sexta-feira, 6 de dezembro de 2013

O aluno justifica o professor

Vinte e duas e trinta e poucos minutos. Praticamente doze horas depois, estou de volta à pequenina rua onde moro. Ouço uma ex-aluna (e, na sequência, um grupo de jovens de sua idade) a gritar meu nome. E eu, que em outras circunstâncias, faria um leve cumprimento e trocaria palavra ou outra com eles, senti-me tão acolhido em plena rua, que me deixei ficar por lá, durante alguns minutos. Então, cruzam-se as vozes etilicamente sinceras: "você foi um dos professores com que mais aprendi!"; "professor, que alegria revê-lo, de verdade!"; "é claro que eu tive aula com ele. Eu era do 9o A!" "Velho, eu curto todos os textos que ele posta!". Ah, que grande alegria! Pessoas tão caras de um colégio de que sinto falta desde que o deixei, em julho de 2010, com grande pesar. "Tão vendo? Agora tô na balada com os alunos!", digo a eles. Surpresos por me verem na rua em tal horário, disparam: "O senhor tava ali (no Mackenzie)?", ao que respondo: "Não, não. Eu moro ali." "Aqui?!". Nessas horas, a gente se lembra porque passou a lecionar: por acreditar nos alunos - e não em deuses inventados pelos homens para nos culpar, punir e redimir. Muito obrigado, caríssimos estudantes crescidos. Não há sequer como cogitar uma vida melhor, se desprovido da oportunidade de lecionar. Fico feliz por ter feito algum sentido na trajetória de vocês. Aproveitem a festa da vida.

domingo, 24 de novembro de 2013

Viva Walter Benjamin!

99% das pessoas que conheço - para mais ou para menos - adoram apontar o dedo em direção ao alheio, sem ao menos aparar as próprias unhas. Em entrevista recente sobre Walter Benjamin, o brasileiro Michael Löwy lembrou muito bem como dívida e culpa são os ingredientes fundamentais do mundo em que (infra)vivemos.

II

Ultimamente, há uma enorme confusão entre ética e moral - com prejuízo maior para aqueles tão orgulhosos de eleger determinado jogador de futebol como seu mártir milionário e ícone insuperável de "sucesso". Tratem de cuidar bem de seus professores, especialmente aqueles em que detectarem efetivo conhecimento, paixão pelo que fazem e respeito pelo auditório: este, invariavelmente múltiplo.

quarta-feira, 20 de novembro de 2013

Faits divers

São Paulo, 21h32, em acordo com o relógio do notebook. Acabo de retornar de uma série de jornadas, em companhia de meu amigo Gustavo. Assistimos a Gravidade, com Sandra Bullock e George Cloney - sorte de sessão da tarde mega-produzida, cujo argumento está muito longe do 2001, de Kubrick (como ousou sugerir um crítico empolgado com o clima tenso do filme). However. Na saída, descendo algumas quadras da Augusta, à procura de um lugar para jantar, topamos com uma dessas bandas de rua, composta por gente talentosa que disputa - equipada com bandolins, violinos, escaletas, vozes, percussão e violões -, as ondas sonoras com os ônibus e a fala histérica e em alto volume dos transeuntes que se creem em Londres ou New York, eternamente apressados e pomposos. De lá, depois de compreender melhor o nome da trupe-banda, paramos por mais tempo no aconchegante Dona Teresa, um bar que mistura música dançante com conversa de boteco. Muito interessante. Em seguida, faziam-se horas de nos despedirmos. "Em dezembro, marcamos outra, heim?". Um retorna pela Augusta; o outro, desce a Consolação. E desse trajeto Paulista - Augusta - Fernando de Albuquerque, fico com a sensação de que meu amigo encarará, com muita disposição, uma nova aventura em sua vida. Algo, a meu ver, bem superior, em termos narrativos, coesão e coerência, à película a que assistimos. Oh, sim Hollywood volta e meia concebe o mundo como algo binário e abstrato. Em boa parte das histórias, falta verossimilhança e avultam as vozes daqueles que alegam com desdém: "ah, eu só queria me divertir, mesmo". Sorte, Gustavo. Estarei em sua torcida, como sempre. Obrigado pela amizade.

