quarta-feira, 29 de julho de 2015

Das formas

Pensava cá que eu deveria imitar os melhores modelos textuais dos cronistas que li para fazer deste novo volume de pseudo crônicas algo com formato mais regular, a simular o preenchimento de uma lauda de jornal, com seus cinco ou seis blocos, distribuídos entre parágrafos introdutórios, desenvolvimento e conclusão. Mas talvez por preguiça (e medo de perder o que há de espontâneo), torno a considerar que talvez seja melhor manter a extensão dos textos do jeito que eles vão saindo, mais ou menos situados entre a apatia generalizada e a padronização de modos, sentires e pensares dos seres a nossa volta. Fiquemos com a irregularidade, oras. Há muita gente metida a certinha e convencional na terra das palmeiras e de raros palmares.

quinta-feira, 16 de julho de 2015

Das coisas maiores

[Relato de 13.VII.2015 d.C.]

Cá estamos. Venho de um sebo da Rua Sete de Abril, onde fui buscar Lógica formal/Lógica dialética, de Henri Lefebvre – expoente do pensamento materialista francês do final da década de 1960, cujo contato e conhecimento devo ao colega e amigo Ricardo Baitz, com que tive a alegria de dialogar enquanto dividimos aulas, bancas e filosofias de boteco na Fatec São Caetano do Sul. Voltando para este castelo de 40 metros quadrados, sinto que alguém tenta-me arrancar o exemplar que acabara de retirar. Irritado, deparo com uma fila de crianças, com seus sete, oito anos. Faço uma careta, em tom de honesta e severa reprimenda ao que, instantaneamente recordo-me de meu pai. Penso, ralentando o passo: “certamente ele teria agido de outro modo”. Talvez até sorrisse, largo e contagiante, que era de seu feitio, para o menino que puxava o pelotãozinho de guris; arquearia as sobrancelhas e desenharia uma careta divertida, para que nem ele se sentisse incomodado com o gesto infantil, nem o menino lembrasse de tanta distância que há entre crianças e adultos, nem da tremenda distância sócio-econômica entre uns e outros, a trilhar pelas ruas tortas e calçadas estreitas da maior cidade do hemisfério sul. Decido celebrar o reencontro concreto, posto que imaginário, com Henri Lefebvre numa tradicional cafeteria do Copan. Tiro uma foto do livro, pires e balcão; saboreio o café; dirijo-me ao caixa, onde um senhor atende há anos. “Quanto é o café”? “Quatro reais”. Tiro duas cédulas, tendo em vista facilitar o troco e conceder-lhe uma pequenina alegria. (A vida de caixa não deve ser fácil, com tanta gente arrogante a vociferar comandos e exigir, impacientes, cédulas miúdas de volta). Estendo, alegre, a mão: esta parte do corpo que o senhor ignora (pois decidira fazer algo, olhando para o aquém enquanto eu lá esperava), embora não recuse o dinheiro como pagamento. Sinto-me frustrado: muitos homens na posição de caixa agem desta forma, pouco importando o lugar e o público que o frequente. Talvez eu pudesse objetar-lhe que é falta de respeito deixar de olhar para quem nos paga. Mas, tsc, tsc. Que(m) sou eu para ensinar algo a uma pessoa que poderia ser meu pai? Um sujeito que talvez esteja cansado de trafegar entre o balcão, as máquinas e a caixa registradora, ora? Questão de somenos a qual porventura eu esteja atribuindo muita importância. Ou estaremos a tolerar, em demasia, a fala monossilábica, os gestos, em contraparte, que não vêm? Como sempre digo, os livros têm-me sido melhor companhia que muita gente fincada às sombras, ou à luz do sol, mesmo.

terça-feira, 7 de julho de 2015

Definição


Este país é um absurdo de quinhentos e quinze anos à beira de mim e do Atlântico.