sábado, 30 de março de 2013

Walter Benjamin: leitura constante


Quisera eu ter a habilidade de Walter Benjamin para dizer algo além do ordinário; algo além do pensamento chão que permeia nossos dias. Há que se convir, no entanto, que mesmo o alerta de Benjamin (sobre a incapacidade de se fazer grandes narrativas) vincula-se a outro momento histórico. O que dizer de hoje? Vivemos a era do estilhaço e das micro e macro violências. Sintoma de uma expressão alheia, dura e entrecortada, vamos soltando argumentos em forma de fragmentos - de feitio similar a este "post", por sinal. Quem sabe, ao menos esta mensagem suscite qualquer discussão sobre o discurso em si e, de quebra, leve as pessoas ao desejo de escrita e maior comunicabilidade. Mas, atenção, façamos isso com alguma urgência, sem mediações meramente cibernéticas: na falta de deuses do Olimpo; da onipotência judaico-cristã; das suras transcritas no século VII por Maomé, há os atualíssimos "drones". Nunca os vemos, mas a exemplo do pai celestial - que não escolhi - "eles" tudo e a todos veem e pouco se importam com as raras liberdades - civis ou não - de que julgamos dispor. Ora pro nobis. Amém.

Self

Meu posicionamento, perante (in)certas questões, não guarda relação direta com a idade que tive ou tenho. Em verdade vos digo: assumir determinadas posturas relaciona-se às poucas convicções que adquiri ou aprimoro, dentre elas não me conformar a um sistema/modo/estilo de "vida" em que uns devoram os outros em nome da competitividade, liquidez, acumulação de bens e lucro. Vale lembrar que logro e lucro devem a sua origem ao mesmo termo latino (lucrum). Não me venham com pseudo-argumentos, alegando que eu seja imaturo, ingênuo ou cego. Boas-tardes. (De Crônicas Vorazes)

segunda-feira, 25 de março de 2013

Alô? Brasil? Alô? Ah, então, tudo bem? Olha, só para relembrar: nós não somos os Estados Unidos da América Latina, viu? Vai que Vossa Senhoria se esquece desse truísmo, não é mesmo?

O porteiro

Talvez eu esteja motivado pela releitura de "Vista Cansada", belíssima crônica em trinta linhas deixada pelo mineiro Otto Lara Resende (1922 - 1922), meses anos de falecer. O fato é que, ontem à tarde, ao retornar do Mercado próximo deste apartamento, um dos porteiros do Condomínio segurou a porta, de modo que eu passasse com a caixa de papelão. Saiu com esta: "Quer dizer que o senhor vai abandonar a gente?". Respondi-lhe que sim, em algumas semanas, ao que ele soltou: "Olha, o senhor conte sempre com a gente, viu?". Está certo: faltam a este sucinto relato a emoção que senti; a entonação, a expressão dos interlocutores; o cumprimento que fiz a ele com a mão temporariamente livre. Mas, em termos mais próximos da lógica que da sensibilidade, eis que nestes quase dois anos de província, sempre me incomodei por ser tratado por eles como "senhor". Um fato, no mínimo curioso, é que sempre me aproximo dos funcionários dos locais onde moro, frequento ou trabalho. Será possível fazer amizade com gerentes de banco, driblando contas pessoais e cotas mensais de captação de clientes e empréstimos? (De Crônicas vorazes, a caminho).

domingo, 24 de março de 2013

Dos pressupostos

Em tempos de telas para todo lado, começo a cogitar se o hábito de ler - especialmente livros, que não sejam os best sellers que financiam a "grande" mídia - não está sendo confundido com coisa antiga ou brega, de gente sonhadora que acredita em vinte utopias por dia. Deve ser meu caso. É evidente que há bons best sellers; é claro que existem leitores que vão além da leitura ordinária. Mas o hábito da leitura em si pode parecer uma grande bobagem, especialmente para aqueles que vivem a descascar o tédio eterno em meios remotos. Andamos mediados por telas: muitos acham que nessa forma de subexistência e falta de contato com os outros (e outras realidades) reside a vida em seu auge, à beira do tecnológico-metafísico. Há que se viver, abrir os olhos, e deixar de supor que o fato de não estar conectado a qualquer dispositivo que não seja eletrônico implique em morte ou apatia: muito pelo contrário.