sábado, 12 de outubro de 2013

O paradeiro de Célia

Certa feita - foi há muitos anos - conheci Célia na pista de um bar dançante. Como pretexto para uma prosa, sob o volume alto, levei-lhe uma lata de cerveja. Conversamos durante alguns minutos. Fiquei com seu telefone e nunca mais a vi. Não soube sua idade ou signo; não tive acesso ao que pensava e sentia sobre as coisas; não soube qual marca preferia beber; nem que tipos de gentes e coisas julgava melhor consumir. Ocorreu-me imaginar que nesta selva ciber, eventualmente poderíamos retomar a conversa de antes, e arrumar - de quebra - uma nova amiga. 

quarta-feira, 25 de setembro de 2013

A-formalidade

Eu não deveria, a essa altura, ficar impressionado com pessoas cujas atitudes revelam-se desprovidas de educação. Mas, não: continuo me assustando. A cada dia, há novos e numerosos exemplos: gente que não respeita o nosso horário de aulas (e, portanto, nem aquele durante o qual não estamos em aula); gente que confunde a cordialidade com que trato as pessoas em geral com falta de distanciamento profissional e respeito, portanto. Gente que, atrasada, continua a falar sem parar durante as aulas, ainda que os assuntos do dia sejam absolutamente relevantes. Truísmos de minha parte, não são? Pois é: o melhor é que, provavelmente, sejam as mesmas pessoas que vivem a exigir tanto e tudo de todos os outros. Afinal, falta-lhes a noção do alheio e, claro, uma dose bem-vinda de auto-crítica (De Crônicas Vorazes, no prelo).

segunda-feira, 23 de setembro de 2013

Um árcade

Qual um pastor em plena selva de granito e piche a ler coisas árcades, volveu-me este dia melancólico. Se por esse ou outros motivos, ou de tanto ler os versos líricos de um Tomás Antônio Gonzaga (1744 - 1810) - Ouvidor do Reino, vindo de Portugal para as Minas Gerais, no século XVIII - só sei que me concederam as musas (as memórias ou o tédio, simplesmente); ou adveio o desejo de ouvir os ingleses do Echo and the Bunnymen, em especial The killing moon: "Fate, up against your will (...) He will wait until you give yourself to him". Ah, montar imagens, Marília, em cores, pista de dança, perfume e dezembro enebriado de cervejas e possibilidades. Montemos a noite de nostalgias com esta quadra de Gonzaga: "Não sei, Marília, que tenho,/Depois que vi o teu rosto; Pois quanto não é Marília,/Já não posso ver com gosto." Como dizê-lo e mais?

quinta-feira, 12 de setembro de 2013

Das mensagens indesejáveis

Desde 1997, quando passei a contar com um número acumulativo de contas de e-mail, tenho me deparado com mensagens as mais interessantes, que tratam dos assuntos mais diversificados e irrepetíveis. Afora o tom sabidamente irônico do que se disse aqui, pareceu-me oportuno tecer uma breve consideração sobre o período "Eu mereço, eu posso!", que tem chegado a uma das "caixas de entrada", com referência ao fato de alguém ter o "mérito" e o "poder" de queimar sua epiderme (com ou sem sol, mas sempre sob o efeito da radiação, esteja claro) a tempo de se apresentar de outra forma, creio eu que em termos estéticos, para o verão. Ah, sim, o verão. Tive ocasião de dizê-lo em outro lugar que o mundo é um açougue. (CHAUVIN, 2011). Pode ser que melhoremos, como seres humanos, racionais e sensíveis, evidentemente. Mas, enquanto substituirmos as poucas escolhas que julgamos caber a nós por afirmações que condicionam nossa "felicidade" ou "sucesso" à coloração mais ou menos apetitosa da pele, terei grande reserva a esse respeito. E no inverno, as pessoas menos bronzeadas não terão direito à vida? Ah, deixemos de conversa, dirão. "Há um dia de sol - para além da tela do notebook, não é mesmo?" Creio que esteja em tempo de usar um poderoso bloqueador solar, nem que seja a título de protestar em defesa dos homens pálidos, que não cabem na (i)lógica do bronze (metal, cor e carne) a todo custo.

