sábado, 19 de dezembro de 2015

"Deus está morto!" (Nietzsche)

Dia desses, a caminho do Detran (Armênia), reparei que não tinha algo à mão para ler. Passei por uma banca da Consolação e de lá saí com o Zaratustra. Entre uma estação e outra, retomei a jornada do eremita que desceu da montanha para se reunir à civilização. "O que é grandioso no homem é que ele seja uma ponte, e não um fim: o que pode ser amado no homem é que ele seja uma passagem e um ocaso" (Prólogo, Seção 4, p. 30). Esta é a segunda tentativa de enfrentar a obra de Friedrich Nietzsche. Da primeira vez, talvez por um problema na tradução para o Português, experimentei dificuldade para seguir adiante. Mas, agora que o semestre letivo terminou, e as escritas encomendadas tiveram fim, poderei me dedicar especialmente à leitura avulsa e à pesquisa para as aulas do semestre que virá. Um dos pressupostos de Zaratustra é de que a evolução do homem é compulsória, rumo ao "super-homem". Não sei se compreendo bem a dimensão do que ele afirma: desde o momento em que passei a estudar as ideias que revoavam no Brasil ao final do século XIX, e amparado por Walter Benjamin, Theodor Adorno e Herbert Marcuse, desconfio solenemente da concepção de Progresso, mesmo porque ela pressupõe a seleção artificial de um grupo e a consequente aniquilação da maioria. Mas essa é uma questão de menor quilate, diante do estágio teocrático que arromba as fronteiras do Congresso. Viver num país em que a maioria dos habitantes crê, teme e obedece a deus (frequentemente por medo da punição) sob a forma da recompensa; notar que o cabedal de incertos representantes de pseudo-religiões só aumenta; lidar com pessoas que passam os dias a desafiar o tédio e a agir de modo radicalmente pragmático, sinaliza para o pequeno espaço reservado à cultura em geral e à leitura em particular. Por qui, abrir um livro é ato tão ou mais revolucionário que proclamar a tese de Zaratustra.   

sábado, 12 de dezembro de 2015

O dogma do progresso

Neste país, nossa inelutável imprensa - patrimonialista, aculturada e cínica - reinventa-se na arte de maquear o que houve de mais progressista por aqui, na última década e meia. Uma revisteca de circulação dita nacional (ainda que apenas 1 ou 2% dos brasileiros a leiam, efetivamente) tem feito campanha massiva contra a figura da Presidenta da República, mulher, ex-guerilheira, eleita democraticamente no ano passado. Escorada no discurso de gente mimada e fascistóide, a revista voltou à carga (vide a capa de hoje, 12 de dezembro) com o pseudo argumento de que o governo atual representa o atraso (estatizante) e o populismo. Por essa razão, a publicação também diz se orgulhar dos países vizinhos (especialmente a Argentina), que elegeram um homem do mercado, de direita e conservador. Quer dizer que ser moderno é negar o passado, fechar os olhos aos miseráveis e viver sob a égide da mera especulação financeira, no salve-se quem puder, à mercê de facínoras montados no capital? Desde quando ser um país moderno envolve a imitação dos "modelos" das nações mais "desenvolvidas" (à custa da servidão dos outros)? Esse discurso contraditório respinga na Universidade, a rolar nas mãos de tecnocratas hipócritas; adormece muitos de meus colegas e alunos; e redunda - quase sempre - em afirmações desgastadas e sem fundamento: "ah, não me venha com ideologias". Nossa elite conta com um bando de aliados que não exercem autocrítica e que arrotam ética (enquanto blindam a imgagem de seus queridinhos políticos). Infelizmente, o maior contingente a apoiar revistas e emissoras desse "quilate" são oriundos de uma parcela da classe média -- não por acaso, aquela que historicamente vive a oscilar entre a imitação (em pastiche) dos ricos e a malandragem dos menos favorecidos. Tudo em nome da ética e do progresso, é claro. Assistiremos ao desfile os nacionalistas de ocasião, amanhã? Comparecerão eles, apinhados em torno de seus interesses particulares, embrulhados com a bandeira nacional e camisetas da corrupta CBF, a imitar o modelão estadunidense em nome de um patriotismo de araque? Haverá quem se aproveite da ocasião para tirar a roupa e aparecer desnudo(a) em manchetes de jornais (que só funcionam graças ao perverso ciclo de seus anunciantes)? Definitivamente, democracia não é isso. Progresso a todo custo cheira a nazismo. Quem é de fato livre, segundo as regras do "livre" mercado? Tsc, tsc.

segunda-feira, 23 de novembro de 2015

Carta para Maria Viana

Querida amiga (deste ano que já orça pelo fim), 

Queria lhe contar que hoje me peguei lembrando de uma de suas frases que mais gosto de ouvir: "estudar história, escrever livros didáticos é minha maneira de fazer militância". Você repara, não é?, no nacionalismo de ocasião, no discurso segregador, na arrogância de quem nunca leu o que mais precisava... É nosso dever militar pela causa alheia. Acho que, em parte, a gente se sente como aquele que restou. O aspecto positivo é que sobrando aprendemos a fazer mais daquilo que está aí, ao alcance de tanta gente uniformizada, apassivada, contando com a mesada eterna dos pais, aqueles cujo sentido máximo na vida é ter um enfeite com pouca fala e muita perna, uma SUV blindada, modelo tanque; uma microempresa de nome e fachada imponente para exercitar o gosto de mandar em "seus" capatazes; e, em casa, tiranizar "sua" secretária; no restaurante, ostentar má-educação perante quem estaciona o "seu" carro, quem carrega bandejas, quem traz a conta, quem responde pela casa. Tudo isso para suprir a necessidade de soar imponente, segundo a lógica que a todos "invisibiliza". Você bem nota que este bilhete não passa de arremedo de missiva. Mas, saiba lá que é enriquecedor estar em sua companhia, a falar de música, literatura e jornadas a pé pelo piche. Quem disse que não podemos fazer bons amigos quando (supostamente) adultos? Esteja sempre bem. Dia desses, vou avisando, combinaremos nova rodada filosófica sem lugar para a resignação paulistana: essa gente habituada às "verdades" de alguns telejornais e revistas. 

sábado, 21 de novembro de 2015

"Eu era um lobisomem...

...juvenil", proclamava Renato Russo nas Quatro Estações, -- álbum cujas letras memorizei logo que saiu o disco. Voltei da casa de minha filha há instantes. Seguindo nosso mais novo plano mirabolante de sábado, almoçamos, encontramos alguns bons jogos de tabuleiro e passamos a tarde toda e o início da noite às voltas com estratégias para conquistar ou reaver territórios, movendo peças e rolando dados sob os olhos atentos do felino Ozzy. Na caminhada para cá, cantarolei a  música da Legião Urbana com vontade, o que me fez evocar as melhores lembranças da viagem mais feliz que fizera até então (era 1990: 17 anos). Relembrar determinados acontecimentos daquela jornada (especialmente as nova amizades e cantorias no ônibus, indo e voltando de Minas Gerais) levaram-me a pensar em outros percursos: a primeira vez que fui a Vitória, em julho 2004, para ver Maria; a viagem para Portugal, para ouvir o sotaque lusitano in loco e... por que não?, a mudança para este endereço, entre a Consolação e a Amaral Gurgel, de onde avisto a praça, a igreja e o elevado. Em abril de 2016 completam-se três anos desta nova morada e certamente continuarei a mirar as pessoas e coisas, da Sé à Marechal Deodoro, como se fossem novidades. Talvez eu persista em ver tudo como novo, feito bicho do mato, como forma de empregar os recursos secretos da infância.  

terça-feira, 10 de novembro de 2015

Lusitânia

Da próxima vez que for a Portugal, percorrerei distâncias ainda maiores a pé. Tomarei bonde e conhecerei melhor as linhas do metro e dos comboios. Subirei outras escadarias e puxarei conversa com mais gente. Estenderei a mão à estátua de Camões, conhecerei a casa de Fernando Pessoa, voltarei a visitar a casa de Saramago, devorarei mais pastéis de nata acompanhados de um bom café. Olharei para o céu, fazendo de conta que ele muda de acordo com o país. Chegarei mais perto dos rios e aos topos das montanhas. Repetirei para mim mesmo alguma prosa de Eça e versajarei algo dos poetas lusitanos sem fazer alarde. Pousarei as mãos nos muros das igrejas, universidades e castelos. Depois dos passeios, pedirei água Luso (aquela da garrafa de vidro), almoçarei panada e observarei com atenção o mobiliário e os acessórios do restaurante. A televisão servirá para descansar à noite, enquanto saborear a fala dos jornalistas e locutores da terra de lá.  

