terça-feira, 23 de junho de 2015

Hipocrisia em azul e amarelo

Desde os chamados anos de chumbo, ser "nacionalista" neste país-nas-mãos-de-deus é defender a privatização generalizada, priorizar as manifestações culturais dos Estados Unidos; ler mal a Veja, a Folha e companhia; assistir acriticamente às emissoras de rádio e televisão. Mas, é claro, essa parcela de pseudo nacionalistas constitui-se dos mesmos hipócritas que vivem a relativizar as suas contradições, em nome das cores da bandeira (cujo significado tosco em geral ignoram). Tsc, tsc.

segunda-feira, 22 de junho de 2015

Alunos: espaço ocupado

A exemplo do que dizem os versos de Drummond, em Poema de sete faces, "tenho poucos e raros amigos; quase não converso". Hoje, enquanto acompanhava os alunos durante a realização das questões que formulei para a prova, ocorreu-me uma nova síntese. Creio que finalmente entendi porque tenho um número menor de amigos; e porque, em mim, a vontade de conversar sobre amenidades e ideias-prontas é quase nula. É que, desde que passei a lecionar, reservo o inconformismo, a dedicação e a tentativa de ser uma pessoa coerente a essas criaturas - de quem, a cada final de semestre, sinto saudade e para quem desejo sempre que sua trajetória traga felicidade para si e todos os outros. "Estudo" e "estudante" talvez sejam as entidades de que mais me ocupo. E repare(m) que nem tomei conhaque, nem o sol impediu a lógica porventura embutida nessas palavras: talvez piegas, mas honestas. 

quinta-feira, 18 de junho de 2015

Um pedaço de Saramago no Campus

José Saramago deixou-nos há exatos cinco anos, segundo as contas permitidas pelo Calendário Gregoriano. Hoje também foi o dia em que voltei a participar de uma reunião na Associação dos Docentes da Universidade de São Paulo, quinze (anos) após a greve realizada em 2000, que durou cinquenta e quatro dias e consolidou em mim a convicção de um ser decisivamente à esquerda. Evidentemente, não se dizem certas coisas no mundo adulto: suspeito que não seria de bom tom fazer reverências a determinadas pessoas que me eram caras desde os tempos de graduação, a exemplo de Francisco Miraglia. Por isso, deixei de externar aos novos colegas do Conselho e aos Professores mais experientes que, para mim, era motivo de honra compartilhar de suas ideias, num mesmo espaço, em volta da mesa de reuniões, munido de documentos que embasam a postura de quem se dispõe a conhecer melhor aquilo de que trata. Provavelmente é o mundo adulto, com suas convenções e contenções, que me impede de enfatizar a falta que sentia de restabelecer novo vínculo acadêmico com a Universidade. Uma ausência sentida, com intensidade análoga àquela de alguém que lamenta a partida de um de seus guias culturais: Saramago, mas é claro. Quanto mais vivencio os sintomas obscurantistas e o discurso tacanho de determinados setores de nossa sociedade civil, política, militar e religiosa, mais me inclino à apologia da solidariedade. Modo talvez piegas, mas honesto, de propalar a necessidade de que pratiquemos maior humanismo em todas as oportunidades que criemos ou com que venhamos a nos deparar, desbancando a resignação obediente e extrapolando a esperança, ora imediatista, ora atemporal, que costuma vir a reboque daquilo que se considera o máximo possível. 

quarta-feira, 10 de junho de 2015

Aluno credor

Aluno credor - sub. m/f.

Definição: indivíduo com faculdades mentais e corporais, ambas em pleno funcionamento, que atribui ao professor a eterna dívida de tudo aquilo que o próprio estudante não faz. 

Sintomas: em tese, dispõe do direito inalienável de se ausentar, de se atrasar, de não estudar e de se entendiar durante as aulas. Sente-se prévia e maximamente qualificado a ponto de comparar de modo pejorativo os seus professores, supondo ser ele mesmo uma peça rara, estudioso em potencial (sem estudar o mínimo); cidadão genial (sem se esforçar o suficiente, sequer em seu papel em sala de aula). Acredita ser uma entidade de nível evidentemente superior, que costuma irradiar suas incongruências e a confundir a paixão, o esforço e o saber do professor com itens obrigatórios na relação submissa que o educador deve prestar ao Reino do Cliente-Aluno. Sob sua ótica altiva, mas estreita, crê que o educador seja um vassalo devotado a Sua Magnificência. Aluno-entidade, porta o um crédito infinito, na relação com o mestre, em proporção direta de sua arrogância. Esta se revela em seu discurso, nos gestos e em demais expedientes de que o estudante dessa estirpe lança mão para "obter" boas notas (ai, se ele for rigorosamente avaliado!) e assegurar o índice de frequência suficiente (ai, se as faltas forem computadas de fato!) para ludibriar outros professores em etapa seguinte.

quinta-feira, 4 de junho de 2015

Aforismos

"Onde o Estado é mínimo, a violência é máxima".

