juliete Roinat Chauvin: Juliete, para Jean Alphonse; "mamã", para os filhos; "memê", para os netos. E tinha dois gatos malhados que lhe faziam máxima companhia: Minu e Minete. É bem provável que, em sua mudez, os felinos soubessem desde sempre o que não se pode representar em verbo e imagem. Quem contornasse a casa e mirasse as janelinhas do porão, avistaria uma senhora magra, de óculos quadrados e coque a apanhar os cabelos grisalhos bem no alto, em vestidos floridos e o mesmo avental, a tocar a tela com o pincel, pontilhando-a de árvores, estradas, charretes, rios, montanhas, pessoas, sois e luares. Chamava-se Juliete Roinat Chauvin e era minha avó. Pintava quadros com que presenteava a família -- alguns deles, há tempos, comigo. Não sou pintor, nem sei avaliar bem as artes plásticas, mas são meus quadros prediletos. Talvez emblemas a celebrar os vínculos que não explicitei, quando virei adolescente, o ego inflou e as palavras encolheram. Modos de carregar a minha avó, Jean Alphonse, tonton Raymond, tonton Claude, tia Nadi, tonton Robert, tia Miriam, tia Marta, os primos Kika, André, Dani e Filipe, meu irmão, meus pais, Pierre e Maria, a cadelinha "Pití", os jogos de bocha, as conversas filosóficas no "cabanon" (antigo galinheiro improvisado em reduto para meu tio Raymond), o ruído de cascalhos sob os pés de chinelos, a visita das borboletas às flores, os muros de pedra e cimento (que "ajudei" a mexer); as árvores que auxiliei a plantar; os legumes que colhi com minha tia; a lenha que busquei; os cadarços que aprendi a amarrar; os modos de segurar os talheres; o harmônio, onde assistia meus avós e visitas tocarem músicas lá de longe; os jornais da França para meu avô, que eu lia de curioso; o jogo de palavras cruzadas, disputados alegremente pelos tios, equipados com o Petit Larousse; os vinis da vitrola organizados na discoteca da sala (Verdi, Mozart, Beethoven e que tais), as poltronas amarela e turquesa, os sofás, os quadros na parede; o café, às seis da manhã, com generosas "tartines" recheadas de mel, geleia e manteiga -- o café, puro ou com leite, servido às seis da manhã por Juliete. Nos momentos em que ela mais desejava estar só, eu aparecia a fazer pequenas confidências e constatar o maior silêncio. Terá sido ela que me ensinou a apreciar a quietude, o sussurro? a contemplar as coisas com vagar e ficar na sombra, enquanto o alarde pisa o piche e as luzes inundam as janelas, os carros, as roupas de vinil, a maquiagem carregada? Diga lá que nome isso tem. Merci, "memê", et salut!

terça-feira, 5 de setembro de 2017

Circo X Barbárie

Sonhei que conversava com uma colega imaginária (mas de postura bem verossímil), num gabinete, em defesa dos funcionários da instituição; que a também professora, mais graduada na estrutura hierárquica, desqualificava o relato que eu fizera, supondo parcialidade.
Eu a contestava reafirmando que, sim, já havia conversado tanto com os funcionários quanto com outra professora (graduada), para resolver a questão. A douta hierarquizada, depois de se certificar (pela descrição) de quem era a terceira colega, disparou o segundo petardo: não gosto dela.
De súbito, a conversa – que era uma entrevista a portas fechadas, separando os debatedores por uma mesa estreita – tornou-se assembleia. Agora eu estava no fundo de uma pequena sala, com várias pessoas nas demais carteiras, e o que era diálogo tenso virou discussão.
Z e eu trocávamos farpas, até que precisei proclamar que era “de esquerda” (o que possivelmente explicaria o fato, ainda que em ambiente onírico, de eu defender outra categoria, que não a “minha”). No sonho, Z fez cara de desimportância, diante dessa fala inflamada.
Mas, então, a sala já era bem maior. De repente, para além das cadeiras, numa espécie de coxia ampliada, havia um monte de estudantes a carregar um jornal institucional e equipamentos de filmagem. Seis deles acenavam de longe: convite para gravar uma entrevista. Cumprimentei um ex-aluno (dos tempos de colégio ou Fatec, não me recordo) e os outros, dizendo “muito prazer”.
Acordei.
Qual seria o teor da entrevista? Que perguntas seriam enunciadas?
Acordemos...
...Ainda que seja para reiterar o óbvio: num pseudopaís em que quase todos viram a cara para os menos favorecidos, o papel do Estado é atuar justamente onde quase ninguém tem culhão nem vontade. Desde quando modernizar é excluir?

