sexta-feira, 29 de maio de 2015

(Con)gestão

Mais uma vez, os professores deste Estado indigesto precisam sair às ruas para desdizer o silêncio da imprensa e desmentir os índices falaciosos do pseudo gestor. A julgar pelo que ele faz com a água, o transporte e o cacetete, quando a educação será prioritária?

domingo, 24 de maio de 2015

Manifesto Docente

Ora, pois, de Moisés ao século XXI, determinados líderes (também chamados de messias, papas ou gênios de diversas áreas) criaram regras com que pretenderam instaurar um universo de riqueza material e plenitude espiritual, supostamente atribuído a todo ser humano com boa-fé, virtudes mais e vontade. 

Erasmo de Roterdã disse, há cinco séculos, que a vaidade é uma das sequazes da loucura. Pois bem, afora o fato de esse livro poder ser considerado como uma demonstração de cabotinismo de mim mesmo, pensei em bolar dez máximas como forma muy particular de registrar as convicções de um professor. Este que voz dirige a presente missiva. 

Sem mais delongas, lá vão elas:

I - Tecnologia não salva aula ruim.
II - O bom professor equilibra éthos (caráter), páthos (paixão) e logos (saber) em seu discurso. Lição de Aristóteles (384-322 a.C.).
III - Antes ministrar uma aula trabalhosa, mas decente, que uma gincana para ocupar o tempo com alegria fácil e superficialidade enganosa.
IV - De modo geral, os alunos preferem o professor rigoroso ao desregrado.
V - Desprezar livros "antigos" equivale a censurá-los (como na Inquisição) ou queimá-los (como o fizeram os soldados de Hitler, em 1933).
VI - Repetir as mesmas palavras sem cessar pode até marcar a personalidade do professor; mas, de maneira geral, irrita os alunos, que desconfiam do repertório e da velocidade mental de seu mestre.
VII - Não existe discurso neutro. Julgar, condenar e punir o professor que diz o que pensa é atitude tacanha e hipócrita daquele que esquece o fato de que doutrina e docência são palavras de mesma raiz latina.
VIII - As aulas não precisam, necessariamente, "servir" para algo particular; de modo geral, a cultura caminha na contra mão do pragmatismo.
IX - Antes de criticar a aula de seu professor, pondere se você tem o mesmo repertório e empenho em estudar; a mesma habilidade e interesse em (se) formar que ele. Considerar a bagagem e a linguagem dos alunos não implica em anular a autoridade e o repertório de quem está lá para "pesquisar e falar", como bem disse Roland Barthes, em sua "Aula" de 1977.
X - Via de regra, o aluno mais esforçado reconhece o bom professor, mesmo porque ambos trabalham com disciplina (o que não impede o eventual tom jocoso), seriedade (o que não impede a desejável alegria) e modéstia (o que não impede chegar ao sublime).

Planeta Terra, 24 de maio de 2015 
(dois anos após a morte de Pierre Daniel Chauvin: o melhor professor que terei).

sexta-feira, 22 de maio de 2015

Manifesto da carteira (aquela outra)