quinta-feira, 5 de novembro de 2015

Tecnocracia

Tenho esperança de que, dentre em breve, os terráqueos todos contaremos com uma engenhoca nova, na forma de aplicativo "baixável" via celular, que revelará, com alarde sonoro e visual, para onde vão todos os depoimentos que prestamos, quando atendidos por funcionários (primários ou terceirizados), em padarias, farmácias, órgãos do governo e concessionárias. Enquanto isso não acontece, alguém repare, por gentileza, no crescente acúmulo de critérios de avaliação - imiscuídos a novas tarefas a que os sujeitos são submetidos - em nome da qualidade no atendimento (versão contada para o cliente) ou da manutenção do emprego a todo custo (motivação do empregado). Estou certo de que as empresas, instituições e firmas contam com um "criativo" e gigantesco banco de dados que vai atualizando a classificação de seus funcionários a cada rodada de avaliações feitas (talvez com a melhor das intenções, pelos consumidores). De minha parte, desconfortável que me sinto ao notar o fascínio tecnológico de meus parceiros cá da Terra e, tendo em vista, o que podemos fazer em prol da qualidade de quem trabalha, decidi não mais responder a questionários que chegam via e-mail, nem avaliar atendimentos prestados, sejam eles realizados pessolmente, sejam averiguados por intermédio do telefone. Será essa minha minúscula forma de evitar eventual cumplicidade na maquinaria que converte a patrões e clientes em compulsivos defensores (ou detratores) de pessoas, cargos e salários.

quarta-feira, 4 de novembro de 2015

Aquele abraço

Acabo de deixar Henri e Gabriel no posto do ônibus que os levará até Guarulhos, onde tomarão o longo voo de retorno ao Havaí. Em meio à chuva intermitente, o farol vermelho e a usual impaciência voraz de meus concidadãos, tivemos que nos despedir rapidamente, sem tempo para o forte abraço que dois irmãos - amigos que somos - merecíamos dar. 
Isto posto, envio o gesto (que não houve) pelas ondas ciber. Afinal, sendo o abraço algo simbólico, mesmo quando efetivado, talvez ele chegue em condições ainda melhores e mais efetivas, sob a forma de miragem, ao avião. Meu irmão e sobrinho não se assustem, caso uns braços pálidos insistam em abrir a janelinha sobre o motor direito da aeronave, enquanto a equipe de bordo estiver a instruir os passageiros a respeito de uma turbulência jamais vista. 
Claro esteja que, se a janela não abrir, estenderei a remessa até a terra em forma de ilha. Com sorte, sol e mar, o abraço-miragem chegará e revelar-se-á capaz de dar conta dos outros sobrinhos e de Karli, querida cunhada com quem meu irmão compartilha a vida e tarefa de criar três filhos.  

domingo, 1 de novembro de 2015

Nacionalistas de ocasião

Na Vila de Piratininga, (fundada em 1554)...

I

... a maior parte daqueles que se dizem contra a cor vermelha (por motivos nacionalistas) são os mesmos que saem às ruas para comemorar o evento mais colonialista de todos: Halloween...

II

...quase ninguém tem o hábito de ler ou estudar, que não seja por motivos recompensatórios (daí o êxito de pseudo livros de "auto ajuda")

III

...(quase) ninguém lê, mas (quase) todos opinam sobre o que (quase) nada sabem

IV

...determinada revista e alguns telejornais são utilizados como fonte inequívoca da verdade

V

...boa parte (ou má parte?) dos muy dignos cidadãos defendem a pena de morte para os bandidos, mas o rigor da lei perde todo o vigor diante dos delitos que quase todos praticam diariamente

VI

...há episódios diários de intolerância, machismo e as mais criativas formas de preconceito, ilustrados por discursos toscos, mal articulados e amparados em pseudo argumentos de rala autoridade: "ouvi dizer que" ou "você não viu no jornal?"

VII

...professores tornaram-se alvo de ofensas de muita gente, de modo geral os mesmos indivíduos que julgam escorar "suas" opiniões de acordo com provérbios ou máximas extraídas do ralo senso comum

VIII

....caso Lima Barreto tivesse vivido aqui, certamente teria alterado o nome de seu Bruzundangas para Pulhastanias.

IX

...os Estados Unidos da América tornaram-se referência "cultural" para muita gente, que com o Inglês (aprendido a partir das telas e quase nunca pelos livros), afeta modos anasalados de falar, intercalando expressões como "tipo" ("like"), a cada quarto de frase pronunciada.

X

...repete-se, de tempos em tempos, a leganda "Ame-o ou deixe-o", proferida com máxima empáfia justamente por aqueles que menos cultivam a língua portuguesa, a cultura brasileira e as tradições locais (que o diga o Saci Pererê, chamado de piegas por aqueles que se vestem de bruxos, monstros e congêneres, a desfilar nas ruas mais badaladas dos Jardins).

terça-feira, 6 de outubro de 2015

Diálogo com Eduardo

Eduardo, meu caro, já lhe agradeci mais de uma vez pelo cuidadoso prefácio que fez para as "Crônicas Vorazes". Refaço-o agora, novamente, assim nos moldes de uma "carta aberta", como pretexto para tratar de outra questão. Desde que me enviou suas impressões a respeito da persona que escreveu as tais pseudocrônicas, estou a cogitar a esse respeito. Era um impasse e dos bons: como apontar as coisas estúrdias do mundo que vemos sem cair no tom cinza e ranzinza que detectou naqueles microtextos? Sabe onde encontrei parte da resposta? Em José Saramago, aquele, você bem sabe. Veja lá o que ele afirmava em suas Folhas Políticas, páginas 53 e 54: "Dizem-me amigos de perto e conhecidos de longe: homem, que agressividade, que brusquidão,que pouco jeito para a vida mundana. Eu ouço-os maravilhado de que em mim se reúnam tantas mostras de mau feitio, deito contas, somo e subtraio, e, porque a paisagem não se modifica com esta aritmética, reincido (...) Ora, alguém tinha que tomar a vez, assumir a indignação, usá-la como revulsivo contra as emoliências. Na falta de outro melhor, tentei-o eu, e saíram estas prosas". Você me desculpe, por obséquio, minha falta de competência e originalidade para responder à proposta que me fez de levar a vida criticamente, mas de humor mais brando, digamos à la Oswald de Andrade, como você mesmo o faz. É que as limitações de cá me impediram de responder decentemente ao seu aviso honesto (coisa que somente os amigos têm coragem e capacidade de fazer). Também não seria justo fazer uma paráfrase do que o escritor dizia para obter maior aval. O saldo é positivo. Desde que prestamos aquele famigerado concurso, passamos a ler um as coisas do outro. E assim aprendi a admirá-lo, também como alguém que não se satisfaz com as explicações mais banais de que nossos conterrâneos se servem para justificar o "desconcerto do mundo" - só para relembrar uma das tópicas empregadas por Luís Vaz de Camões e Fernando Pessoa. Digo-lhe que continuo em busca de respostas. Aquele narrador do Grande Sertão: Veredas sugere que a beleza de viver reside nisso mesmo: afinal ninguém está pronto ou todo. Continuo cá, ouvidos atentos. Aquele abraço. 

sábado, 26 de setembro de 2015

Décadas, de cada (vez)

Lu, já pensou? Daqui a um ano e meio, seremos amigos há duas décadas. Assistimos a nossas transformações, entre as pistas sombrias de dança, a sala de aula e as ruas, embalados por etílicos e cigarros, a disputar a atenção de muitos(as) outro(as), contando com o ouvido, o colo e o abraço fraterno. De minha parte, registro muitos momentos memoráveis (e o som das consoantes nasais se acumulam, assim, intencionais, para provocar maior impacto). Brinquei muitas vezes com a Valentina, quando pequenina, atirando bolas de plásticos e ursos de pelúcia, enquanto ela se debulhava de rir, da outra ponta do corredor. Agora ela está pensando em cursar Música e já me posicionei na torcida, para acompanhar os seus concertos sob a flauta. Conheci sua mãe, alegre como você; também suas irmãs e amigos. Também fui apresentado a alguns namorados seus, porventura uns mais edificantes que outros. Soube de seus planos tantos e todos, inclusive a transformação de uma moça exuberante, inteligente, simpática e cheia de energias, que abandonou com coragem algumas posições que talvez trouxessem maior conforto e estabilidade em meio ao conformismo e sanha dos paulistanos. Não é mesmo? Vinte anos devem servir pra alguma coisa, além das contar a pagar e demais aritméticas ou contabilidades. Esqueceu-me comentar (como pude?) os porres que compartilhamos, as palavras mais doces (e mesmo as mais severas) que tivemos de endereçar um ao outro, tendo em vista o bem-estar, a felicidade à espera das formas de retorno ("ah, sim, eu precisava ouvir isso. Agora estou bem"). Está em tempo de nos abraçarmos e ressoarmos, feito coro e gargalhada, para a suprema inveja dos deuses, e também dos mortais apáticos, trajados em indiscretos ou apagados cortes retos, em branco e preto. Diferentemente de nós, talvez aqueles seres não reconheçam a importância do sol e da chuva, a despeito de estarem vivos e todo dia poderem palmilhar a Avenida Paulista. Era isso, minha cara. Feito Paulinho da Viola, prometo telefonar para agendarmos a próxima sessão descarrego, com a vantagem de não haver hóstia nem cobrança de dízimo ou pedágios morais. Esteja bem, sempre. Ah...e não deixe de sorrir. Um beijo.  