sexta-feira, 1 de setembro de 2017

Divórcio

Enviei, há pouco, uma cópia autenticada da certidão de casamento para a (ex) mulher – que já foi parte e contraparte – em que consta a averbação de nosso famigerado divórcio (julgado, aprovado e mandado registrar por um juiz desta Pauliceia). Doze anos após a Separação dita consensual (tão cordial que me levou a conhecer diferentes tribunais da vila de Piratininga, durante um ano e meio), aceito o conselho da advogada (“envie a cópia”) e saio dignamente desse pedaço estranho de historieta. Somos tão poucos e pequenos; mas as sensações podem ser maiores.
Coisa de somenos, bem o sei. Mas se me puser a contar o que sucedeu até o despacho da correspondência, via correio, talvez concordem que vivemos epopeias diariamente. Que os olhos do (a) leitor (a) suportem o relato e me digam, por obséquio, se os eventos a seguir podem ser considerados sintomáticos.
Após o equívoco cometido pelo cartório de Garibaldi (em uma transação que se esticou por semanas), enfim a certidão averbada chegou. Hoje, após o singelo café com pão, resolvi uma série de coisas em casa por e-mail. Pouco depois das 11h, saí para encontrar um amigo, dos tempos de graduação, no BH Lanches. No trajeto, fiz duas cópias autenticadas do documento (cartório da Frei Caneca), descobri outra agência fechada dos correios (Shopping Frei Caneca), postei um voucher para Dona Maria (agência da Matias Aires), retornei à Augusta, compartilhei o teor da certidão com o amigo, com quem também gargalhei, acompanhei-o até a Consolação (estação da Paulista), desci novamente em direção à agência (Matias Aires) e solicitei envelope. Balcão ocupado; segui para outro que dispusesse de caneta. A tinta falhou; voltei ao outro balcão, preenchi os campos Remetente e Destinatário e retornei ao caixa (número 9), que registrou o documento, cobrou o pagamento e desejou “bom fim de semana”.
No regresso ao castelo de 40 metros quadrados, mudei a rota de costume. Desci pela Bela Cintra, virei à esquerda na Dona Antônia de Queirós, à direita na Consolação; parei para tirar uma foto de ângulo raro. Na Maria Antônia, a título de celebração, comprei um sapato novo; então, driblei a alunada do Mackenzie e, dois lances de escada depois, sentei-me em frente ao note para escrever.
Os amigos efetivos talvez me dissessem que não haveria necessidade (nem mérito da outra parte) que justificasse o trabalho que tive para enviar a cópia autenticada da certidão – ressalva com a qual eu certamente concordaria (a solidariedade dos amigos faz um bem danado à gente). Mas, sempre que possível, exerço a manutenção das diferenças (quando o caso exige) ou da solidariedade (quando a questão demanda).
Quanto mais tripudiarem, mais civilizado serei; quanto mais odiarem, mais indiferente serei. Lição para nulo aprender alheio, mas re-estabelece a plataforma onde me coloquei, favorece o diálogo com as árvores mais altivas, em meio ao asfalto bruto, e sugere alguma competência deste pseudocronista, orgulhoso por reafirmar que ele caminha melhor sobre as próprias pernas. Certos nomes vêm do mar. Que retornem a ele, também. 

Planeta Terra, 1o de setembro de 2017 d.C., às 15h33.



terça-feira, 22 de agosto de 2017

"O Nazismo é de Direita ou Esquerda?" - Parte 2 (Intervenção)

Intervenção de Jean Pierre Chauvin [21.VIII.2017]

