segunda-feira, 23 de novembro de 2015

Carta para Maria Viana

Querida amiga (deste ano que já orça pelo fim), 

Queria lhe contar que hoje me peguei lembrando de uma de suas frases que mais gosto de ouvir: "estudar história, escrever livros didáticos é minha maneira de fazer militância". Você repara, não é?, no nacionalismo de ocasião, no discurso segregador, na arrogância de quem nunca leu o que mais precisava... É nosso dever militar pela causa alheia. Acho que, em parte, a gente se sente como aquele que restou. O aspecto positivo é que sobrando aprendemos a fazer mais daquilo que está aí, ao alcance de tanta gente uniformizada, apassivada, contando com a mesada eterna dos pais, aqueles cujo sentido máximo na vida é ter um enfeite com pouca fala e muita perna, uma SUV blindada, modelo tanque; uma microempresa de nome e fachada imponente para exercitar o gosto de mandar em "seus" capatazes; e, em casa, tiranizar "sua" secretária; no restaurante, ostentar má-educação perante quem estaciona o "seu" carro, quem carrega bandejas, quem traz a conta, quem responde pela casa. Tudo isso para suprir a necessidade de soar imponente, segundo a lógica que a todos "invisibiliza". Você bem nota que este bilhete não passa de arremedo de missiva. Mas, saiba lá que é enriquecedor estar em sua companhia, a falar de música, literatura e jornadas a pé pelo piche. Quem disse que não podemos fazer bons amigos quando (supostamente) adultos? Esteja sempre bem. Dia desses, vou avisando, combinaremos nova rodada filosófica sem lugar para a resignação paulistana: essa gente habituada às "verdades" de alguns telejornais e revistas. 

sábado, 21 de novembro de 2015

"Eu era um lobisomem...

...juvenil", proclamava Renato Russo nas Quatro Estações, -- álbum cujas letras memorizei logo que saiu o disco. Voltei da casa de minha filha há instantes. Seguindo nosso mais novo plano mirabolante de sábado, almoçamos, encontramos alguns bons jogos de tabuleiro e passamos a tarde toda e o início da noite às voltas com estratégias para conquistar ou reaver territórios, movendo peças e rolando dados sob os olhos atentos do felino Ozzy. Na caminhada para cá, cantarolei a  música da Legião Urbana com vontade, o que me fez evocar as melhores lembranças da viagem mais feliz que fizera até então (era 1990: 17 anos). Relembrar determinados acontecimentos daquela jornada (especialmente as nova amizades e cantorias no ônibus, indo e voltando de Minas Gerais) levaram-me a pensar em outros percursos: a primeira vez que fui a Vitória, em julho 2004, para ver Maria; a viagem para Portugal, para ouvir o sotaque lusitano in loco e... por que não?, a mudança para este endereço, entre a Consolação e a Amaral Gurgel, de onde avisto a praça, a igreja e o elevado. Em abril de 2016 completam-se três anos desta nova morada e certamente continuarei a mirar as pessoas e coisas, da Sé à Marechal Deodoro, como se fossem novidades. Talvez eu persista em ver tudo como novo, feito bicho do mato, como forma de empregar os recursos secretos da infância.  

terça-feira, 10 de novembro de 2015

Lusitânia

Da próxima vez que for a Portugal, percorrerei distâncias ainda maiores a pé. Tomarei bonde e conhecerei melhor as linhas do metro e dos comboios. Subirei outras escadarias e puxarei conversa com mais gente. Estenderei a mão à estátua de Camões, conhecerei a casa de Fernando Pessoa, voltarei a visitar a casa de Saramago, devorarei mais pastéis de nata acompanhados de um bom café. Olharei para o céu, fazendo de conta que ele muda de acordo com o país. Chegarei mais perto dos rios e aos topos das montanhas. Repetirei para mim mesmo alguma prosa de Eça e versajarei algo dos poetas lusitanos sem fazer alarde. Pousarei as mãos nos muros das igrejas, universidades e castelos. Depois dos passeios, pedirei água Luso (aquela da garrafa de vidro), almoçarei panada e observarei com atenção o mobiliário e os acessórios do restaurante. A televisão servirá para descansar à noite, enquanto saborear a fala dos jornalistas e locutores da terra de lá.  