sábado, 31 de agosto de 2013

Das formas de razão


O sociólogo Max Horkheimer disse certa vez que "Na maior parte dos casos, ser racional significa não ser refratário, o que por sua vez conduz ao conformismo com a realidade tal como ela é. O princípio do ajustamento é dado como certo. Quando se concebeu a ideia de razão, o que se pretendia alcançar era mais que a simples regulação entre meios e fins: pensava-se nela como o instrumento para compreender os fins, para determiná-los. Sócrates morreu porque submeteu as ideias mais sagradas e correntes de sua comunidade e do seu país à crítica do daimonion, ou pensamento dialético, como Platão chamou." Eis um dos trechos mais estimulantes de O eclipse da razão: uma coletânea de falas que o pensador alemão proferiu no Institute of Social Research da Columbia University, conforme suas palavras, durante "a primavera de 1944". Fico a pensar que nesses tempos chamados pós ou hiper-modernos (como sugeriu recentemente Gilles Lipovetsky), em que vivemos um escancarado neo-ultra-romantismo, só uma pessoa um tanto pretensiosa e de ego muito inflado pode almejar dizer algo exatamente novo, original, à beira da genialidade. Apesar de a internet prometer catalogar mais de cinco mil anos de história e trilhões de sites - ou, por isso mesmo -, o máximo que podemos fazer é recombinar as coisas existentes e apresentar uma proposta para exame nosso e/ou alheio. Ela não será de todo original, a exemplo deste post, por exemplo, mas pode sugerir um novo método de aproximação de conteúdos, formas e meios de expressão. Para quem supuser que vivemos num extremo racionalismo - disfarçado de tecnologia à toda prova e em substituição de todas as outras formas humanas - vale lembrar que o mesmo Horkheimer dizia que, desde o final da Segunda Guerra Mundial vivíamos uma razão subjetiva em lugar da razão objetiva, conforme apregoada pelos antigos. Possivelmente mencionar livros dos anos de 1940 em um blog seja algo com buquê de coisa ultrapassada, velha, demodé. Não vejo problemas: o que há de soberbo nas falas óbvias e reproduções de imagens e ditos alheios, em nosso tempo? Ah, "perca", sim, o seu tempo lendo: determinadas páginas valem mais que um quilo de pessoas estúrdias que vivem a ecoar o que afirmam os âncoras, os jornalistas e outros pseudo filósofos de nossa era. Talvez "Era" seja, na verdade, um verbo mal conjugado - tão somente. (De Crônicas vorazes, no prelo).

sexta-feira, 19 de julho de 2013

Do relativo senso de cidadania (sobre um par de tênis)


Um trajeto: Avenida Consolação - Viaduto Nove de Julho - Maria Paula - Brigadeiro Luís Antônio, precisamente o número 453. Um motivo: transferir de volta o título de eleitor para a Paulicéia (aqui, grifada com acento agudo na vogal "e", em absoluto respeito ao termo empregado por Mário de Andrade em sua poesia tão citadina). No percurso de vinda, passo pelas mesmas calçadas (ou passeios, como dizem em outros cantos do país). Regresso com súbita alegria para este logradouro - de cara e quadra única - a pensar. Etimologicamente falando, lembro-me que cidadão é termo que deriva de cidade; com direito a pelo menos duas contraposições: o camponês, ou campônio, homem do campo; o vilão, oriundo das vilas e vilarejos. Em meu caso, redescubro-me crescentemente urbanoide, nestes três meses de moradia na cidade natal. Ouvindo, cá, os símiles sonoros de John Coltrane, ocorre-me perguntar por que razão, afinal - agora que o título-documento tornou a ser (e me fazer cidadão oficial) desta cidade, sinto-me ainda mais enraizado no piche, nos grafites, viadutos, roupas, vozes e modos diferentes de ser de tantos: uns e outros. Eu deveria compor uma ode ao asfalto, feito Álvaro de Campos, aquele pseudo-poeta pessoano. Dia desses, quem haverá de? Pretensão? Leviandada? Emulação? Quanto à cidadania, vamos por partes: de agora em diante, voto no Caetano de Campos, ironicamente plantado no coração da atual megalópole de Piratininga, contando seus cento e cinquenta anos.