terça-feira, 15 de setembro de 2015

Independência

Não, não falarei sobre a desclassificada política, nem reproduzirei meios-pensamentos de micro ou grandes empresários, repetidos sem qualquer critério por alguns macro-indivíduos. Esses assuntos, afinal, costumam render poucas visualizações e, claro esteja, quem escreve num blog tem a expectativa de algum alarido público, reconhecimento em geral e reflexão alheia.
Hoje o tema é outro, "antigo" dentre as confabulações de cá. Refiro-me aos seres que confundem desejo de emancipação, algo em geral saudável (se não trouxer o egoísmo de brinde), com a pretensão de absoluta independência. 
É que isso pode soar altivo e arrogante. Illustremos: quem faz apologias ao uso do carro, a despeito do trânsito cada vez menos convidativo nesta província, alega estar "mal-acostumado(a)" a isso e a preferir a "autonomia" franqueada pelo transporte particular que, de quebra, assegura menor exposição às intempéries (em tese, divinas) e às violências do cotidiano (quase sempre, por culpa dos outros). 
O que esse falante não reconhece, afora o desejo de algum privilégio ou forma de distinção em meio à massa, é que dependemos de o carro estar em condições de rodar (óleo, pneus, combustível, mecânica, ipva) e de que não haja pedestres ou ciclistas (a protestar por todos nós) nas principais ruas ou avenidas. Dependemos deles. Dependemos uns dos outros.
Não sairíamos de casa se não fosse para interagir com as pessoas ou, quando sozinhos, com os ambientes. Se vou a um café, a um cinema ou a uma biblioteca, o consumo, a audiência, a pesquisa no acervo depende(m) de o lugar encontrar-se aberto; de seus empregados, consultores e funcionários terem facultado o acesso a suas dependências; de a maquininha do cartão encontrar o sinal da rede; de o sistema de busca da biblioteca funcionar de modo eficaz; de a obra estar disponível para retirada...
Trato de obviedades, como de costume. Mas isso parece necessário, ao menos como forma de desdemonização particular por intermédio da escrita. Evidentemente, também podemos mudar de assunto, estabelecendo analogias com outras formas estamentais de dizer as coisas. 
Por exemplo, quem não se dá conta de seus privilégios socioeconômicos (não incluo os culturais, pois a lógica das finanças parece ter tomado conta das artes, sentires e pensares), adora "justificar" o seu estatuto e poder de compra sob o slogan "não tenho culpa de não ser pobre". De fato, você não pode ser "culpabilizado" por isso (o que seria uma concepção um tanto judaico-cristã, por sinal, frequentemente pautada em uma moral da recompensa e do castigo). Mas não se esqueça que desejar a morte ou o isolamento de dois ou três é negar o fato de que dependemos uns dos outros, o tempo todo.  Afora isso, não se esqueça também de que não há lugar para todos neste universo sobre a Terra, planeta-sem-água.
Possivelmente isso se deva ao alto grau de involução a que chega a nossa espécie, a oscilar entre o individualismo como mérito e benefício próprio (e das pessoas de seu estrito interesse) e o consumismo:  remédio antitédio. 
Embora alguns terráqueos se considerem a razão de ser das galáxias e se vangloriem pelo "fato" de lutar por sua "emancipação" a todo custo (financiado ou não pelos outros), vivem a condenar os mais pobres; detestam as muitas faces do "assistencialismo", disparando a fala arrogante e incoerente de quem nunca ajudou os outros e sempre contou com estágios arranjados, bolsas educacionais em geral e, claro, a constante ajuda financeira e o suporte emocional dos pais -- aqueles seres chatos e repressores que lhe deram mesada, montaram seus escritórios ou arranjaram os negócios para os filhos tão "esforçados". 
Não se trata de se sentir culpado pelas mazelas que sofrem os outros; mas de aprimorar a capacidade de olhar ao redor, para além da bolha em que determinados indivíduos insistem em permanecer. É mais fácil sentir-se independente no sistema que criamos para uso restrito, individual. 
O estado de independência não se resume às possibilidades particulares, quase sempre na forma de moeda em carro, apê, viagem, cartão de crédito, conta corrente ou poupança. Seria de grande valia perceber onde (e entre que pessoas) tal sensação mais se manifesta. 
Mesmo o estado de independência sujeita-se à comparação, esta que somos mais (ou menos) capazes de estabelecer entre nossa lida, nossa sina, nosso ponto de origem e o lugar e condições dos outros. Em muitos casos, defender a própria independência é negar e tripudiar sobre a importância dos demais (aqueles que estão no ponto de ônibus, aqueles que vão a pé sob o sol ou a chuva; aqueles que não tiveram oportunidades similares às nossas etc). 
Reconhecer as diferenças é importante. Mas pautar a nossa independência (relativa, por definição) em torno de nós mesmos é desprezar o concurso de muitos outros fatores que facilitam, ou não, encarar a própria jornada. 
Apologias em torno de si mesmo sinalizam para um modo arrogante de ser e conceber. Mas, para o percebermos é preciso mais modéstia, bem como reconhecer as múltiplas cadeias convencionais de que participamos em nome da pretensa autonomia absoluta e exclusivista.

sexta-feira, 4 de setembro de 2015

Lugares de Predileção

Livrarias e lojas de instrumentos musicais provavelmente sejam os locais que mais gosto de frequentar. Sintoma disso é o fato de me ressentir fascinado, a cada vez, pelas cores, brilhos, sons e vozes que eles irradiam, ali, parados, a nos observar das prateleiras, gôndolas ou suportes afixados ao rés-do-chão ou altivamente. Não por acaso, música e literatura sempre foram "minhas" artes preferidas, à que muito mais tarde, veio de juntar a Retórica - aquele conjunto de procedimentos persuasórios (tekhné>ars>arte) que teria nascido por ocasião de contendas, quanto ao peso de produtos e questões de terras, cinco séculos antes do chamado Cristo, nas proximidades da Sicília. A lista de lugares prediletos seria extensa, a começar pelos cafés (Café Floresta, sob o Copan; Piccolo Café, na Paulo Egídio com a Benjamin Constant...), cinemas e aeroportos, mas restrijo-me a dois deles porque estão, de fato, no topo da lista de preferências, disputando o difícil primeiro posto. Não mencionarei cá os lugares de meu desassossego, pois não pretendo alardear dissabores, embora os ache necessários, nem que o faça para relembrar aos outros que o mundo não se constrói de pensamentos exclusivistas, sorrisos embalados por remédios ou pela força das conveniências. Ser coerente envolve tentativa constante, exercício de sensibilidade e pensamento capaz de durar a vida inteira. Há aqueles que se dizem corretos, retos, justos, honestos, bem-sucedidos e felizes. Curiosamente, são os primeiros a fazer caretas, sorrir debochadamente e apontar todos os dedos deselegantes para os tipos que deles diferem e que (eles) classificam sem maior exame. Em presença deles, até mesmo os melhores lugares sugerem-nos a voltar para o embalo das gentes nas ruas.

sábado, 29 de agosto de 2015

Notícia particular

Eu nunca tinha interagido, assim mais de perto, com um ramster: roedor de uns 100 gramas, com quatro patas e cinco dedos em cada, pelo curto cor de areia e olhos pretos. Graças a minha filha, pude ajudá-la a instalar nova moradia e apetrechos para dois deles e conhecê-los melhor. De quebra, ainda pude pegar o Harry* na mão (por segundos, é claro) e, melhor ainda, dar biscoitinhos de coco, que dois** deles tomaram das mãos, fazendo croc-croc diminuído como o tamanhinhozinho deles. Além de passar a tarde com Morgana, oferecendo-me para ouvi-la e, quem sabe, aconselhá-la da melhor forma, graças ao fato de ter deixado o controle da vaga do carro em algum lugar (de novo!), conheci a ciclovia da Amaral Gurgel, que depois emenda com a Avenida São João. Há dias extraordinários, em geral quando estou em companhia de pessoas (e animaizinhos) as mais caras. *Sim, sim, os quatro(!) ramster receberam nomes de personagens preferidos de minha filha. Coisa de quem adora os bichos e tem lá sua pitada genética de pai nerd, né? ** O terceiro estava dormindo dentro do tubo. O quarto sinalizou que não estava muito a fim de comer naquele horário.

domingo, 16 de agosto de 2015

Véspera (15.VIII.2015 - 17h43)

Você, que julga defender o Brasil social-democrático, ordeiro e ético, não se esqueça, amanhã, de vestir a camisa da honesta CBF. Também não deixe de alardear as suas falcatruas para sonegar impostos (são apenas 500 bilhões ao ano, 10% do PIB); a sua grande esperteza em furar filas e driblar o trânsito da cidade; a forma "inclusiva" com que trata as pessoas que moram na rua (aqueles seres que você vive a julgar e condenar como vagabundos, afinal eles "gostam" de estar em tal situação). Aproveite para rezar bastante, em nome de si mesmo; de cantar o hino nacional, cuja letra entende como poucos (leve a colinha, heim?); de elogiar o apoio oficial de seu partido ao Eduardo Cunha. Acima de tudo, não se esqueça: o seu partido é o único que não erra, que não desviou dinheiro da Petrobras; que não doou a Vale do Rio Doce e a Companhia Siderúrgica Nacional a famílias israelenses. Que não desviou verbas bilionárias da Educação e da Saúde, especialmente nas Minas de Aécio. Afinal, os tucanos julgam estar ligados a uma classe social privilegiada, donos de cultura e conhecimentos em história acima da média nacional. Aproveite, também para defender a neutralidade da Rede Globo, a honestidade da Revista Veja e a matéria seletiva dos jornais "com credibilidade" da província de São Paulo.

