sábado, 31 de dezembro de 2016

Para além do caviar

Nonada. Eu havia me comprometido em ler uma relação de dez livros no prazo de seis semanas. Mas, hoje, não resisti e comprei o último de 2016: Caviar é uma ova, do Gregório Duvivier. Não é a primeira vez que folheio o material. Eu já o havia feito, dias após o lançamento na Livraria. Desta vez, encontrei-o em outra loja, aqui do Centro da Pauliceia: reunião de crônicas desse humorista e articulista de grande talento. Reparo que o volume abre com um relato ao lado de Clarice e termina com aquela bela carta que Gregório dedicou a ela, para sua coluna no jornal. Não creio que essa disposição esteja assim por acaso. Mas, se porventura o for, a coincidência só valoriza o livro e atesta a coerência e sensibilidade de seu autor. Minha maior dúvida, agora, é se o incluo, ou não, na lista dos dez, que, assim, virariam onze. Creio que sim: posso mostrar aos passageiros de Guarulhos que há algo mais inteligente que as emissoras a que assistem e as revistas e jornais que persistem em ler, como se se tratassem de mensageiros da verdade. Podemos muito mais. Levemos Gregório por aí, ainda que seja para mexer com a suscetibilidade das pessoas, horrorizadas com o tom de vermelho (e azul, e branco, e preto, e dourado) que vai na capa.   

segunda-feira, 26 de dezembro de 2016

Homens que trotam

Alguém já terá notado. Sujeitos(as) que se julgam (mais) importantes, costumam sobrevalorizar seus mínimos gestos, supondo reafirmar sua máxima dignidade, na tosca supremacia que autoproclamam perante os demais. Provavelmente isso acomete todas as classes e ofícios. Há doutores, mais "graduados" que outros, que exigem a anteposição do título, que vai no diploma, ao nome. Também existem os que caminham bem devagar, a sinalizar para os pares e subalternos que eles, sim, têm tempo (também) porque possuem mais poder e dinheiro. Porventura estejam certos: quem anda com vagar corre menor risco de ser (ou parecer) estabanado. O caminhar leve, ondulante e vagaroso sugere ponderação, enquanto o sujeito discursa, absoluto, sobre amenidades. De fato, não há muita elegância em correr para pegar o ônibus que está a ultrapassar o ponto. Nem há dignidade em escapar ao fechamento da agência bancária, para obter uma cifra de papel. A questão, é claro, não se resume a comparar os caminhares, mas em lamentar que haja pessoas a vangloriar a si mesmas, malgrado a miséria moral e material padecida pelos outros. Não há qualquer mérito ou generosidade nisso. Bastaria que os sujeitos morosos acompanhassem alguns cavalos a galope para ver que, nos animais, o porte não demanda esforço -- mesmo porque eles seguem as leis da natureza. Nós, racionais, ególatras e exclusivistas, é que temos a competência inigualável para nos desfazer dos outros em tom de soberba, para justificar a distinção social em nosso favor. Evidentemente, não estamos iguais: criação e oportunidades fazem muita diferença. Mas, somos humanos. Truísmo que vale a pena relembrar, para além de cenas hipócritas em torno de manjedouras, tamanho miniatura. O sol não nasceu para todos; tampouco a estrela-guia. 

sábado, 24 de dezembro de 2016

Meditação sobre a prancheta

Era uma vez uma prancheta, objeto para ler, escrever e apoiar. Fazia uns quarenta anos que ela estava em meus planos: item a carregar palavras alheias e próprias; material para afixar folhas e transferir ideias. Coisa e sinal de que se pretende aprimorar o contato com o reino dos vocábulos: contágio para muito se estimar. A superfície plana, o grampo firme: micro-contexto ideal para que o lápis (metonímia), estável e sólido, liberte o maior número de palavras velhas e novas. Textos a rascunhar, gêneros a preencher: anotações, registros, bilhetes para mim mesmo. Pista para pouso e decolagem de meditações. Prancha diminuta não impede algum velejar. 

 

quarta-feira, 21 de dezembro de 2016

Atende-se

Chama-se Francisco e trabalha num café. Espremido e o tempo todo em pé. Nesses anos de idas e vindas pela Consolação, nunca o vi mal humorado, malgrado o tratamento nem sempre equivalente que recebe dos fregueses (habituais) ou clientes eventuais. Chama-se Francisco e costuma tratar a todos de modo doce e afetuoso: "Tudo bem, Querido?". Já reparei: quando percebe que o consumidor precisa de mais palavras, desata a falar amenidades; e se o visitante anseia por silêncio, só se ouve o som do expresso, o abrir e fechar da portinhola, as leves pancadas da espátula no porta-pó, o tilintar da colher. Francisco pergunta, "Acúcar ou adoçante? Quer uma aguinha com gás"? Nem sempre correspondem ao tratamento que lhes dispensa, mas ele prossegue, com a implacabilidade que só a doçura permite. Obrigado, Franciscco. Amanhã passo lá no café e tento levar a sua amabilidade adiante. Esta Pauliceia, pós-moderna, a-histórica e hostil anda a precisar. Diga-me se posso lhe ofertar esse punhado de palavras, se as julgar convenientes e merecedoras do seu caráter. Cordialmente.