domingo, 14 de julho de 2013

Das formas de vigilância

Eis que o que vinha sendo anunciado em títulos das estantes de T.I., agora se confirma por intermédio de diversas fontes (pessoas em entrevistas; notícias e editoriais em jornais; autores de mais livros). As contas "gratuitas" de e-mail; os chats; a nuvem....ah, a nuvem... os aplicativos miraculosos: essas e outras ferramentas que fomentam a criação, a cópia e o compartilhamento de uns com os outros, têm como destino certo os gigantescos bancos de dados das milionárias empresas. O que farão os defensores do mundo em que vivemos? Dirão: "isso é inevitável". Afirmarão: "isso é preferível à insegurança generalizada". Observarão, com muita pose, ralo vocabulário e pseudo-argumentos: "o mundo é assim; fazer o quê?; seja mais pragmático". Oh, sim. Depois, eu é que sou idealista; que vivo nas nuvens (metaforicamente falando, é claro); que perco tempo com filosofias em verso e prosa. Pois bem: mas este próprio texto será propriedade de quem, mesmo? Parei.

quarta-feira, 19 de junho de 2013

Do sublime (especulação sobre)


Quem disse que não há espaço para o sublime, nesses dias tão ásperos e superficiais? Não há estatísticas capazes de abarcar a dimensão do evento mais urgente, em marcha: a solidariedade entre as pessoas, retomando o seu lugar... digamos, para além das medidas do transporte coletivo, para mencionar apenas um exemplo.

terça-feira, 18 de junho de 2013

Missiva fraternal

Meu irmão acaba de tomar o 7550, com parada no Campo Belo. Lá irá ele resolver outras estúrdias coisas a respeito da vida que reaprendemos a levar, desde o último sono de nosso pai. Da Vieira de Carvalho, assisto à curva aberta que o ônibus faz. Depois, em frente à Praça da República (nome até certo ponto irônico, tendo em vista os eventos neste território brasileiro dos últimos dias), vislumbro o veículo, em sua arrancada. Vim me recuperando ao longo das ruas, com a expectativa de que nos vejamos (e, melhor, ainda: passemos mais tempo juntos) em breve. Fazia umas duas décadas que não dividíamos por tantos dias o café, as fotos da família, as conversas pseudo-filosóficas e a força. Hoje tive certeza que os sentimentos por ele são tão ou mais extensos, feito  planície-ilha-e-mar, que amor pelo pai. Querido irmão, como não há sinônimos para expressar a força e a alegria que me cedeu - nestes dias com jeito de jornada -, despeço-me com os votos de que faça uma excelente viagem ao encontro de sua adorável família. Quem sabe, abrimos aquele barzão numa ponte suspensa entre os continentes, que vamos inventar? Certamente, haverá sorriso, música, solidariedade e ética, mais ou menos como aqueles ensinamentos do velho Shazam. Obrigado, Henri. P.S.: Deixe-me ir lá botar o fusquinha amarelo-radiante nas suas malas de viagem! :)

