domingo, 28 de abril de 2013

Estado de Greve

A cada vez que há um manifesto legítimo dos professores (em São Paulo), espanto-me com a falta de união dos próprios colegas de profissão e, em especial, o notório alheamento dos demais e apressados cidadãos, incluindo determinados estudantes que não percebem como fazem parte do problema - e de vários modos. Se considerarmos que: 1. o ensino formal em nosso país não vai bem; 2. os resultados obtidos nas provas do PISA, a cada ano, reforçam a péssima qualidade de leitura, interpretação e solução de problemas básicos por parte de nosso aluno; 3. falta-nos discernimento para comparar e melhor apreciar as coisas em geral (arte, cultura, ciência e mesmo a tecnologia envolvida no mundo ciber das telas), qual a razão do desprestígio e da desqualificação das lutas por parte dos educadores? Será egoísmo dos demais ou falta de noção, mesmo? Enquanto a greve dos professores durar, participarei dos fóruns de discussão, dos movimentos em si e, claro, portarei a fita vermelha como forma de manifestar o mínimo de solidariedade para com os meus pares. Trata-se de uma questão de classe e de coerência consigo mesmo, no mínimo. Evidentemente, há aqueles que se julgam ímpares, em qualquer situação. Além disso, contra a arrogância, não há mobilização possível, já que se afirma com rigoroso desdém que o mundo é dos espertos. Mas é claro.

quarta-feira, 17 de abril de 2013

Ligeira descrição do mundo desejável

Desde criança tenho um curioso hábito: pensar nas pessoas que me cercam ao som imaginário de uma caixa de música - eu, que mal sabia o nome das notas, quando pequenino. Tais criaturas nem sonham com isso: talvez creiam que eu viva a alimentar sentimentos negativos a seu respeito, só porque concebemos o mundo e os seres que nele habitam, lutam e mudam, de modos diversos. Não: eu não posso ser e acolher maldades alheias. Por isso mesmo, vivo a cultivar as habilidades que me faltam. Parodiando Drummond (em seu "Poema de sete faces", de 1930), eu não devia te dizer, mas um vizinho relativamente distante está dedilhando uma doce música: provável origem deste sentimento, ora, ora.

quinta-feira, 11 de abril de 2013

Vilém Flusser e uma síntese em três tempos

Vilém Flusser escreveu, em 1985, um notável livro (Filosofia da caixa preta), em que problematiza o fascínio que a imagem exerce sobre o homem moderno. De forma um tanto resumida, o pensador thecoslovaco vincula a Antiguidade à memória; a Idade Média, ao registro (palavra) e a Era Moderna, à imagem. A sequência dos termos, nesta equação, parece simples; o que não significa dizer que seja algo simplista. A proposta do filósofo revela uma série de dados, dentre eles o fato inconteste de que cada período histórico representou a substituição de uma modalidade de concepção de mundo por outra. Fico a cogitar o que Flusser pensaria do mundo da imagem, tendo em vista o advento da internet, em especial. Como podemos ser e agir tão absolutamente fascinados pela imagem? Ou será maior que nossa inteligência a ilusão de interagir com o universo por intermédio de gadgets que nos tornam tão relativamente ágeis (já que hipnotizados e à beira e à mercê do estático)? Às vezes, fico a ponderar se não estamos pensando menos e em escala gradativamente menor, como se acompanhássemos, feito reféns, o tamanho das micro-telas. Ah, deve ser isso mesmo: a Era das Pontas dos Dedos combinada à simulação da máxima concretude... É claro, sempre por intermédio do suporte eletrônico, e não a partir da essência humana, por assim dizer.

segunda-feira, 8 de abril de 2013

Uma trupe


...Só sei que o dia, ou a época - não sei bem - sugeriu que eu vestisse precisamente hoje a camiseta da trupe: lembrança do teatro amador que dois professores (Simone Freitas Generoso e eu) e dez alunos montamos em 2008. Algo, seja dito, que significou a libertação de tantos medos, a partir de então. Daí o caráter absolutamente solidário daquela numerosa equipe, unida em torno de uma belíssima peça estadunidense ("Bang-bang: você morreu!"), traduzida e adaptada para a realidade do colégio em que os doze, nada-apostólicos, estávamos. Nas costas da camiseta, a bela frase de José Saramago ("A melhor forma de viver é viver contra a apatia geral", provavelmente extraída pela Simone do "Ensaio sobre a cegueira"). Talvez vestir a camiseta quase quatro anos depois (a última vez havia sido num sábado, 14 de junho de 2009) tenha uma série de implicações: o retorno deste blogueiro a São Paulo, em uma contagem inegavelmente ansiosa pelos poucos dias que faltam; uma mensagem a respingar em alunos outros, os da Faculdade; uma necessidade de vestir a pele do inconformado, sentindo-se parte daquele grupo, em absoluto. It was a great day!

domingo, 7 de abril de 2013

Compra-se?



Tenho visto alguns seres postarem fotos com cartazes que anunciam alguma condição (supostamente inventada por seus pais) para ganharem uma bicicleta, por exemplo. Olhem bem para onde estamos e o modo como vamos driblando a vida máxima e o diálogo mínimo. É como se as relações fossem pautadas pelo indireto, pelo oblíquo, e não mais pelo concreto. Eis a Era dos "hits", cujo critério para o tão relativo sucesso está não no sujeito, mas na quantidade de sinais que "recebe" do maior número possível de pessoas com que mal conversa, ou mesmo anônimos que nunca viu.

quarta-feira, 3 de abril de 2013

É digno de espanto que um brasileiro, mais ou menos despencado sobre o também chamado período Pós-Moderno, tenha a pretensão de dizer "não discuto Política", "não gosto de Política" e congêneres. Tenho a impressão de que se trata de um discurso que revela um misto sentimento: o receio de soar rude e o medo de não chegar a lugar nenhum. Cumpre lembrar que quanto menos discutirmos o que fazem (e deixamos fazer) com a nossa Política, menos chance teremos de reverter qualquer coisa. E pensar que Bertolt Brecht tinha dito isso em forma de versos há tantas e tantas décadas. Quem? Bertolt Brecht? Ah, brincou né, seu blogueiro pedante... Que coisa mais antiga. Deixe-me voltar para minha super micro tela e ver as coisas "densas" de hoje.