Pauperização

Alguém poderia avisar os manuais de moda, design e arquitetura que temos pelo menos duas novas cores: o verde lantejoula e o amarelo CBF: um a mostrar a confusão entre esperança e passeio raivoso pela tarde; o outro a misturar nacionalismo futebolístico com caráter nacional, ética patriótica e bondade de ocasião. Não por acaso, azul com amarelo dá em verde: novíssima cor com que se vestem os hipócritas. Por definição, gente a quem falta autocrítica e imparcialidade.

segunda-feira, 3 de agosto de 2015

Polarização

Diante das (nem tão) recentes demonstrações de desafeto, especialmente por intermédio das redes sociais, ocorreu-me sugerir que as polarizações entre partidários e antipartidários sempre estiveram em campos opostos, desde os tempos da Regência. A questão é que, quanto mais tempo o partido vermelho permanece no poder, mais isso incomoda os que se supõem defender, com lógica, imparcialidade e coerência, a legenda azul e amarela (e companhia) - grupo que de nacionalista não tem muita coisa, exceto a mania insuperável de se considerar gente melhor e mais instruída que todo o restante da população brasileira, especialmente se votar em outra coisa ou defender a igualdade social. Resumindo, este país só pôde ser chamado de conciliador enquanto os conservadores (e privatistas) estiveram no poder, como historiadores, filósofos de araque e jornalistas que vivem a repisar a falácia de que são neutros. Agora, a conciliação é uma postura tida por impossível, como salientou um dos fundadores da ala a que me refiro. Continuando... No fim das contas, quando a história e as notícias são escritas por determinados grupos de poder - feito as emissoras e revistas que conhecemos e os jornais que vamos desconhecendo -, é de bom tom dizer que há concórdia. Evidentemente, quando os considerados pobres, populistas e (únicos) corruptos assumem o poder, são alvo dos ataques mais tacanhos, que vão de comentários sem fundamento ("olha o look da Presidenta! olha como ela fala estranho! ela pegou em armas! eu odeio...eu odeio...porque sim") a definições classistas, que além de revelar que tais sujeitos se colocam num patamar sociocultural acima dos demais, visam a desqualificar qualquer posicionamento de gente instruída e bem alimentada com rótulos (chamado-nos de "esquerda caviar" ou coisa que o valha) com vocabulário que tomam emprestado daquele periódico, à beira da falência, que vive a manipular fotos e textos. Política e politicagem são coisas bem distintas. Tomar partido e ser politizado, também. Sempre ouvi dizer que a razão não costuma estar do lado de quem grita, em lugar de propor um efetivo diálogo para descobrir o que vai mal e aprimorar o que vai bem. Na certa, estou errado em simpatizar com gente menos favorecida em diversos aspectos; mas, em minha trajetória, sempre ajudei muita gente, dando aulas em ONGs, sendo solidário a greves de outras categorias, quando justas etc. Acima de tudo, comparo jornais e, há tempos, desconfio do que dizem os canais de rádio e televisão. Muitas coisas há que melhorar no país, no estado, na cidade; isso não quer dizer que precisemos dinamitar o que foi feito e possamos ignorar, incólumes, os benefícios que foram trazidos. As pessoas e coisas não são estanques; mas no momento em que uma penca de candidatos (com várias denúncias criminais nas costas) e atores (a mando de determinada emissora) vai à televisão para conclamar mais um, mais um "impeachment", só posso pensar que se trata de gente que confunde "desgostar" de um partido com "consciência de classe".  

quarta-feira, 29 de julho de 2015

Das formas

Pensava cá que eu deveria imitar os melhores modelos textuais dos cronistas que li para fazer deste novo volume de pseudo crônicas algo com formato mais regular, a simular o preenchimento de uma lauda de jornal, com seus cinco ou seis blocos, distribuídos entre parágrafos introdutórios, desenvolvimento e conclusão. Mas talvez por preguiça (e medo de perder o que há de espontâneo), torno a considerar que talvez seja melhor manter a extensão dos textos do jeito que eles vão saindo, mais ou menos situados entre a apatia generalizada e a padronização de modos, sentires e pensares dos seres a nossa volta. Fiquemos com a irregularidade, oras. Há muita gente metida a certinha e convencional na terra das palmeiras e de raros palmares.

quinta-feira, 16 de julho de 2015

Das coisas maiores

[Relato de 13.VII.2015 d.C.]

Cá estamos. Venho de um sebo da Rua Sete de Abril, onde fui buscar Lógica formal/Lógica dialética, de Henri Lefebvre – expoente do pensamento materialista francês do final da década de 1960, cujo contato e conhecimento devo ao colega e amigo Ricardo Baitz, com que tive a alegria de dialogar enquanto dividimos aulas, bancas e filosofias de boteco na Fatec São Caetano do Sul. Voltando para este castelo de 40 metros quadrados, sinto que alguém tenta-me arrancar o exemplar que acabara de retirar. Irritado, deparo com uma fila de crianças, com seus sete, oito anos. Faço uma careta, em tom de honesta e severa reprimenda ao que, instantaneamente recordo-me de meu pai. Penso, ralentando o passo: “certamente ele teria agido de outro modo”. Talvez até sorrisse, largo e contagiante, que era de seu feitio, para o menino que puxava o pelotãozinho de guris; arquearia as sobrancelhas e desenharia uma careta divertida, para que nem ele se sentisse incomodado com o gesto infantil, nem o menino lembrasse de tanta distância que há entre crianças e adultos, nem da tremenda distância sócio-econômica entre uns e outros, a trilhar pelas ruas tortas e calçadas estreitas da maior cidade do hemisfério sul. Decido celebrar o reencontro concreto, posto que imaginário, com Henri Lefebvre numa tradicional cafeteria do Copan. Tiro uma foto do livro, pires e balcão; saboreio o café; dirijo-me ao caixa, onde um senhor atende há anos. “Quanto é o café”? “Quatro reais”. Tiro duas cédulas, tendo em vista facilitar o troco e conceder-lhe uma pequenina alegria. (A vida de caixa não deve ser fácil, com tanta gente arrogante a vociferar comandos e exigir, impacientes, cédulas miúdas de volta). Estendo, alegre, a mão: esta parte do corpo que o senhor ignora (pois decidira fazer algo, olhando para o aquém enquanto eu lá esperava), embora não recuse o dinheiro como pagamento. Sinto-me frustrado: muitos homens na posição de caixa agem desta forma, pouco importando o lugar e o público que o frequente. Talvez eu pudesse objetar-lhe que é falta de respeito deixar de olhar para quem nos paga. Mas, tsc, tsc. Que(m) sou eu para ensinar algo a uma pessoa que poderia ser meu pai? Um sujeito que talvez esteja cansado de trafegar entre o balcão, as máquinas e a caixa registradora, ora? Questão de somenos a qual porventura eu esteja atribuindo muita importância. Ou estaremos a tolerar, em demasia, a fala monossilábica, os gestos, em contraparte, que não vêm? Como sempre digo, os livros têm-me sido melhor companhia que muita gente fincada às sombras, ou à luz do sol, mesmo.

terça-feira, 7 de julho de 2015

Definição


Este país é um absurdo de quinhentos e quinze anos à beira de mim e do Atlântico.

terça-feira, 23 de junho de 2015

Hipocrisia em azul e amarelo

Desde os chamados anos de chumbo, ser "nacionalista" neste país-nas-mãos-de-deus é defender a privatização generalizada, priorizar as manifestações culturais dos Estados Unidos; ler mal a Veja, a Folha e companhia; assistir acriticamente às emissoras de rádio e televisão. Mas, é claro, essa parcela de pseudo nacionalistas constitui-se dos mesmos hipócritas que vivem a relativizar as suas contradições, em nome das cores da bandeira (cujo significado tosco em geral ignoram). Tsc, tsc.

segunda-feira, 22 de junho de 2015

Alunos: espaço ocupado

A exemplo do que dizem os versos de Drummond, em Poema de sete faces, "tenho poucos e raros amigos; quase não converso". Hoje, enquanto acompanhava os alunos durante a realização das questões que formulei para a prova, ocorreu-me uma nova síntese. Creio que finalmente entendi porque tenho um número menor de amigos; e porque, em mim, a vontade de conversar sobre amenidades e ideias-prontas é quase nula. É que, desde que passei a lecionar, reservo o inconformismo, a dedicação e a tentativa de ser uma pessoa coerente a essas criaturas - de quem, a cada final de semestre, sinto saudade e para quem desejo sempre que sua trajetória traga felicidade para si e todos os outros. "Estudo" e "estudante" talvez sejam as entidades de que mais me ocupo. E repare(m) que nem tomei conhaque, nem o sol impediu a lógica porventura embutida nessas palavras: talvez piegas, mas honestas. 

quinta-feira, 18 de junho de 2015

Um pedaço de Saramago no Campus

José Saramago deixou-nos há exatos cinco anos, segundo as contas permitidas pelo Calendário Gregoriano. Hoje também foi o dia em que voltei a participar de uma reunião na Associação dos Docentes da Universidade de São Paulo, quinze (anos) após a greve realizada em 2000, que durou cinquenta e quatro dias e consolidou em mim a convicção de um ser decisivamente à esquerda. Evidentemente, não se dizem certas coisas no mundo adulto: suspeito que não seria de bom tom fazer reverências a determinadas pessoas que me eram caras desde os tempos de graduação, a exemplo de Francisco Miraglia. Por isso, deixei de externar aos novos colegas do Conselho e aos Professores mais experientes que, para mim, era motivo de honra compartilhar de suas ideias, num mesmo espaço, em volta da mesa de reuniões, munido de documentos que embasam a postura de quem se dispõe a conhecer melhor aquilo de que trata. Provavelmente é o mundo adulto, com suas convenções e contenções, que me impede de enfatizar a falta que sentia de restabelecer novo vínculo acadêmico com a Universidade. Uma ausência sentida, com intensidade análoga àquela de alguém que lamenta a partida de um de seus guias culturais: Saramago, mas é claro. Quanto mais vivencio os sintomas obscurantistas e o discurso tacanho de determinados setores de nossa sociedade civil, política, militar e religiosa, mais me inclino à apologia da solidariedade. Modo talvez piegas, mas honesto, de propalar a necessidade de que pratiquemos maior humanismo em todas as oportunidades que criemos ou com que venhamos a nos deparar, desbancando a resignação obediente e extrapolando a esperança, ora imediatista, ora atemporal, que costuma vir a reboque daquilo que se considera o máximo possível. 

quarta-feira, 10 de junho de 2015

Aluno credor

Aluno credor - sub. m/f.