quinta-feira, 16 de maio de 2013

Das confidências de balcão

Na falta de geladeira e fogão, por ora, tenho me alimentado nos bares da região onde moro há duas semanas, especialmente à noite. Agora há pouco, na volta da Faculdade, fui a uma lanchonete onde também estive ontem, em horário similar. Pedi um açaí na tigela, acompanhado de apetrechos que tais. O problema - como dizê-lo a alguém que dificilmente será ouvido pelos demais clientes(?) - o problema, continuando, é que eu estava cansado demais para ouvir o jovem atendente. E assim, os vinte minutos que permaneci no bar foram tomados pelas palavras incessantes do chapeiro, que se dirigia a mim como se fôssemos amigos de longa data. Graças a sua verborragia, tive acesso a uma série de argumentos, aos quais eu respondia com gestos de cabeça (considerando que a boca e uma das mãos andavam ocupadas em comer), enquanto acelerava a refeição frugal - mas à beira de uma congestão de vã filosofia. De modo muito resumido, meu interlocutor lamentava o fato de que os jovens de hoje vivem bebendo e frequentando baladas. Como ele age de forma diferente, tinha um imóvel no Ceará ("eu sou novo: 21 anos e já tenho casa"), um bom automóvel e a habilidade em fazer lanches ("o pessoal acha que é fácil...tem que memorizar tudo...ainda bem que eu estava aqui ontem; fosse outro chapeiro e não daria certo, não"). Como se vê, uma mistura de pseudo humildade e auto-elogio que implicou num açaí que não tive ocasião de saborear com o vagar desejável. Certamente haverá um saldo positivo no episódio: o fato de eu parecer confiável às pessoas, de um modo geral.

domingo, 12 de maio de 2013

...só quando eu cruzo a Ipiranga (de cima da Avenida São João)...

Há um sentimento muito especial em circular pelas ruas do centro da cidade, principalmente quando passamos a residir em suas imediações. É renovador enxergar a cidade a partir do Elevado, carregar a bicicleta para todo lado e constatar que, sim, estamos vivos e com reserva de energias: muitas delas sub ou mal empregadas em ambientes quaisquer. Pedalemos a vida, feito ciclo de persistência, coragem e integridade.

domingo, 28 de abril de 2013

Estado de Greve

A cada vez que há um manifesto legítimo dos professores (em São Paulo), espanto-me com a falta de união dos próprios colegas de profissão e, em especial, o notório alheamento dos demais e apressados cidadãos, incluindo determinados estudantes que não percebem como fazem parte do problema - e de vários modos. Se considerarmos que: 1. o ensino formal em nosso país não vai bem; 2. os resultados obtidos nas provas do PISA, a cada ano, reforçam a péssima qualidade de leitura, interpretação e solução de problemas básicos por parte de nosso aluno; 3. falta-nos discernimento para comparar e melhor apreciar as coisas em geral (arte, cultura, ciência e mesmo a tecnologia envolvida no mundo ciber das telas), qual a razão do desprestígio e da desqualificação das lutas por parte dos educadores? Será egoísmo dos demais ou falta de noção, mesmo? Enquanto a greve dos professores durar, participarei dos fóruns de discussão, dos movimentos em si e, claro, portarei a fita vermelha como forma de manifestar o mínimo de solidariedade para com os meus pares. Trata-se de uma questão de classe e de coerência consigo mesmo, no mínimo. Evidentemente, há aqueles que se julgam ímpares, em qualquer situação. Além disso, contra a arrogância, não há mobilização possível, já que se afirma com rigoroso desdém que o mundo é dos espertos. Mas é claro.

quarta-feira, 17 de abril de 2013

Ligeira descrição do mundo desejável

Desde criança tenho um curioso hábito: pensar nas pessoas que me cercam ao som imaginário de uma caixa de música - eu, que mal sabia o nome das notas, quando pequenino. Tais criaturas nem sonham com isso: talvez creiam que eu viva a alimentar sentimentos negativos a seu respeito, só porque concebemos o mundo e os seres que nele habitam, lutam e mudam, de modos diversos. Não: eu não posso ser e acolher maldades alheias. Por isso mesmo, vivo a cultivar as habilidades que me faltam. Parodiando Drummond (em seu "Poema de sete faces", de 1930), eu não devia te dizer, mas um vizinho relativamente distante está dedilhando uma doce música: provável origem deste sentimento, ora, ora.

