terça-feira, 6 de outubro de 2015

Diálogo com Eduardo

Eduardo, meu caro, já lhe agradeci mais de uma vez pelo cuidadoso prefácio que fez para as "Crônicas Vorazes". Refaço-o agora, novamente, assim nos moldes de uma "carta aberta", como pretexto para tratar de outra questão. Desde que me enviou suas impressões a respeito da persona que escreveu as tais pseudocrônicas, estou a cogitar a esse respeito. Era um impasse e dos bons: como apontar as coisas estúrdias do mundo que vemos sem cair no tom cinza e ranzinza que detectou naqueles microtextos? Sabe onde encontrei parte da resposta? Em José Saramago, aquele, você bem sabe. Veja lá o que ele afirmava em suas Folhas Políticas, páginas 53 e 54: "Dizem-me amigos de perto e conhecidos de longe: homem, que agressividade, que brusquidão,que pouco jeito para a vida mundana. Eu ouço-os maravilhado de que em mim se reúnam tantas mostras de mau feitio, deito contas, somo e subtraio, e, porque a paisagem não se modifica com esta aritmética, reincido (...) Ora, alguém tinha que tomar a vez, assumir a indignação, usá-la como revulsivo contra as emoliências. Na falta de outro melhor, tentei-o eu, e saíram estas prosas". Você me desculpe, por obséquio, minha falta de competência e originalidade para responder à proposta que me fez de levar a vida criticamente, mas de humor mais brando, digamos à la Oswald de Andrade, como você mesmo o faz. É que as limitações de cá me impediram de responder decentemente ao seu aviso honesto (coisa que somente os amigos têm coragem e capacidade de fazer). Também não seria justo fazer uma paráfrase do que o escritor dizia para obter maior aval. O saldo é positivo. Desde que prestamos aquele famigerado concurso, passamos a ler um as coisas do outro. E assim aprendi a admirá-lo, também como alguém que não se satisfaz com as explicações mais banais de que nossos conterrâneos se servem para justificar o "desconcerto do mundo" - só para relembrar uma das tópicas empregadas por Luís Vaz de Camões e Fernando Pessoa. Digo-lhe que continuo em busca de respostas. Aquele narrador do Grande Sertão: Veredas sugere que a beleza de viver reside nisso mesmo: afinal ninguém está pronto ou todo. Continuo cá, ouvidos atentos. Aquele abraço.