sexta-feira, 30 de janeiro de 2015

Arte (espontânea) da conversação

Com os verdadeiros amigos a coisa funciona assim. Agendamos, no linguajar mais adulto possível, o reencontro em uma livraria. Suponhamos, a Martins Fontes da rua Dr. Vila Nova. Lá folheamos alguns livros - cuja leitura adivinhamos ou degustamos por antecipação. Em seguida, vamos a um café, para tratar com mais tempo e vagar dessas e de outras coisas (os filhos, os alunos, os projetos literários, as estratégias para persuadir o nosso auditório, as alegrias e percalços do mundo acadêmico, o maniqueísmo discursivo de nossas revistas e jornais, as relações poéticas e culturais entre obras e autores de tempos sobremodo distantes, as vicissitudes do mercado editorial, os novos hábitos de consumo e o papel da literatura na vida das pessoas, a figura do erudito generalista versus o mega-especialista sob as ordens e desígnios dos órgãos de fomento e assim por diante). De súbito, liga a esposa de Iuri, em tempo - mesmo porque, depois de duas horas e meia mais duas xícaras de café, estávamos havia pelo menos mais meia hora em pé, à beira da esquina com a Consolação, (con)versando ininterruptamente. Ah, o discurso fluido, ágil e pleno de conteúdos, ideias e sugestões de novos planos relacionados à literatura. No fim das contas, creio que gosto de ouvir e compartilhar projetos porque assim encontro uma desculpa pretensamente madura e pragmática para me manter mais tempo em diálogo com amigos que me são tão caros. Obrigado, Iuri. Leve meu abraço, as memórias e a expectativa de novas e saborosas conversas - que já duram mais de 17 anos. Eu não sou nem serei Rilke; mas permito-me dizer que este relato poderia ter recebido o título de "Carta a Iuri". Soaria kafkiano e igualmente elegante.

quinta-feira, 29 de janeiro de 2015

Sobre Mike Oldfield

Deve fazer uns vinte anos. A primeira coisa que ouvi do multi-instrumentista inglês Michael Gordon Oldfield foi a versão em vinil do álbum Crises - lançado em 1982 -, que me havia sido emprestado por uma ex-cunhada (que, por sua vez o havia encontrado na casa de um amigo). Encantei-me. De pronto, sentenciei: Mike nunca fará disco melhor que este. Passei a pesquisar os seus trabalhos, que devorava muitas vezes, no formato em CD. A exemplo de outras fases (Kiss, Led Zeppelin, The Doors, Rolling Stones, Depeche Mode, Kraftwerk, Yes, Rush, Pink Floyd, Jean-Michel Jarre, Devo, The Cure, Ladytron etc), vasculhava lojas e lojas; fazia encomendas; deixei de pagar contas para ter a chance de escutar mais músicas suas. Hoje, (re)ouvindo Hergest Ridge (1974), voltei a me encantar com o que Mike fez. A fase que vai de 1973 (Tubular Bells) a Crises (1982) talvez seja a mais interessante - para quem gosta de música instrumental de máxima qualidade. Sintetizadores recheados de solos harmoniosos de guitarra, linhas melódicas no contrabaixo, além de instrumentos de percussão, como o piano, as palmas, mais caixas de música e metais. Foi uma senhora descoberta. A essa altura, ele deve ter pouco mais de sessenta anos e provavelmente jamais saberá o que sinto, penso e imagino, inspirado pelas notas e arranjos que combinou. Eu diria a ele que, musicalmente, é e continuará sendo uma de minhas principais referências; que volta e meia vivo a semear trechos do que compôs na forma de assobios ou cantorias avulsas, mesmo. E concluiria: sua música sugere meu diálogo com os instrumentos e a desejar uma pretensa interlocução com todos os povos. Nesse sentido, Mike Oldfield é universal, para muito além dos rótulos criados pela indústria fonográfica. Um exemplo particular: graças aos seus discos, posso tocar baixo como se estivesse em  meio a uma conversa, nota a nota, com o compositor. Não deixa de ser uma honra que presto a mim mesmo: segui-lo.   