quinta-feira, 11 de abril de 2013

Vilém Flusser e uma síntese em três tempos

Vilém Flusser escreveu, em 1985, um notável livro (Filosofia da caixa preta), em que problematiza o fascínio que a imagem exerce sobre o homem moderno. De forma um tanto resumida, o pensador thecoslovaco vincula a Antiguidade à memória; a Idade Média, ao registro (palavra) e a Era Moderna, à imagem. A sequência dos termos, nesta equação, parece simples; o que não significa dizer que seja algo simplista. A proposta do filósofo revela uma série de dados, dentre eles o fato inconteste de que cada período histórico representou a substituição de uma modalidade de concepção de mundo por outra. Fico a cogitar o que Flusser pensaria do mundo da imagem, tendo em vista o advento da internet, em especial. Como podemos ser e agir tão absolutamente fascinados pela imagem? Ou será maior que nossa inteligência a ilusão de interagir com o universo por intermédio de gadgets que nos tornam tão relativamente ágeis (já que hipnotizados e à beira e à mercê do estático)? Às vezes, fico a ponderar se não estamos pensando menos e em escala gradativamente menor, como se acompanhássemos, feito reféns, o tamanho das micro-telas. Ah, deve ser isso mesmo: a Era das Pontas dos Dedos combinada à simulação da máxima concretude... É claro, sempre por intermédio do suporte eletrônico, e não a partir da essência humana, por assim dizer.

segunda-feira, 8 de abril de 2013

Uma trupe


...Só sei que o dia, ou a época - não sei bem - sugeriu que eu vestisse precisamente hoje a camiseta da trupe: lembrança do teatro amador que dois professores (Simone Freitas Generoso e eu) e dez alunos montamos em 2008. Algo, seja dito, que significou a libertação de tantos medos, a partir de então. Daí o caráter absolutamente solidário daquela numerosa equipe, unida em torno de uma belíssima peça estadunidense ("Bang-bang: você morreu!"), traduzida e adaptada para a realidade do colégio em que os doze, nada-apostólicos, estávamos. Nas costas da camiseta, a bela frase de José Saramago ("A melhor forma de viver é viver contra a apatia geral", provavelmente extraída pela Simone do "Ensaio sobre a cegueira"). Talvez vestir a camiseta quase quatro anos depois (a última vez havia sido num sábado, 14 de junho de 2009) tenha uma série de implicações: o retorno deste blogueiro a São Paulo, em uma contagem inegavelmente ansiosa pelos poucos dias que faltam; uma mensagem a respingar em alunos outros, os da Faculdade; uma necessidade de vestir a pele do inconformado, sentindo-se parte daquele grupo, em absoluto. It was a great day!

domingo, 7 de abril de 2013

Compra-se?



Tenho visto alguns seres postarem fotos com cartazes que anunciam alguma condição (supostamente inventada por seus pais) para ganharem uma bicicleta, por exemplo. Olhem bem para onde estamos e o modo como vamos driblando a vida máxima e o diálogo mínimo. É como se as relações fossem pautadas pelo indireto, pelo oblíquo, e não mais pelo concreto. Eis a Era dos "hits", cujo critério para o tão relativo sucesso está não no sujeito, mas na quantidade de sinais que "recebe" do maior número possível de pessoas com que mal conversa, ou mesmo anônimos que nunca viu.

quarta-feira, 3 de abril de 2013

É digno de espanto que um brasileiro, mais ou menos despencado sobre o também chamado período Pós-Moderno, tenha a pretensão de dizer "não discuto Política", "não gosto de Política" e congêneres. Tenho a impressão de que se trata de um discurso que revela um misto sentimento: o receio de soar rude e o medo de não chegar a lugar nenhum. Cumpre lembrar que quanto menos discutirmos o que fazem (e deixamos fazer) com a nossa Política, menos chance teremos de reverter qualquer coisa. E pensar que Bertolt Brecht tinha dito isso em forma de versos há tantas e tantas décadas. Quem? Bertolt Brecht? Ah, brincou né, seu blogueiro pedante... Que coisa mais antiga. Deixe-me voltar para minha super micro tela e ver as coisas "densas" de hoje.