Leciono, formalmente falando - registro em carteira ou certificado - desde 2002. Mas, antes disso, tinha dado aulas particulares isoladas e me somado a um grupo de colegas do Instituto de Biociências, na Universidade. Essa experiência no IB aconteceu em 1999: nós, funcionários, organizamo-nos com o objetivo de auxiliar aqueles que tinham maior dificuldade na leitura, escrita e aritmética. Embora não tivesse lido direito os ensinamentos de Paulo Freire ou da Madre Montessori, as aulas consistiam de encontros entre colegas unidos pelos mesmos fins e a crença no aspecto emancipatório e libertador do ensino - fosse ele mais, fosse menos formal. Se eu fixar aquele ano de 1999 como o primeiro de minha trajetória como educador, facilitador, mediador, professor (para mim, esses termos sempre foram equivalentes), há algumas questões e atitudes que cá permanecem: a) certa dificuldade para me manter distante ou ser frio em relação aos alunos; b) o desejo de assistir o progresso horizontal dos estudantes, tanto cultural, quanto espiritual e materialmente; c) a crença no conhecimento, em suas múltiplas formas, como forma de ampliar o espaço de si e dos outros; d) a importância ao discurso, à fala compartilhada; e) o reconhecimento de que a leitura é fundamental para aprimorar a nossa expressão linguística, o pensamento e estimular o diálogo. Quanto ao meu defeito (vide item "a"), afianço que ele trouxe muito mais alegrias que tristezas. O fato de ter vivido mais próximo dos alunos nunca impediu que houvesse respeito mútuo e reconhecimento das partes, em seus papéis (pesquisar para ensinar; pesquisar para aprender). Justamente por me colocar mais perto dos estudantes, educandos, formandos, orientandos, monitores, é que me sinto na mesma direção que eles. Que a (i)lógica do mercado não tome o lugar da curiosidade, do conhecimento e da solidariedade. Não há desculpa para depreciar o acesso à memória, à cultura e ao aprimoramento particular e coletivo. Continuarei na teima em me aproximar daqueles que dividem (ou não) a sala de aula comigo. O benefício pode ser mútuo, claro esteja.

terça-feira, 19 de maio de 2015

Ler

Para mim, ler nunca foi apenas entretenimento, mas necessidade (de manusear folhear), curiosidade (por acessar os mistérios que o escritor esconde ou revela) e vontade de aprender. Portanto, felizmente não me enquadro naquela categoria de sujeitos para quem a leitura é uma opção, quando "não se está fazendo nada", como lavar a louça, estender a roupa ou pagar uma conta. A sanha pragmática é inimiga da leitura por prazer, que envolve tempo, disciplina e vontade, é claro.

terça-feira, 12 de maio de 2015

Indizíveis

Pelo menos há dois anos frequento um bar na Maria Antônia, onde almoço ou tomo o aligeirado café da manhã. Fiz o mesmo hoje e pude confirmar o fato de que o sujeito que responde pela caixa do estabelecimento tem dificuldade (ou não está a fim, oras!) em exprimir votos positivos para seus clientes regulares. Isso não se restringe, esteja claro, a uma questão de extração social ou de status perante os outros homens: o mutismo, a fala entrecortada por marcadores conversacionais e gírias idênticas, o ato de esbarrar com os outros nas ruas parecem ser sintomas de um tempo de inflação do ego. Se Sigmund Freud me autorizasse, poderia sugerir que vivemos na Era do Egão, definido assim no aumentativo, termo extravagante, já que também tenho cá o direito de chamar a atenção sobre mim mesmo. Foi com meu pai que aprendi que todos gostam de ser reconhecidos. Quem faz um bolo, quem dá uma aula, quem consegue fechar um negócio, quem cuidou de uma flor... Anos depois é que vim a ler Erasmo de Roterdã (Elogio da loucura) e com ele me dei conta de que a vaidade funciona como grande impulsionadora de nossas pretensas virtudes, muitas vezes com o fim de receber elogios e/ou cobrar o mesmo da outra parte. No início dos anos 2000, voltei à leitura da Bíblia, em função dos estudos sobre Machado de Assis. No Eclesiastes, livro muitas vezes citados pelo autor fluminense, há a conhecida cláusula: "Vaidade, vaidade. Tudo é vaidade". A cada vez que alguém deixa de responder ao sorriso, à piada e aos sinceros votos para o melhor dia possível, tendo a procurar pistas que expliquem essa falta de cumplicidade. Frequentemente atribuo o mutismo do caixa ao hábito cultivado pela maior parte de seus clientes de pedir, consumir e pagar sem qualquer palavra gentil de permeio. Nesse caso, talvez ele tenha desistido de ser amável e simpático, como reza a cartilha das transações pecuniárias.      