quarta-feira, 28 de janeiro de 2015

Pragma

Pragma (negócio) é termo antigo. Aos olhos de hoje, as palavras derivadas deste substantivo grego soam bonitas, sérias e elegantes. Diz o sujeito com gravata e empáfia: "ah, você sabe, é que eu sou pragmático"; diz a amiga em branco, preto e salto: "ah, o pragmatismo é necessário: não vivemos de vento". E assim, enfileiram-se truísmos a emoldurar frases feitas e lugares comuns, já que poesia é coisa de gente fraca, romântica, piegas, patética. Pois bem: há décadas contemplo, contrariado, jovens e adultos a tratar, discutir e remoer atitudes de cunho...pragmático. O contrato fechado; a postura do cliente; a estratégia utilizada para engambelá-lo; a forma como conquistar pessoas ou as despachar. Não se fantasiam a partir de livros: eles foram substituídos pelo tédio persistente, o falatório ruidoso, a gargalhada histérica, a seleção da próxima imagem ou música em formato de arquivo. Os verbos iguais invadem e consomem. Substantivos e adjetivos do universo negocial são evocados em diálogos feitos de injunções, instruções, implicações, somas, cálculos. Não se trata apenas de planejamento pelo bem de si mesmo ou alheio; mas de enaltecer, ininterruptamente, os planos mínimos pelo viés máximo. Na falta de outros assuntos e das competências exigidas para acercar-se deles, falemos de negócio. Não discutir o que se sente ao ganhar ou perder a transação; não perder tempo com atitudes, coisas e pessoas que não nos tragam contrapartida, benefício ou lucro. Não falar ou fazer nada, sem antes e durante, mensurar o escopo, o tempo investido, os custos operacionais, as energias despendidas. Uma suposta ética do estado mínimo preside o discurso do sucesso. As formas veladas do estado violência escancaram as irracionalidades do "espírito" (termo este que, apesar de ligado ao plano abstrato das ideias, desde Platão, agora serve a defender a competição mais crua, concretíssima e tacanha, em nome de fórmulas tais quais "o mundo é assim"; "fazer o quê? preciso pagar as contas"). É verdade, afinal. Todos precisariam pagar seus débitos - assumidos ou não -, mas nem todos podem, querem ou conseguem. Evidentemente, um sujeito desses, tornando-se coisa, que vá assumindo os contornos fixos de um ser pela metade, nulo, chato e oco, eleva-se ao estatuto de um todo-só-pragmático, em que mesmo o seu lazer, as parcas amizades e o ralo pensamento entram na contabilidade que considera a menos dispendiosa. Diante daqueles que devem, ele declara (cheio da sensação de uma vitória pequena, qualquer, mas possível) - "Eu venci". Ah, o mundo dos negócios, os manuais de comunicação organizacional, a palavra duplamente empenhada em vender e servir a propósitos únicos e tão específicos, os da rentabilidade. Aprimorar a imagem; melhorar a postura (de fachada, é claro); incrementar os conhecimentos em línguas para "fazer bonito": "vender o peixe", "fechar negócio", "pagar as contas". Tudo isso, é claro, sem esquecer de temer ao patrão, de maneira análoga ao modo como teme a um deus, guardião do nosso padrão de consumo; cumprir os ritos corporativos, reproduzindo o discurso nada original e inautêntico de que se está em meio a "uma grande família" e que "é preciso vestir a camisa". Poderiam me perguntar: "mas, espere, do que você quer que falemos?". Leiam mais: bons livros trazem mais lógica e coerência que a maior parte das pessoas. Tratem de comentar a rara flor que viram na cidade furta-cor e cinza; mudem o trajeto a até o restaurante; experimentem fazer caretas para a criança que vai no carro, no vagão ou que esteja sentada na mesa à sua frente - aquela mesma, que anda lá curiosa por compreender o porquê de sua gravata, a armação dos óculos coloridos, as voltas do seu colar. E, na falta de oportunidades tais como essas, silencie, dê tempo para si mesmo e para o outro. Imagine coisas, ainda que não realizáveis. O óbvio torna-se ainda mais insuportável quando repetido sem cessar. Não precisamos agir feito histéricos, disparando tantas falas por minuto; não é necessário apontar culpados; não é compulsório discutir negócios à hora do almoço, do café-de-intervalo e, pior ainda, nos raros momentos de intimidade. A lógica negocial luta para negar o ócio, equilibrar a balança, zerar o "T" entre débitos e créditos - sugeria um poeta concretista. E isso, por mais absolutamente óbvio, constitui algo árduo a cumprir, especialmente em dias de inflação (olha outro termo aí!) do narcisismo e da crença cega num progresso. No fundo, o ato de progredir é uma mesmice; embora muitos o considerem como algo consistente, obrigatório e particular. Possivelmente porque já aprenderam a discernir entre o igual e o igualitário. Em benefício próprio, claro esteja.