Definição: indivíduo com faculdades mentais e corporais, ambas em pleno funcionamento, que atribui ao professor a eterna dívida de tudo aquilo que o próprio estudante não faz. 

Sintomas: em tese, dispõe do direito inalienável de se ausentar, de se atrasar, de não estudar e de se entendiar durante as aulas. Sente-se prévia e maximamente qualificado a ponto de comparar de modo pejorativo os seus professores, supondo ser ele mesmo uma peça rara, estudioso em potencial (sem estudar o mínimo); cidadão genial (sem se esforçar o suficiente, sequer em seu papel em sala de aula). Acredita ser uma entidade de nível evidentemente superior, que costuma irradiar suas incongruências e a confundir a paixão, o esforço e o saber do professor com itens obrigatórios na relação submissa que o educador deve prestar ao Reino do Cliente-Aluno. Sob sua ótica altiva, mas estreita, crê que o educador seja um vassalo devotado a Sua Magnificência. Aluno-entidade, porta o um crédito infinito, na relação com o mestre, em proporção direta de sua arrogância. Esta se revela em seu discurso, nos gestos e em demais expedientes de que o estudante dessa estirpe lança mão para "obter" boas notas (ai, se ele for rigorosamente avaliado!) e assegurar o índice de frequência suficiente (ai, se as faltas forem computadas de fato!) para ludibriar outros professores em etapa seguinte.

quinta-feira, 4 de junho de 2015

Aforismos

"Onde o Estado é mínimo, a violência é máxima".

"Forme-se como gente, antes de deformar seu professor".

"O pressuposto de defender o cacetete em lugar do giz, está em enxergar o professor como lacaio coletivo".

"Sala de aula envolve disciplina, mas não implica reprodução de toda forma de ordem".

"Mais importante que o famigerado sucesso acadêmico, profissional ou pessoal é a reavaliação constante dos princípios que supomos nossos, munidos de pseudo valores e convicções".


quarta-feira, 3 de junho de 2015

"Professor, pra que esta aula serve?"

Professores, da próxima vez que um(a) aluno(a) seu perguntar pela "utilidade" do que você ensina, responda-lhe que ela corresponde, mais ou menos, à mesma "utilidade" de assistir a um seriado ou fazer uma viagem. Com a diferença (em nosso favor) de que a aula decente edifica seus participantes.

Do título

Antes que este livro avance, uma explicação a respeito do nome que lhe pus: Croniquetas. Sim, assim, mesmo, a sugerir que se trata de nova aventura com emprego do gênero flexível e historicamente instável, que é a crônica, acrescida do sufixo que diminui. "Eis uma boa estratégia", poderíeis apontar. Sim, sim. Teríeis razão. Croniquetas soa pequeno, rasteiro, chão. Em suma, humilde, como se título emprestasse aos textos que o preenchem a incapacidade do pretenso autor de tecer conceitos melhores, elaborar narrativas mais longas, dissertar com argumentos menos inconsistentes. Vá lá. Fiquemos com esta palavra só. Cro-ni-que-ta. Ora, pois, assentou bem, assim me parece. Se, incerto dia, virar livro, tornar-se coletânea, conjunto, antologia, compilação, reunião ou coisa que se assemelhe, teremos editor, revisor e eu a oportunidade de fazer balouçar as palavras sobre a capa, a lombada e o colofón. Afora o todo, o resto será história nula, historieta.

Ler é resistir

Infeliz do professor que trata a sério de autores, temas e obras que demandem a leitura prévia (ou atenta) por parte de seu auditório, por mais homogêno que o público seja. O problema reside não no repertório do aluno, porventura existente, ou em seu mero (des)interesse, mas na formação do gosto. O educador se vê na tarefa inglória, e muitas vezes incompreendida, de inocular o positivo hábito de ler. Ou seja, ele se vê como um médico ou xamã, diante de uma parcela refratária, a ministrar um dos remédios de que os próprios estudantes precisam, embora desconfiem da aula e acreditem que são autossuficientes. Num país de raros leitores e parcas bibliotecas, o livro caro vende mais, muito mais, do que aquele que facilita o acesso a conteúdos relevantes, com interesse histórico e cultural. Ou seja, diante de um público que lê mal ou diagonalmente, além de fazer o seu trabalho (pesquisar, preparar aula, ministrar aula, orientar, tirar dúvidas, corrigir atividades), o professor precisa desenvolver técnicas diárias de resiliência, pois lidar com a apatia e a indiferença trazem cansaço. O aluno pode desanimar, ausentar-se, considerar-se cliente;  o professor, não. Ele tem que justificar, o tempo inteiro, o papel da bibliografia mais básica justamente para quem deveria ter avidez - ou curiosidade, ao menos - pelos assuntos, autores e obras sugeridos - por sinal, elencados no programa. O resultado é que os sinais estão invertidos: justamente o aluno que não faz sua parte é quem mais demanda atenção e se coloca numa posição clientelista, na expectativa de textos mais fáceis e dirigindo-se ao professor somente para tratar de questões supostamente úteis ou mais relevantes ("o que cairá na prova? do que se falou na aula passada? haverá algo importante ou valendo nota na aula de amanhã?"). Como lidar com estudantes que aprenderam a ser servidos desde o berço e cultivam uma visão absolutamente egocêntrica do mundo (em que pensam viver da melhor forma)? Que não reconhecem o trabalho de seu professor? Que tiram sarro da aula, questionando seu valor e utilidade? Creio que o educador não possa se demover de seu posto. Mas, acima de tudo, o seu papel deve estar claro para si. A sua fala deve revelar que ele é autorizado a fazê-lo. Quanto ao que pensam e demandam os alunos, é preciso que o educador crie reservas de energia para não se sentir como um bobo da corte, a cada vez que o coro de vozes não soar em uníssono. Ora, a mediação de conhecimento sugere bilateralidade, e não o embate por motivos vagos, a desarmonia. É preciso que professores e alunos deixem de ocupar postos fixos e distantes. Sob essa ótica, a leitura pode constituir uma síntese essencial (supondo-se que alunos e professores ocupem posições assimétricas) para a qualidade do encontro. Também chamado "aula".

sexta-feira, 29 de maio de 2015

(Con)gestão

Mais uma vez, os professores deste Estado indigesto precisam sair às ruas para desdizer o silêncio da imprensa e desmentir os índices falaciosos do pseudo gestor. A julgar pelo que ele faz com a água, o transporte e o cacetete, quando a educação será prioritária?

domingo, 24 de maio de 2015

Manifesto Docente

Ora, pois, de Moisés ao século XXI, determinados líderes (também chamados de messias, papas ou gênios de diversas áreas) criaram regras com que pretenderam instaurar um universo de riqueza material e plenitude espiritual, supostamente atribuído a todo ser humano com boa-fé, virtudes mais e vontade. 

Erasmo de Roterdã disse, há cinco séculos, que a vaidade é uma das sequazes da loucura. Pois bem, afora o fato de esse livro poder ser considerado como uma demonstração de cabotinismo de mim mesmo, pensei em bolar dez máximas como forma muy particular de registrar as convicções de um professor. Este que voz dirige a presente missiva. 