"Forme-se como gente, antes de deformar seu professor".

"O pressuposto de defender o cacetete em lugar do giz, está em enxergar o professor como lacaio coletivo".

"Sala de aula envolve disciplina, mas não implica reprodução de toda forma de ordem".

"Mais importante que o famigerado sucesso acadêmico, profissional ou pessoal é a reavaliação constante dos princípios que supomos nossos, munidos de pseudo valores e convicções".


quarta-feira, 3 de junho de 2015

"Professor, pra que esta aula serve?"

Professores, da próxima vez que um(a) aluno(a) seu perguntar pela "utilidade" do que você ensina, responda-lhe que ela corresponde, mais ou menos, à mesma "utilidade" de assistir a um seriado ou fazer uma viagem. Com a diferença (em nosso favor) de que a aula decente edifica seus participantes.

Do título

Antes que este livro avance, uma explicação a respeito do nome que lhe pus: Croniquetas. Sim, assim, mesmo, a sugerir que se trata de nova aventura com emprego do gênero flexível e historicamente instável, que é a crônica, acrescida do sufixo que diminui. "Eis uma boa estratégia", poderíeis apontar. Sim, sim. Teríeis razão. Croniquetas soa pequeno, rasteiro, chão. Em suma, humilde, como se título emprestasse aos textos que o preenchem a incapacidade do pretenso autor de tecer conceitos melhores, elaborar narrativas mais longas, dissertar com argumentos menos inconsistentes. Vá lá. Fiquemos com esta palavra só. Cro-ni-que-ta. Ora, pois, assentou bem, assim me parece. Se, incerto dia, virar livro, tornar-se coletânea, conjunto, antologia, compilação, reunião ou coisa que se assemelhe, teremos editor, revisor e eu a oportunidade de fazer balouçar as palavras sobre a capa, a lombada e o colofón. Afora o todo, o resto será história nula, historieta.

Ler é resistir

Infeliz do professor que trata a sério de autores, temas e obras que demandem a leitura prévia (ou atenta) por parte de seu auditório, por mais homogêno que o público seja. O problema reside não no repertório do aluno, porventura existente, ou em seu mero (des)interesse, mas na formação do gosto. O educador se vê na tarefa inglória, e muitas vezes incompreendida, de inocular o positivo hábito de ler. Ou seja, ele se vê como um médico ou xamã, diante de uma parcela refratária, a ministrar um dos remédios de que os próprios estudantes precisam, embora desconfiem da aula e acreditem que são autossuficientes. Num país de raros leitores e parcas bibliotecas, o livro caro vende mais, muito mais, do que aquele que facilita o acesso a conteúdos relevantes, com interesse histórico e cultural. Ou seja, diante de um público que lê mal ou diagonalmente, além de fazer o seu trabalho (pesquisar, preparar aula, ministrar aula, orientar, tirar dúvidas, corrigir atividades), o professor precisa desenvolver técnicas diárias de resiliência, pois lidar com a apatia e a indiferença trazem cansaço. O aluno pode desanimar, ausentar-se, considerar-se cliente;  o professor, não. Ele tem que justificar, o tempo inteiro, o papel da bibliografia mais básica justamente para quem deveria ter avidez - ou curiosidade, ao menos - pelos assuntos, autores e obras sugeridos - por sinal, elencados no programa. O resultado é que os sinais estão invertidos: justamente o aluno que não faz sua parte é quem mais demanda atenção e se coloca numa posição clientelista, na expectativa de textos mais fáceis e dirigindo-se ao professor somente para tratar de questões supostamente úteis ou mais relevantes ("o que cairá na prova? do que se falou na aula passada? haverá algo importante ou valendo nota na aula de amanhã?"). Como lidar com estudantes que aprenderam a ser servidos desde o berço e cultivam uma visão absolutamente egocêntrica do mundo (em que pensam viver da melhor forma)? Que não reconhecem o trabalho de seu professor? Que tiram sarro da aula, questionando seu valor e utilidade? Creio que o educador não possa se demover de seu posto. Mas, acima de tudo, o seu papel deve estar claro para si. A sua fala deve revelar que ele é autorizado a fazê-lo. Quanto ao que pensam e demandam os alunos, é preciso que o educador crie reservas de energia para não se sentir como um bobo da corte, a cada vez que o coro de vozes não soar em uníssono. Ora, a mediação de conhecimento sugere bilateralidade, e não o embate por motivos vagos, a desarmonia. É preciso que professores e alunos deixem de ocupar postos fixos e distantes. Sob essa ótica, a leitura pode constituir uma síntese essencial (supondo-se que alunos e professores ocupem posições assimétricas) para a qualidade do encontro. Também chamado "aula".