quinta-feira, 5 de novembro de 2015

Tecnocracia

Tenho esperança de que, dentre em breve, os terráqueos todos contaremos com uma engenhoca nova, na forma de aplicativo "baixável" via celular, que revelará, com alarde sonoro e visual, para onde vão todos os depoimentos que prestamos, quando atendidos por funcionários (primários ou terceirizados), em padarias, farmácias, órgãos do governo e concessionárias. Enquanto isso não acontece, alguém repare, por gentileza, no crescente acúmulo de critérios de avaliação - imiscuídos a novas tarefas a que os sujeitos são submetidos - em nome da qualidade no atendimento (versão contada para o cliente) ou da manutenção do emprego a todo custo (motivação do empregado). Estou certo de que as empresas, instituições e firmas contam com um "criativo" e gigantesco banco de dados que vai atualizando a classificação de seus funcionários a cada rodada de avaliações feitas (talvez com a melhor das intenções, pelos consumidores). De minha parte, desconfortável que me sinto ao notar o fascínio tecnológico de meus parceiros cá da Terra e, tendo em vista, o que podemos fazer em prol da qualidade de quem trabalha, decidi não mais responder a questionários que chegam via e-mail, nem avaliar atendimentos prestados, sejam eles realizados pessolmente, sejam averiguados por intermédio do telefone. Será essa minha minúscula forma de evitar eventual cumplicidade na maquinaria que converte a patrões e clientes em compulsivos defensores (ou detratores) de pessoas, cargos e salários.

quarta-feira, 4 de novembro de 2015

Aquele abraço

Acabo de deixar Henri e Gabriel no posto do ônibus que os levará até Guarulhos, onde tomarão o longo voo de retorno ao Havaí. Em meio à chuva intermitente, o farol vermelho e a usual impaciência voraz de meus concidadãos, tivemos que nos despedir rapidamente, sem tempo para o forte abraço que dois irmãos - amigos que somos - merecíamos dar. 
Isto posto, envio o gesto (que não houve) pelas ondas ciber. Afinal, sendo o abraço algo simbólico, mesmo quando efetivado, talvez ele chegue em condições ainda melhores e mais efetivas, sob a forma de miragem, ao avião. Meu irmão e sobrinho não se assustem, caso uns braços pálidos insistam em abrir a janelinha sobre o motor direito da aeronave, enquanto a equipe de bordo estiver a instruir os passageiros a respeito de uma turbulência jamais vista. 
Claro esteja que, se a janela não abrir, estenderei a remessa até a terra em forma de ilha. Com sorte, sol e mar, o abraço-miragem chegará e revelar-se-á capaz de dar conta dos outros sobrinhos e de Karli, querida cunhada com quem meu irmão compartilha a vida e tarefa de criar três filhos.  

domingo, 1 de novembro de 2015

Nacionalistas de ocasião

Na Vila de Piratininga, (fundada em 1554)...

I

... a maior parte daqueles que se dizem contra a cor vermelha (por motivos nacionalistas) são os mesmos que saem às ruas para comemorar o evento mais colonialista de todos: Halloween...

II

...quase ninguém tem o hábito de ler ou estudar, que não seja por motivos recompensatórios (daí o êxito de pseudo livros de "auto ajuda")

III

...(quase) ninguém lê, mas (quase) todos opinam sobre o que (quase) nada sabem

IV

...determinada revista e alguns telejornais são utilizados como fonte inequívoca da verdade

V

...boa parte (ou má parte?) dos muy dignos cidadãos defendem a pena de morte para os bandidos, mas o rigor da lei perde todo o vigor diante dos delitos que quase todos praticam diariamente

VI

...há episódios diários de intolerância, machismo e as mais criativas formas de preconceito, ilustrados por discursos toscos, mal articulados e amparados em pseudo argumentos de rala autoridade: "ouvi dizer que" ou "você não viu no jornal?"

VII

...professores tornaram-se alvo de ofensas de muita gente, de modo geral os mesmos indivíduos que julgam escorar "suas" opiniões de acordo com provérbios ou máximas extraídas do ralo senso comum

VIII

....caso Lima Barreto tivesse vivido aqui, certamente teria alterado o nome de seu Bruzundangas para Pulhastanias.

IX

...os Estados Unidos da América tornaram-se referência "cultural" para muita gente, que com o Inglês (aprendido a partir das telas e quase nunca pelos livros), afeta modos anasalados de falar, intercalando expressões como "tipo" ("like"), a cada quarto de frase pronunciada.

X

...repete-se, de tempos em tempos, a leganda "Ame-o ou deixe-o", proferida com máxima empáfia justamente por aqueles que menos cultivam a língua portuguesa, a cultura brasileira e as tradições locais (que o diga o Saci Pererê, chamado de piegas por aqueles que se vestem de bruxos, monstros e congêneres, a desfilar nas ruas mais badaladas dos Jardins).