Sem mais delongas, lá vão elas:

I - Tecnologia não salva aula ruim.
II - O bom professor equilibra éthos (caráter), páthos (paixão) e logos (saber) em seu discurso. Lição de Aristóteles (384-322 a.C.).
III - Antes ministrar uma aula trabalhosa, mas decente, que uma gincana para ocupar o tempo com alegria fácil e superficialidade enganosa.
IV - De modo geral, os alunos preferem o professor rigoroso ao desregrado.
V - Desprezar livros "antigos" equivale a censurá-los (como na Inquisição) ou queimá-los (como o fizeram os soldados de Hitler, em 1933).
VI - Repetir as mesmas palavras sem cessar pode até marcar a personalidade do professor; mas, de maneira geral, irrita os alunos, que desconfiam do repertório e da velocidade mental de seu mestre.
VII - Não existe discurso neutro. Julgar, condenar e punir o professor que diz o que pensa é atitude tacanha e hipócrita daquele que esquece o fato de que doutrina e docência são palavras de mesma raiz latina.
VIII - As aulas não precisam, necessariamente, "servir" para algo particular; de modo geral, a cultura caminha na contra mão do pragmatismo.
IX - Antes de criticar a aula de seu professor, pondere se você tem o mesmo repertório e empenho em estudar; a mesma habilidade e interesse em (se) formar que ele. Considerar a bagagem e a linguagem dos alunos não implica em anular a autoridade e o repertório de quem está lá para "pesquisar e falar", como bem disse Roland Barthes, em sua "Aula" de 1977.
X - Via de regra, o aluno mais esforçado reconhece o bom professor, mesmo porque ambos trabalham com disciplina (o que não impede o eventual tom jocoso), seriedade (o que não impede a desejável alegria) e modéstia (o que não impede chegar ao sublime).

Planeta Terra, 24 de maio de 2015 
(dois anos após a morte de Pierre Daniel Chauvin: o melhor professor que terei).

sexta-feira, 22 de maio de 2015

Manifesto da carteira (aquela outra)

Leciono, formalmente falando - registro em carteira ou certificado - desde 2002. Mas, antes disso, tinha dado aulas particulares isoladas e me somado a um grupo de colegas do Instituto de Biociências, na Universidade. Essa experiência no IB aconteceu em 1999: nós, funcionários, organizamo-nos com o objetivo de auxiliar aqueles que tinham maior dificuldade na leitura, escrita e aritmética. Embora não tivesse lido direito os ensinamentos de Paulo Freire ou da Madre Montessori, as aulas consistiam de encontros entre colegas unidos pelos mesmos fins e a crença no aspecto emancipatório e libertador do ensino - fosse ele mais, fosse menos formal. Se eu fixar aquele ano de 1999 como o primeiro de minha trajetória como educador, facilitador, mediador, professor (para mim, esses termos sempre foram equivalentes), há algumas questões e atitudes que cá permanecem: a) certa dificuldade para me manter distante ou ser frio em relação aos alunos; b) o desejo de assistir o progresso horizontal dos estudantes, tanto cultural, quanto espiritual e materialmente; c) a crença no conhecimento, em suas múltiplas formas, como forma de ampliar o espaço de si e dos outros; d) a importância ao discurso, à fala compartilhada; e) o reconhecimento de que a leitura é fundamental para aprimorar a nossa expressão linguística, o pensamento e estimular o diálogo. Quanto ao meu defeito (vide item "a"), afianço que ele trouxe muito mais alegrias que tristezas. O fato de ter vivido mais próximo dos alunos nunca impediu que houvesse respeito mútuo e reconhecimento das partes, em seus papéis (pesquisar para ensinar; pesquisar para aprender). Justamente por me colocar mais perto dos estudantes, educandos, formandos, orientandos, monitores, é que me sinto na mesma direção que eles. Que a (i)lógica do mercado não tome o lugar da curiosidade, do conhecimento e da solidariedade. Não há desculpa para depreciar o acesso à memória, à cultura e ao aprimoramento particular e coletivo. Continuarei na teima em me aproximar daqueles que dividem (ou não) a sala de aula comigo. O benefício pode ser mútuo, claro esteja.

terça-feira, 19 de maio de 2015

Ler

Para mim, ler nunca foi apenas entretenimento, mas necessidade (de manusear folhear), curiosidade (por acessar os mistérios que o escritor esconde ou revela) e vontade de aprender. Portanto, felizmente não me enquadro naquela categoria de sujeitos para quem a leitura é uma opção, quando "não se está fazendo nada", como lavar a louça, estender a roupa ou pagar uma conta. A sanha pragmática é inimiga da leitura por prazer, que envolve tempo, disciplina e vontade, é claro.

terça-feira, 12 de maio de 2015

Indizíveis

Pelo menos há dois anos frequento um bar na Maria Antônia, onde almoço ou tomo o aligeirado café da manhã. Fiz o mesmo hoje e pude confirmar o fato de que o sujeito que responde pela caixa do estabelecimento tem dificuldade (ou não está a fim, oras!) em exprimir votos positivos para seus clientes regulares. Isso não se restringe, esteja claro, a uma questão de extração social ou de status perante os outros homens: o mutismo, a fala entrecortada por marcadores conversacionais e gírias idênticas, o ato de esbarrar com os outros nas ruas parecem ser sintomas de um tempo de inflação do ego. Se Sigmund Freud me autorizasse, poderia sugerir que vivemos na Era do Egão, definido assim no aumentativo, termo extravagante, já que também tenho cá o direito de chamar a atenção sobre mim mesmo. Foi com meu pai que aprendi que todos gostam de ser reconhecidos. Quem faz um bolo, quem dá uma aula, quem consegue fechar um negócio, quem cuidou de uma flor... Anos depois é que vim a ler Erasmo de Roterdã (Elogio da loucura) e com ele me dei conta de que a vaidade funciona como grande impulsionadora de nossas pretensas virtudes, muitas vezes com o fim de receber elogios e/ou cobrar o mesmo da outra parte. No início dos anos 2000, voltei à leitura da Bíblia, em função dos estudos sobre Machado de Assis. No Eclesiastes, livro muitas vezes citados pelo autor fluminense, há a conhecida cláusula: "Vaidade, vaidade. Tudo é vaidade". A cada vez que alguém deixa de responder ao sorriso, à piada e aos sinceros votos para o melhor dia possível, tendo a procurar pistas que expliquem essa falta de cumplicidade. Frequentemente atribuo o mutismo do caixa ao hábito cultivado pela maior parte de seus clientes de pedir, consumir e pagar sem qualquer palavra gentil de permeio. Nesse caso, talvez ele tenha desistido de ser amável e simpático, como reza a cartilha das transações pecuniárias.      

terça-feira, 5 de maio de 2015

Coro de hipócritas

Tudo, inclusive a recusa em admitir o que melhorou no país. Tudo, inclusive a ignorância. Tudo, inclusive o discurso de ódio e os gestos menores e maiores de violência. Tudo, absolutamente tudo foi, é e será atribuído a uma única legenda, de modo a que os erros e a hipocrisia de quem votou no outro partido (tão falível, corrupto e sobremodo cínico) sejam depositados e concentrados como em um dínamo feito de incerteza pessoal e histeria coletiva. Imediatamente, transferirão isso para uma única mulher, porque, afinal, somos progressistas, sociais e democráticos, oras.

sexta-feira, 1 de maio de 2015

45 minutos

Acabo de retornar de uma jornada sobre duas rodas, quadro e marchas no Elevado. Foi a segunda ocasião em que retirei a mim mesmo, e à nova bicicleta, desta sala em que ela está conjugada aos livros, discos, filmes e instrumentos. Durante primeira parte do trajeto, da Consolação em direção à Praça Marechal Deodoro da Fonseca (Viva!, estamos cercados toponimicamente por senhoras autoridades celebrizadas por nossos livros de história), experiencio a costumeira sensção de altivez, de algum poder maior que aquele de pagar as contas, e uma réstia (posto que seja algo extraordinário) de liberdade. Recordo-me de algumas andanças pelo “minhocão” (Salve, Lu! Sim, vamos almoçar e prosear horas a fio, dia desses, diga-me quando e já). Desvio-me para a banda de cá, para a banda de lá, para evitar atrito com os cães e seus proprietários bípedes; a fim de não me tornar obstáculo móvel, trambolho para os pedestres, que marcham ou correm. Logo à frente há um conluio canino e, por medida de segurança ou fobia, retorno ao início, cá do lado em que habito desde o final de abril de 2013. Retomo o trajeto, no sentido à Barra Funda, decidido a ganhar coragem de driblar os donos e seus cães (pequeninos ou pitbulls) com que venha a me deparar no caminho. Enfim, ultrapassei o marco imaginário da vez primeira! Sigo, combinando marchas e velocidades para me habituar ao câmbio que tão bem responde ao desenho da mão (indicador direito: mais força; polegar esquerdo: mais velocidade; indicador da mão esquerda, marcha pra baixo; polegar da mão esquerda, marcha arriba. Mal lembrava de que a bicicleta também afoga, quando cruzamos as polias...). Da segunda vez em que volto em direção à Praça Roosevelt, avisto desde a Marechal a Torre do antigo Edifício do Banespa. Então, a altivez, a liberdade e o desejo de amplitude cedem o turno à nostalgia, marcada por aquele espaço, mas recuado a outros tempos (2008): tempos felizes, apesar de amargos, em que reconheci quão grandiloquente e arrasador pode ser o afeto maior, aquele: sublime, desesperado, apressado, ansioso, outramente, maiormente. A nostalgia, ainda que fugidia, acompanha-me durante parte do percurso, mas aos poucos se dissipa, porque volto a pensar nas coisas a fazer (louça a lavar, livros a ler, textos a produzir, filmes a assistir, pessoas a visitar, filha a reencontrar, mãe a telefonar). À medida que me aproximo da última curva, antes de virar à direita, mirando este pequeno prédio verde limão-desagrado, recordo-me de meu pai e de seu hábito – disciplinado – de “faire du velo” aos domingos de manhã, antes de almoçar comigo e sua neta em restaurantes bons e amistosos aqui: “au centre”. O saldo é multiplamente positivo, a começar pelo fato de poder dizer que em lugar de marchar ou bater continência, caminhei tranquilo e docemente por sobre o General Costa e Silva (que o Elevado se torne parque: o nome seja outro) e lá fui esnobar o Marechal Deodoro da Fonseca, dando-lhe as costas. Da próxima vez, aumentarei o tempo, o ritmo e a força emancipatória das pedaladas.   