terça-feira, 5 de maio de 2015

Coro de hipócritas

Tudo, inclusive a recusa em admitir o que melhorou no país. Tudo, inclusive a ignorância. Tudo, inclusive o discurso de ódio e os gestos menores e maiores de violência. Tudo, absolutamente tudo foi, é e será atribuído a uma única legenda, de modo a que os erros e a hipocrisia de quem votou no outro partido (tão falível, corrupto e sobremodo cínico) sejam depositados e concentrados como em um dínamo feito de incerteza pessoal e histeria coletiva. Imediatamente, transferirão isso para uma única mulher, porque, afinal, somos progressistas, sociais e democráticos, oras.

sexta-feira, 1 de maio de 2015

45 minutos

Acabo de retornar de uma jornada sobre duas rodas, quadro e marchas no Elevado. Foi a segunda ocasião em que retirei a mim mesmo, e à nova bicicleta, desta sala em que ela está conjugada aos livros, discos, filmes e instrumentos. Durante primeira parte do trajeto, da Consolação em direção à Praça Marechal Deodoro da Fonseca (Viva!, estamos cercados toponimicamente por senhoras autoridades celebrizadas por nossos livros de história), experiencio a costumeira sensção de altivez, de algum poder maior que aquele de pagar as contas, e uma réstia (posto que seja algo extraordinário) de liberdade. Recordo-me de algumas andanças pelo “minhocão” (Salve, Lu! Sim, vamos almoçar e prosear horas a fio, dia desses, diga-me quando e já). Desvio-me para a banda de cá, para a banda de lá, para evitar atrito com os cães e seus proprietários bípedes; a fim de não me tornar obstáculo móvel, trambolho para os pedestres, que marcham ou correm. Logo à frente há um conluio canino e, por medida de segurança ou fobia, retorno ao início, cá do lado em que habito desde o final de abril de 2013. Retomo o trajeto, no sentido à Barra Funda, decidido a ganhar coragem de driblar os donos e seus cães (pequeninos ou pitbulls) com que venha a me deparar no caminho. Enfim, ultrapassei o marco imaginário da vez primeira! Sigo, combinando marchas e velocidades para me habituar ao câmbio que tão bem responde ao desenho da mão (indicador direito: mais força; polegar esquerdo: mais velocidade; indicador da mão esquerda, marcha pra baixo; polegar da mão esquerda, marcha arriba. Mal lembrava de que a bicicleta também afoga, quando cruzamos as polias...). Da segunda vez em que volto em direção à Praça Roosevelt, avisto desde a Marechal a Torre do antigo Edifício do Banespa. Então, a altivez, a liberdade e o desejo de amplitude cedem o turno à nostalgia, marcada por aquele espaço, mas recuado a outros tempos (2008): tempos felizes, apesar de amargos, em que reconheci quão grandiloquente e arrasador pode ser o afeto maior, aquele: sublime, desesperado, apressado, ansioso, outramente, maiormente. A nostalgia, ainda que fugidia, acompanha-me durante parte do percurso, mas aos poucos se dissipa, porque volto a pensar nas coisas a fazer (louça a lavar, livros a ler, textos a produzir, filmes a assistir, pessoas a visitar, filha a reencontrar, mãe a telefonar). À medida que me aproximo da última curva, antes de virar à direita, mirando este pequeno prédio verde limão-desagrado, recordo-me de meu pai e de seu hábito – disciplinado – de “faire du velo” aos domingos de manhã, antes de almoçar comigo e sua neta em restaurantes bons e amistosos aqui: “au centre”. O saldo é multiplamente positivo, a começar pelo fato de poder dizer que em lugar de marchar ou bater continência, caminhei tranquilo e docemente por sobre o General Costa e Silva (que o Elevado se torne parque: o nome seja outro) e lá fui esnobar o Marechal Deodoro da Fonseca, dando-lhe as costas. Da próxima vez, aumentarei o tempo, o ritmo e a força emancipatória das pedaladas.