Boa-noite, Pedro. Reli o diálogo, muito bom, entre você e o Ricardo. Vi, na internet, a justa reação de nossos alunos em comum – que se disseram saudosos desses debates na Fatec. Ricardo e eu fizemos uma ótima dupla por lá, durante nove semestres. O trânsito de ideias ia, sem peias, de uma sala a outra no mesmo corredor. Propunhamos perguntas perniciosas que os alunos levavam de um para o outro e isso agitava as aulas. Durante os intervalos, sorríamos de tudo isso e tornávamos o pensamento ainda mais complexo. Isso não aconteceu em escolas e cursinhos; tampouco acontece na USP. Os egos inflados, a falta de tempo (e qualidade de vida) leva-nos a "cuidar" de nós mesmos e esquecer os outros. É a lógica que personagens marcantes da literatura desnudaram por diversas vezes, do Pequeno Príncipe a figuras tímidas de José Saramago; de Fernão Capelo Gaivota (e sua ética do não-trabalho) aos pseudofilósofos/pop de nosso tempo, chamado erroneamente de “pós-moderno” (conceito que nada diz, mas tenta ressignificar o "presente", supondo a morte da história, a anulação do espaço e a inércia. Quer dizer: se Aristóteles estivesse vivo perguntar-se-ia: onde estão as categorias que fazem uma boa narrativa? No cinema é que não estão. No cotidiano é que não se encontram). A questão que propõe tem "agitado" o pequeno grande mundo ciber há semanas (para não dizer há anos, já que, desde que o brasileiro se tornou um dos maiores usuários do Facebook) o pensamento binário, utilitário e intolerante passou a contagiar (ou contaminar) o ambiente. Ora, virtual quer dizer simplesmente o que está em potência, o que poderia vir-a-ser. E disso pouca gente lembra. Então, a questão é complexa, embora a explicação relativamente simples. A afirmação de que "o nazismo" seria "de esquerda" incorre ou em ignorância ou má-fé. Se for por ignorância, o susto é grande, já que bastaria assistir ao excelente documentário "Arquitetura da Destruição", para logo perceber que o regime instaurado pelo chanceler (e golpista) Adolf Hitler pressupunha a anulação das diferenças em nome da pseudociência (quando, se sabe, há décadas, que a questão era financeira: no século XX, os judeus eram donos de bancos e concentravam riquezas materiais etc). Se o holocausto fosse ético, os supostos arianos não teriam se apropriado das posses daqueles de quem retiravam toda a dignidade (como bem definiu o químico Primo Levi, um dos raros sobreviventes de Auschwitz). Evidentemente, uma parcela dentre os seres que disseminam essa falácia (de que o regime era de esquerda) o faz de caso pensado. A intenção parece ser embaralhar as percepções do maior efetivo possível. Como a História foi decretada morta pelos EUA na década de 1980 (e novamente atacada pelo atual des-governo brasileiro entreguista, o que é sintomático), não será difícil a tarefa de inocular no maior público possível a dúvida quanto à esquerda (o que quer que isso queria dizer) e o nacional-socialismo (sigla populista com que o Führer pretendia sugerir a unificação do terceiro império e naturalizar a exclusão dos ditos “imperfeitos” ou “impuros”). A questão passa pelo repertório de cada um e pela capacidade (e disposição), maior ou menor de perceber os traquejos que os homens mais poderosos fazem da linguagem comum. Há um livro muito bacana do Victor Klemperer (A Linguagem do Terceiro Reich) que essas gentes (não as que agem intencionalmente do contra) mereceriam ler. Mas, sabe, Pedro, é dar esmola demais para quem confunde livre-comércio com liberdade humana e supõe que a democracia dos países ditos "desenvolvidos" é como forno autolimpante: não envolve processo histórico, nem o mundo concreto dos homens. Evito empregar o termo "ideologia" para não ser chamado de comunista, comedor de criancinha. Então façamos como o pessoal da Análise do Discurso e abordemos as palavras como coisa plástica: tanto podem servir a justificar o darwinisno social, com direito a um pseudo administrador a disparar jatos de água e atear fogo nos miseráveis da "sua" cidade "linda", quanto a inspirar 53% dos votantes desta Pauliceia a desejar que os dias gélidos, a fome e a garoa façam o trabalho sujo, acelerando a partida dos que já estavam excluídos. Tudo isso, afinal "estão na rua porque querem"; mesmo porque "o sol nasceu para todos" (como dizia o slogan do falecido ex-governador Quércia, do antigo PMDB, que foi MDB e quer voltar a sê-lo). Você tem razão: tempos bicudos. E o que mais irrita o discurso de botinas é a nossa competência para a solidariedade.