segunda-feira, 13 de abril de 2015

Eduardo Hughes Galeano (1940-2015), Companheiro

Inevitável sentir-me metade órfão intelectual, metade órfão político, diante da morte do notável jornalista e historiador que foi Eduardo Galeano. Ao me deparar com a manchete em espanhol sobre sua inexistência desde este aziago dia treze de abril de 2015, voltaram-me algumas sensações de cinco anos atrás, quando José Saramago partiu. Sempre que pude, convidei os alunos de diversos cursos a lerem "As veias abertas da América Latina", publicado quando o uruguaio tinha apenas trinta anos. Obra fundamental, ressalto e meio, pois diz muito sobre nossa condição a reboque, como brasileiros e, mais, como sul-americanos, reféns dos homens "civilizados" da Europa, que etiquetaram a América como "Novo Mundo": expressão que só fez registrar o massacre de milhões de nativos que aqui já estavam a fazer um universo de ritmo e dimensões outras, para além do moralismo hipócrita e genocida, em nome de deus, dos reis e do mercantilismo. Mas, é claro, os tempos mudaram; só a nossa condição servil é que persiste, pelo menos desde um século imitando e reproduzindo modelos de ser, agir e pensar de outros povos (antes a Europa, depois os EUA), o que nos faz olhar para nós mesmos como se fôssemos alienígenas, inadequados aos modelos que nos engessam. Isso, apesar de sabermos que os modelos chegam "democraticamente" de fora, sob a tutela dos "xerifes do mundo" - como Eduardo Galeano se referia aos Estados Unidos, aquele país para quem a América volta os olhos, os ouvidos e todo o resto. Eis que, digerindo a morte desse Eduardo, fiquei a pensar que o impacto provocado por ela não será o mesmo nas outras pessoas, evidentemente - e em particular, para aqueles que insistem em dizer que "o mundo é assim, fazer o quê?", enfiados em suas micro-telas nos gadgets tão reduzidos quanto a sua ótica enviesada, embora tecnológica, mega pop, ultra-moderna, que desconsidera a história (a passagem do tempo) e o fato inelutável de que as pessoas fariam melhor os lugares se tivessem maior consciência de sua importância e força. Eduardo Galeano fazia-me recordar, assim como José Saramago, de nossa postura "abre-pernas", egótica e conciliatória; levava-me a lembrar que nossa resistência deve ser contínua e pode combinar sabedoria, conhecimento e alegria. Indignar-se é saudável, ainda mais num mundo crescentemente tomado pela apatia e pelo descaso para com o outro. Que Galeano inspire a luta e nós tenhamos a oportunidade de respirar, também por intermédio de suas lúcidas palavras. 

sexta-feira, 6 de março de 2015

Do barro à água

Acabo de voltar de uma loja que vende materiais de construção e utensílios domésticos, ali na Praça Roosevelt, em busca de um utensílio das antigas que eu vira por lá, meses atrás. O saldo foi muito positivo: subi a Consolação abraçado a um velho e bom filtro de barro que me fez evocar algumas cenas da infância, quando meu pai, meu irmão e eu andávamos a carregar coisas descomunais e imprevistas (caixas de livros, pequenos móveis, instrumentos eletrônicos e congêneres). É no mínimo interessante a experiência de passar por entre os carros a buzinar em fila, portando os plenos direitos que a condição de pedestre e memorialista me assiste. Logo mais, vou me servir de um bom copo de água bem vivo, apesar de estarmos a ingerir líquido proveniente do que se convencionou chamar de “volume morto”. Aliás, alguém terá reparado no teor algo paradoxal desta expressão? Ela me parece dizer muito sobre a gestão ambivalente de pessoas que vivem milimetricamente sobre o muro, negligenciando o que sugere a sigla de seu partido.

terça-feira, 3 de fevereiro de 2015

Do refinamento

Caminhando pela Praça Roosevelt, há instantes, uma frase veio à cabeça: o refinamento é natural nas pessoas de classe. A sentença poder soar como uma baita generalização, mas provavelmente seja fruto de muita comparação entre as gentes. Evidentemente, outro terráqueo poderia ter comparado as mesmas coisas, fatos e pessoas, tendo chegado a resultados, fórmulas ou máximas diferentes. Mas, aceitemos este pressuposto (já ressalvado o fato de ele ser particular): o refinamento de voz, tom e modos está atrelado aos ambientes mais ou menos lisos, tacanhos ou afetados por que um ser humano passou, combinado às lições que ele tirou para si mesmo das experiências que vivenciou. Desta perspectiva, o contrário também acontece com frequência: há pessoas que fingem refinamentos e, nestes casos, quase sempre eles não são consistentes, nem se sustentam por muito tempo. Melhor dizendo, eles perduram oscilantes até que uma situação aparentemente menor revele a brutalidade canhestra que acompanha o indivíduo para onde ele for, seja no estádio de futebol, na mesa de um bar, na reunião com os sócios, numa entrevista qualquer. A assertiva, portanto, é paradoxal: como pode o refinado ser natural? A explicação possível é de que o refinamento não seria espontâneo; mas assim pareça aos demais em razão de o sujeito ter entronizado determinados códigos, equitativamente distribuídos em seus falares e modos de conduta. O refinado autêntico não precisa disfarçar sua eventual falta de tato com alegações de poder, falta de memória ou distinção: de modo geral, ele age de maneira mais humilde - próximo que está de seu modo mais autêntico em ser, a despeito das máscaras que - como todos nós - ele também carrega. Chegamos a muitas conclusões de cunho pessoal a partir de comparações que pudemos estabelecer. Este tem sido meu corpus de exame e é nele que encontro base e justificativa para supor que determinadas pessoas tenham mais atributos que outras; que revelem muitos outros modos de lidar com assimetrias que outras. Por isso, é deveras curioso quando algumas pessoas recomendam (o verbo é forte) que evitemos compará-las com outras. Tendo a responder que estabelecer comparações é inevitável. É assim que percebemos que um filme, um livro, uma pessoa está ou não no mesmo quilate de outra. Nesse sentido, comparar é aprender a estabelecer diferenças e similitudes; envolve aprimorar nossa capacidade de tolerância; mas também significa descobrir e admitir nossos limites, frente às incompatibilidades com os outros.

sexta-feira, 30 de janeiro de 2015

Arte (espontânea) da conversação

Com os verdadeiros amigos a coisa funciona assim. Agendamos, no linguajar mais adulto possível, o reencontro em uma livraria. Suponhamos, a Martins Fontes da rua Dr. Vila Nova. Lá folheamos alguns livros - cuja leitura adivinhamos ou degustamos por antecipação. Em seguida, vamos a um café, para tratar com mais tempo e vagar dessas e de outras coisas (os filhos, os alunos, os projetos literários, as estratégias para persuadir o nosso auditório, as alegrias e percalços do mundo acadêmico, o maniqueísmo discursivo de nossas revistas e jornais, as relações poéticas e culturais entre obras e autores de tempos sobremodo distantes, as vicissitudes do mercado editorial, os novos hábitos de consumo e o papel da literatura na vida das pessoas, a figura do erudito generalista versus o mega-especialista sob as ordens e desígnios dos órgãos de fomento e assim por diante). De súbito, liga a esposa de Iuri, em tempo - mesmo porque, depois de duas horas e meia mais duas xícaras de café, estávamos havia pelo menos mais meia hora em pé, à beira da esquina com a Consolação, (con)versando ininterruptamente. Ah, o discurso fluido, ágil e pleno de conteúdos, ideias e sugestões de novos planos relacionados à literatura. No fim das contas, creio que gosto de ouvir e compartilhar projetos porque assim encontro uma desculpa pretensamente madura e pragmática para me manter mais tempo em diálogo com amigos que me são tão caros. Obrigado, Iuri. Leve meu abraço, as memórias e a expectativa de novas e saborosas conversas - que já duram mais de 17 anos. Eu não sou nem serei Rilke; mas permito-me dizer que este relato poderia ter recebido o título de "Carta a Iuri". Soaria kafkiano e igualmente elegante.