sábado, 30 de março de 2013

Walter Benjamin: leitura constante


Quisera eu ter a habilidade de Walter Benjamin para dizer algo além do ordinário; algo além do pensamento chão que permeia nossos dias. Há que se convir, no entanto, que mesmo o alerta de Benjamin (sobre a incapacidade de se fazer grandes narrativas) vincula-se a outro momento histórico. O que dizer de hoje? Vivemos a era do estilhaço e das micro e macro violências. Sintoma de uma expressão alheia, dura e entrecortada, vamos soltando argumentos em forma de fragmentos - de feitio similar a este "post", por sinal. Quem sabe, ao menos esta mensagem suscite qualquer discussão sobre o discurso em si e, de quebra, leve as pessoas ao desejo de escrita e maior comunicabilidade. Mas, atenção, façamos isso com alguma urgência, sem mediações meramente cibernéticas: na falta de deuses do Olimpo; da onipotência judaico-cristã; das suras transcritas no século VII por Maomé, há os atualíssimos "drones". Nunca os vemos, mas a exemplo do pai celestial - que não escolhi - "eles" tudo e a todos veem e pouco se importam com as raras liberdades - civis ou não - de que julgamos dispor. Ora pro nobis. Amém.

Self

Meu posicionamento, perante (in)certas questões, não guarda relação direta com a idade que tive ou tenho. Em verdade vos digo: assumir determinadas posturas relaciona-se às poucas convicções que adquiri ou aprimoro, dentre elas não me conformar a um sistema/modo/estilo de "vida" em que uns devoram os outros em nome da competitividade, liquidez, acumulação de bens e lucro. Vale lembrar que logro e lucro devem a sua origem ao mesmo termo latino (lucrum). Não me venham com pseudo-argumentos, alegando que eu seja imaturo, ingênuo ou cego. Boas-tardes. (De Crônicas Vorazes)

segunda-feira, 25 de março de 2013

Alô? Brasil? Alô? Ah, então, tudo bem? Olha, só para relembrar: nós não somos os Estados Unidos da América Latina, viu? Vai que Vossa Senhoria se esquece desse truísmo, não é mesmo?

O porteiro

Talvez eu esteja motivado pela releitura de "Vista Cansada", belíssima crônica em trinta linhas deixada pelo mineiro Otto Lara Resende (1922 - 1922), meses anos de falecer. O fato é que, ontem à tarde, ao retornar do Mercado próximo deste apartamento, um dos porteiros do Condomínio segurou a porta, de modo que eu passasse com a caixa de papelão. Saiu com esta: "Quer dizer que o senhor vai abandonar a gente?". Respondi-lhe que sim, em algumas semanas, ao que ele soltou: "Olha, o senhor conte sempre com a gente, viu?". Está certo: faltam a este sucinto relato a emoção que senti; a entonação, a expressão dos interlocutores; o cumprimento que fiz a ele com a mão temporariamente livre. Mas, em termos mais próximos da lógica que da sensibilidade, eis que nestes quase dois anos de província, sempre me incomodei por ser tratado por eles como "senhor". Um fato, no mínimo curioso, é que sempre me aproximo dos funcionários dos locais onde moro, frequento ou trabalho. Será possível fazer amizade com gerentes de banco, driblando contas pessoais e cotas mensais de captação de clientes e empréstimos? (De Crônicas vorazes, a caminho).

domingo, 24 de março de 2013

Dos pressupostos

Em tempos de telas para todo lado, começo a cogitar se o hábito de ler - especialmente livros, que não sejam os best sellers que financiam a "grande" mídia - não está sendo confundido com coisa antiga ou brega, de gente sonhadora que acredita em vinte utopias por dia. Deve ser meu caso. É evidente que há bons best sellers; é claro que existem leitores que vão além da leitura ordinária. Mas o hábito da leitura em si pode parecer uma grande bobagem, especialmente para aqueles que vivem a descascar o tédio eterno em meios remotos. Andamos mediados por telas: muitos acham que nessa forma de subexistência e falta de contato com os outros (e outras realidades) reside a vida em seu auge, à beira do tecnológico-metafísico. Há que se viver, abrir os olhos, e deixar de supor que o fato de não estar conectado a qualquer dispositivo que não seja eletrônico implique em morte ou apatia: muito pelo contrário.