"O Nazismo é de direita ou de esquerda?" - Parte 1 (Diálogo)

[21.VIII.2017]

 Diálogo entre Pedro Francisco Morel e Ricardo Baitz

Bom dia, meu amigo Ricardo Baitz, tudo bem com você?
Ricardo, tenho visto ultimamente inúmeras crônicas, artigos, quadrinhos, powerpoints e citações acerca desta dúvida que passou a assolar o Brasil. O nazismo é de esquerda ou de direita?
Como cresci num período maniqueísta, em que achávamos, absurdamente, que o bem e o mal se dividiam em Arena e MDB, em Cuba ou Taiwan, católicos ou protestantes, azuis ou vermelhos, um ou outro, este ou aquele, jamais um pouco dos dois, ou seja, onde não se permitia muita discussão acerca de problemas no time, partido, religião, paradigma escolhido, e talvez por ter filhos que não tenham vivenciado os problemas políticos que meus avôs e meus pais vivenciaram, cheguei a discutir sobre o assunto. Cai no conto, entrei na discussão, felizmente apenas por uns dias…
Os últimos anos têm sido muito complicados para minha geração, pouco mais velha que a sua, como se não bastassem todas as inovações tecnológicas…
Mesmo sendo filho de professores universitários politizados, estudei no período militar, com aulas de educação moral e cívica, estudos dos problemas brasileiros, e estudos sociais, ou seja, o aprendizado foi total e absolutamente distorcido…
Se falarmos aos nossos filhos que Tiradentes, um alferes, ou seja, um tenente, era descrito como alguém com longas barbas, como Jesus Cristo, é capaz de não acreditarem, mas era assim. Foi assim que aprendi, e foi assim que toda a minha geração aprendeu…
Voltando aos nossos bicudos e atuais tempos, os ânimos andam cada vez mais acirrados, pessoas defendendo pontos de vista até o final, indo de encontro a fatos irrefutáveis, e a tentativa de desconstrução de tudo e de todos é geral…
As definições do que é esquerda; do que é direita, o surgimento da pós-verdade; a absurda aceitação de movimentos que discutem supremacia branca, agora com subdivisões entre a supremacia branca, branca mesmo, a supremacia branca estadunidense e a supremacia branca, mais ou menos ou latina… ridículo, imponderável, inaceitável…
Enquanto acadêmicos, ativistas, agitadores ficam discutindo se Hitler era apenas nacionalista, se apenas não gostava de judeus, se era ou não diferente de Stalin, nossos políticos estão discutindo quanto seus partidos ganharão do nosso dinheiro para fazerem campanha; qual será a maneira mais fácil de serem reeleitos, para que não percam imunidades parlamentares; baixando o salário mínimo, para recomposição do caixa; um terço dos políticos é alvo de investigações criminais; universidades públicas são sucateadas; crianças têm suas mãos riscadas com caneta, para não repetirem merenda; a reforma trabalhista ocorreu sem que a absurda maioria da população entendesse o que estava ou está ocorrendo, e sem que a elite tivesse um mínimo de perda com essa estória; a reforma política está nas mãos da pior geração de políticos que o Brasil já teve, e a reforma tributária transformou-se em criações de impostos e mais impostos sobre a classe pobre e classe média, enquanto empresários serão mais uma vez beneficiados com refis…
Sinceramente, Ricardo, se o nazismo – algo que jamais deveria existir –  era de esquerda ou de direita, e se o partido por ele criado tinha ou não o nome de socialista, me parece ser questão de somenos importância…
Tenho inclusive brincado, postando no Face:
A fome é de esquerda ou de direita?
A miséria é direita ou de esquerda?
A ignorância é de esquerda ou de direita?
– Caro Pedro, não sou assim tão mais novo, mas concordo com tudo o que você disse. Vamos agora ao entretanto, tudo bem?
O Hitler começa o livro Minha Luta com uma parábola, a de um gato e um rato. Em resumo, ele diz que na natureza, o que faz o gato? Come o rato, pois essa é a sua missão natural. O gato que não age assim se rebaixa, age contra as leis naturais, não é um gato… Ele então diz que o povo alemão é o gato, e faz as demais derivações que constatamos na história.