quinta-feira, 29 de janeiro de 2015

Sobre Mike Oldfield

Deve fazer uns vinte anos. A primeira coisa que ouvi do multi-instrumentista inglês Michael Gordon Oldfield foi a versão em vinil do álbum Crises - lançado em 1982 -, que me havia sido emprestado por uma ex-cunhada (que, por sua vez o havia encontrado na casa de um amigo). Encantei-me. De pronto, sentenciei: Mike nunca fará disco melhor que este. Passei a pesquisar os seus trabalhos, que devorava muitas vezes, no formato em CD. A exemplo de outras fases (Kiss, Led Zeppelin, The Doors, Rolling Stones, Depeche Mode, Kraftwerk, Yes, Rush, Pink Floyd, Jean-Michel Jarre, Devo, The Cure, Ladytron etc), vasculhava lojas e lojas; fazia encomendas; deixei de pagar contas para ter a chance de escutar mais músicas suas. Hoje, (re)ouvindo Hergest Ridge (1974), voltei a me encantar com o que Mike fez. A fase que vai de 1973 (Tubular Bells) a Crises (1982) talvez seja a mais interessante - para quem gosta de música instrumental de máxima qualidade. Sintetizadores recheados de solos harmoniosos de guitarra, linhas melódicas no contrabaixo, além de instrumentos de percussão, como o piano, as palmas, mais caixas de música e metais. Foi uma senhora descoberta. A essa altura, ele deve ter pouco mais de sessenta anos e provavelmente jamais saberá o que sinto, penso e imagino, inspirado pelas notas e arranjos que combinou. Eu diria a ele que, musicalmente, é e continuará sendo uma de minhas principais referências; que volta e meia vivo a semear trechos do que compôs na forma de assobios ou cantorias avulsas, mesmo. E concluiria: sua música sugere meu diálogo com os instrumentos e a desejar uma pretensa interlocução com todos os povos. Nesse sentido, Mike Oldfield é universal, para muito além dos rótulos criados pela indústria fonográfica. Um exemplo particular: graças aos seus discos, posso tocar baixo como se estivesse em  meio a uma conversa, nota a nota, com o compositor. Não deixa de ser uma honra que presto a mim mesmo: segui-lo.   

quarta-feira, 28 de janeiro de 2015

Pragma

Pragma (negócio) é termo antigo. Aos olhos de hoje, as palavras derivadas deste substantivo grego soam bonitas, sérias e elegantes. Diz o sujeito com gravata e empáfia: "ah, você sabe, é que eu sou pragmático"; diz a amiga em branco, preto e salto: "ah, o pragmatismo é necessário: não vivemos de vento". E assim, enfileiram-se truísmos a emoldurar frases feitas e lugares comuns, já que poesia é coisa de gente fraca, romântica, piegas, patética. Pois bem: há décadas contemplo, contrariado, jovens e adultos a tratar, discutir e remoer atitudes de cunho...pragmático. O contrato fechado; a postura do cliente; a estratégia utilizada para engambelá-lo; a forma como conquistar pessoas ou as despachar. Não se fantasiam a partir de livros: eles foram substituídos pelo tédio persistente, o falatório ruidoso, a gargalhada histérica, a seleção da próxima imagem ou música em formato de arquivo. Os verbos iguais invadem e consomem. Substantivos e adjetivos do universo negocial são evocados em diálogos feitos de injunções, instruções, implicações, somas, cálculos. Não se trata apenas de planejamento pelo bem de si mesmo ou alheio; mas de enaltecer, ininterruptamente, os planos mínimos pelo viés máximo. Na falta de outros assuntos e das competências exigidas para acercar-se deles, falemos de negócio. Não discutir o que se sente ao ganhar ou perder a transação; não perder tempo com atitudes, coisas e pessoas que não nos tragam contrapartida, benefício ou lucro. Não falar ou fazer nada, sem antes e durante, mensurar o escopo, o tempo investido, os custos operacionais, as energias despendidas. Uma suposta ética do estado mínimo preside o discurso do sucesso. As formas veladas do estado violência escancaram as irracionalidades do "espírito" (termo este que, apesar de ligado ao plano abstrato das ideias, desde Platão, agora serve a defender a competição mais crua, concretíssima e tacanha, em nome de fórmulas tais quais "o mundo é assim"; "fazer o quê? preciso pagar as contas"). É verdade, afinal. Todos precisariam pagar seus débitos - assumidos ou não -, mas nem todos podem, querem ou conseguem. Evidentemente, um sujeito desses, tornando-se coisa, que vá assumindo os contornos fixos de um ser pela metade, nulo, chato e oco, eleva-se ao estatuto de um todo-só-pragmático, em que mesmo o seu lazer, as parcas amizades e o ralo pensamento entram na contabilidade que considera a menos dispendiosa. Diante daqueles que devem, ele declara (cheio da sensação de uma vitória pequena, qualquer, mas possível) - "Eu venci". Ah, o mundo dos negócios, os manuais de comunicação organizacional, a palavra duplamente empenhada em vender e servir a propósitos únicos e tão específicos, os da rentabilidade. Aprimorar a imagem; melhorar a postura (de fachada, é claro); incrementar os conhecimentos em línguas para "fazer bonito": "vender o peixe", "fechar negócio", "pagar as contas". Tudo isso, é claro, sem esquecer de temer ao patrão, de maneira análoga ao modo como teme a um deus, guardião do nosso padrão de consumo; cumprir os ritos corporativos, reproduzindo o discurso nada original e inautêntico de que se está em meio a "uma grande família" e que "é preciso vestir a camisa". Poderiam me perguntar: "mas, espere, do que você quer que falemos?". Leiam mais: bons livros trazem mais lógica e coerência que a maior parte das pessoas. Tratem de comentar a rara flor que viram na cidade furta-cor e cinza; mudem o trajeto a até o restaurante; experimentem fazer caretas para a criança que vai no carro, no vagão ou que esteja sentada na mesa à sua frente - aquela mesma, que anda lá curiosa por compreender o porquê de sua gravata, a armação dos óculos coloridos, as voltas do seu colar. E, na falta de oportunidades tais como essas, silencie, dê tempo para si mesmo e para o outro. Imagine coisas, ainda que não realizáveis. O óbvio torna-se ainda mais insuportável quando repetido sem cessar. Não precisamos agir feito histéricos, disparando tantas falas por minuto; não é necessário apontar culpados; não é compulsório discutir negócios à hora do almoço, do café-de-intervalo e, pior ainda, nos raros momentos de intimidade. A lógica negocial luta para negar o ócio, equilibrar a balança, zerar o "T" entre débitos e créditos - sugeria um poeta concretista. E isso, por mais absolutamente óbvio, constitui algo árduo a cumprir, especialmente em dias de inflação (olha outro termo aí!) do narcisismo e da crença cega num progresso. No fundo, o ato de progredir é uma mesmice; embora muitos o considerem como algo consistente, obrigatório e particular. Possivelmente porque já aprenderam a discernir entre o igual e o igualitário. Em benefício próprio, claro esteja.

quinta-feira, 8 de janeiro de 2015

Swiss Army Knife

Hoje, tendo ido à Universidade para tomar assento de duas reuniões, eis que me deparei com uma pilha de livros no setor de protocolo, uma bicicleta dobrável (com que pretendo voltar a percorrer o Elevado) e um pequenino envelope que continha a ferramenta multiuso que empresta o título a este relato. Troquei-a por pontos acumulados no cartão de crédito e, assim, pela primeira vez na vida passo a contar com aquilo que, em nossa terra, é mais conhecido como canivete suíço. Quando adolescente, meu pai havia me dado um de outra procedência, cuja cor e funcionalidades eram similares a este; mas, então, passei décadas transferindo para um futuro qualquer a possibilidade de extrair as máximas potencialidades do instrumento, nos moldes de um herói importado: sujeito certamente industrioso, bravio e inteligente, como aquele personagem de um seriado (Profissão: Perigo) exibido por aqui na década de 1980. O sabor de manipular o canivete, agora, não poderia ser o mesmo de antes - a despeito da cuidadosa embalagem e de algum fascínio ainda exercido pela marca do país fabricante. Mudamos nós, mudam nossas prioridades. Mas que este presente (relativamente gratuito) seja um modo de recordar o dia avec mon Papa em que vagamos muito atentos pelas ruas do bairro Liberdade: eu, com a sanha de ser heroi de momento, em razão de um ato qualquer (digamos, abrir uma garrafa sem precisar chamar o garçom); ele, como de costume, no encalço de minhas doses de alegria. É que demorei a perceber que havia outras formas de heroísmo, por exemplo, acolher a voz de um filho, persistir em fazê-lo enxergar a vida com mais leveza, dar margem a suas fantasias de menino e estimulá-lo a estudar o máximo de coisas que pudesse. Já não era sem tempo. É ótimo constatar que eu escreva isto em sua memória justamente no dia 7: o número de que ele mais gostava. Merci bien.

sábado, 3 de janeiro de 2015

Objeto de somenos, do cinzeiro que se lava muito se poderia elucubrar. As pessoas mais caras vão até a janela basculante pedindo licença, a meio sorriso, para ali baforar. Eis que, chegada a hora de lavar a louça do café, atiçam-se os sentidos e a memória da fala que houve e haverá. E o objeto circular pouco fundo de três ranhuras assume vida insuspeita; e, em seus novos modos, reconduz-nos ao lugar de lá, feito de lembrança, diálogo e expectativa.

Reunião das Adorinhas

3 de janeiro de 2015

Antes que o ano avance por demais, eis uns versos ensaiados em Tietê (SP) anteontem:

Reunião das Andorinhas

Da reunião de andorinhas
Ergue-se uma voz altissonante.
- Uma voz, perguntaríeis?
- Um pio, a bem dizer.

E em sendo este canto emitido sobre o cascalho,
Melhor supô-lo vozerio altaneiro
(ainda que ao rés do chão)?
 
Importa mais o que ressoa.
Deixemos a altura (ou a baixeza)
ao encargo de quem dela(s) melhor se ocupe, imite e pie.