quinta-feira, 8 de janeiro de 2015

Swiss Army Knife

Hoje, tendo ido à Universidade para tomar assento de duas reuniões, eis que me deparei com uma pilha de livros no setor de protocolo, uma bicicleta dobrável (com que pretendo voltar a percorrer o Elevado) e um pequenino envelope que continha a ferramenta multiuso que empresta o título a este relato. Troquei-a por pontos acumulados no cartão de crédito e, assim, pela primeira vez na vida passo a contar com aquilo que, em nossa terra, é mais conhecido como canivete suíço. Quando adolescente, meu pai havia me dado um de outra procedência, cuja cor e funcionalidades eram similares a este; mas, então, passei décadas transferindo para um futuro qualquer a possibilidade de extrair as máximas potencialidades do instrumento, nos moldes de um herói importado: sujeito certamente industrioso, bravio e inteligente, como aquele personagem de um seriado (Profissão: Perigo) exibido por aqui na década de 1980. O sabor de manipular o canivete, agora, não poderia ser o mesmo de antes - a despeito da cuidadosa embalagem e de algum fascínio ainda exercido pela marca do país fabricante. Mudamos nós, mudam nossas prioridades. Mas que este presente (relativamente gratuito) seja um modo de recordar o dia avec mon Papa em que vagamos muito atentos pelas ruas do bairro Liberdade: eu, com a sanha de ser heroi de momento, em razão de um ato qualquer (digamos, abrir uma garrafa sem precisar chamar o garçom); ele, como de costume, no encalço de minhas doses de alegria. É que demorei a perceber que havia outras formas de heroísmo, por exemplo, acolher a voz de um filho, persistir em fazê-lo enxergar a vida com mais leveza, dar margem a suas fantasias de menino e estimulá-lo a estudar o máximo de coisas que pudesse. Já não era sem tempo. É ótimo constatar que eu escreva isto em sua memória justamente no dia 7: o número de que ele mais gostava. Merci bien.

sábado, 3 de janeiro de 2015

Objeto de somenos, do cinzeiro que se lava muito se poderia elucubrar. As pessoas mais caras vão até a janela basculante pedindo licença, a meio sorriso, para ali baforar. Eis que, chegada a hora de lavar a louça do café, atiçam-se os sentidos e a memória da fala que houve e haverá. E o objeto circular pouco fundo de três ranhuras assume vida insuspeita; e, em seus novos modos, reconduz-nos ao lugar de lá, feito de lembrança, diálogo e expectativa.

Reunião das Adorinhas

3 de janeiro de 2015

Antes que o ano avance por demais, eis uns versos ensaiados em Tietê (SP) anteontem:

Reunião das Andorinhas

Da reunião de andorinhas
Ergue-se uma voz altissonante.
- Uma voz, perguntaríeis?
- Um pio, a bem dizer.

E em sendo este canto emitido sobre o cascalho,
Melhor supô-lo vozerio altaneiro
(ainda que ao rés do chão)?
 
Importa mais o que ressoa.
Deixemos a altura (ou a baixeza)
ao encargo de quem dela(s) melhor se ocupe, imite e pie.