Essa parábola é importante pois há um pensamento que transforma os homens em animais. Não apela para o fato dos homens poderem constituir uma humanidade. Esse pensamento ou regride as conquistas feitas por uma coisa chamada humanidade ou pretende manter as diferenças e os privilégios existentes até o atual.
O que definiria o outro lado seria o contrário: a busca por mais humanidade (não necessariamente humanitarismo, que é o que a igreja faz) e humanitarismo, lutando para mostrar que o existente é construído e pode ser modificado, melhorado para um número maior de pessoas.
O ser humano é, de certo modo, animal e homem. Ele pode simplesmente comer. Ou pode se alimentar, sentindo os diferentes gostos, experimentando a comida, vivenciando algo quase sublime. No mesmo sentido, um ser humano pode fazer sexo como um cachorro ou fazê-lo de um modo muito melhor, porque humano. Pode se envolver no trabalho e fazê-lo por prazer ou agir como um boi preso a um moinho, andando em círculos por obrigação. A verdade, meu amigo, é que, diante do caos instaurado no presente, há duas espécies de “revolucionários”: os que encampam o passado e se apoiam em uma suposta natureza humana, e aqueles que acreditam na capacidade humana e na confraternização de todos os homens, que haverão de superar a barra pesada que é prover comida e alimentação para todos com o intuito de liberar as pessoas para fazerem aquilo que farão melhor: humanizar-se. Decida agora o que é direita e o que é esquerda.
Decida, também, se Hitler era de direita ou de esquerda… E isso perante os alemães e perante os demais homens…
Pedrão, quer rir um pouco mais?
Semana passada eu ministrei uma aula sobre Adam Smith e expliquei que ele não é um humanista, mas um economista, ou seja, um homem que reduz as pessoas a relações econômicas. Então, após falar da potência do pensamento dele (a indústria e a divisão do trabalho como “Riqueza da Nação”), selecionei um trecho para mostrar o que era um homem a ele:  na página 48 (SMITH, ADAM. Esboço primitivo de A riqueza das Nações in Economistas políticos. São Paulo: Musa Editora, 2001), ele diz “Ninguém nunca viu um cachorro fazer uma justa e deliberada troca de um osso por outro com outro cachorro. Ninguém nunca viu nenhum animal, por meio de gestos e gritos, procurar mostrar a outro que ‘isto é meu, aquilo é teu; concordo em dar isto em troca daquilo’. Quando um animal deseja obter algo de um homem ou de um outro animal, ele não dispõe de outro meio de persuasão senão tentar ganhar a simpatia e o favor daqueles de cujos préstimos necessita. Um cachorrinho bajula a sua mãe, e um spaniel procura, de mil modos, chamar a atenção de seu dono que está jantando quando quer ser alimentado por ele. O homem usa, às vezes, as mesmas manhas em relação a seus amigos, e quando não tem outros meios para fazer com que eles ajam de acordo com as suas inclinações, tenta, bajulando-os, obter o que deseja. (…)”. Depois ele diz na página seguinte (p. 49): “quando uma pessoa propõe a outra uma barganha de qualquer tipo, na verdade ela lhe propõe o seguinte: ‘Dá-me o que eu preciso e terás o que precisas’. Este é o único significado de toda e qualquer proposta. É este o modo como obtemos uns dos outros a parte mais significativa daqueles bons ofícios de que necessitamos. Não é da boa vontade do açougueiro, do cervejeiro e do padeiro que depende o nosso jantar, mas do interesse deles.”.
E por aí vai… então lhe pergunto: pelo conteúdo, é um pensamento de direita ou esquerda?

sexta-feira, 11 de agosto de 2017

Poema retirado de uma Crônica

Não se pensa a Lapa sem a Glória,
Botafogo sem Flamengo
O Flamengo sem Aterro
Nem a Glória sem Outeiro

Não se cruza, incólume,
O Rio de Janeiro:
Pedaço do Oitocentos
Porção de Portugal

Se algum saldo fica,
Confirma-se o mais gostar:
Antes Santa Luzia
Que Avenida Beira-Mar

Não permitam os médicos
Que eu morra...

...Sem voltar à Praça Quinze
Ou sorver a Rua do Ouvidor;
Demorar-me na Confeitaria Colombo
E assistir as gentes na Praça Mauá.

(Rio, 11.VIII.2017).