terça-feira, 11 de outubro de 2016

Das Coleções

Nunca fui muito bom em colecionar coisas. Selos, carros em miniatura, CDS promocionais etc. Mas eis que, nos últimos anos, consegui completar algumas delas. Na sexta-feira passada, adquiri o último número de uma série de "grandes nomes da literatura". Por isso, semanas antes havia me programado para declarar a todos (e especialmente para mim mesmo) que não me envolverei mais em desventuras do tipo. Especialmente no caso dos livros, a tendência é acumular títulos dobrados. Quando a edição antiga está anotada, o questionamento é ainda maior. Talvez só o fetiche explique a falsa necessidade de contar com duas (ou mais) obras idênticas de um autor que sequer pretendemos estudar. Exercendo uma severa autocrítica, "colecionismo" pode bem ser uma palavra enfeitada que utilizamos em lugar de "consumismo", puro e simples. Dizem que tomar consciência é percorrer metade do caminho que nos leva à mudança. Porventura os outros cinquenta por cento sejam fruto da convicção ou temperamento da idade. A ver. De todo modo, o auto-manifesto está proclamado: coleções, não mais. 

quarta-feira, 5 de outubro de 2016

O monstro do banheiro

Dia desses, a caminho de um curso extensão sobre o legado da ditadura no Brasil, tendo chegado bem antes do horário da aula, pedi um café e duas empadas num barzinho simpático, uma quadra antes do Shopping Santa Cruz. Tomei, comi, paguei. Em seguida, pedi para utilizar o banheiro. Três minutos depois, ainda na cabine, fui surpreendido com três pancadas muy civilizadas na porta. Irritado com a falta de compostura alheia, perguntei em voz alta: "-- Sim?!", ao que a criatura do Lago Ness não respondeu. Acelerei os procedimentos para antecipar a saída e, espantem-se, o sujeito havia desaparecido, talvez encolhido na mesa à esquerda, devidamente acompanhado. Coitada dessa mulher. Coitado desse bar. Coitada desta cidade. Eis o legítimo Estado-Violência. Bora escutar Titãs e ler Agamben?

sábado, 17 de setembro de 2016

Metonímia da Carteira

Sabemos como é temerário classificar as pessoas. Mas podemos justapor atitudes assimétricas, com o fito de refletir. Coloquemos nestes termos. Há dois tipos de gente: aquelas que, de antemão, separam o bilhete único, o ingresso do cinema, o documento, as cédulas (ou as moedas) e aquelas que não o fazem. As do primeiro tipo agilizam a sua viagem, a sua entrada e acomodação no cinema, o acesso à área de embarque, o pagamento da passagem, a aquisição do produto que desejam. Assim, favorecem o fluxo da fila no ônibus, na bilheteria, no portão, no caixa. Ou seja, de alguma forma consideram a existência do coletivo. As pessoas do segundo tipo julgam-se privilegiadas por "terem chegado" lá. "Agora é minha vez: vou saborear o momento, valorizar o passe. Os outros que me esperem". O pior é que, muito frequentemente, os indivíduos da segunda categoria (e de segunda categoria, a meu ver) tomam os espaços a que pesssoas mais simples sequer têm acesso. Comumente, bons modos e bom senso não caminham juntos com a posição na escala social. Pelo contrário, muita gente de segunda classe supõe que a espera do outro as coloque, de alguma forma misteriosa, sob o patamar mais elevado -- ainda que seja no papel incrível de passageiras de ônibus ou avião, espectadoras de cinema ou clientes a comprar cebolas no mini-mercado.  

terça-feira, 13 de setembro de 2016

De volta à ativa

Após as férias usufruidas em julho e o afastamento por motivo de saúde até a semana passada, eis-me de volta à Universidade. E quem diz "Universidade", também diz "Unidade", "Departamento", "Colegas" e "Alunos", café em companhia dos amigos possíveis -- dentro do universo acadêmico. É a primeira vez que retorno às atividades profissionais, após um período forçado (e sentido) de ausência. Vá lá, deve ser a vantagem de ter quarenta e poucos anos. Nesse intervalo, estive apenas uma vez no Campus. Era domingo: vim retirar um livro indispensável para a escrita de um texto sobre os jesuítas. Os dias de expectativa por exames e procedimentos levam a gente a repensar tudo. obviedade a que me dou o direito de mencionar. Isso significa que sempre podemos aprimorar nossas capacidades de (in)tolerância, rever ou consolidar convicções. Mas, por falar na Companhia de Jesus, muitas descobertas foram feitas no que li -- o que permite relativizar os múltiplos papéis dos irmãos da Ordem, por mais de dois séculos, nos Estados do Brasil e do Grão-Pará. Até os embates com a Coroa, eles foram soberanos (espiritual e temporalmente) nesses territórios. Não é coisa de somenos: ainda hoje, assistimos a lutas bem menos refinadas em torno do poder, sob o patrocínio da iniciativa privada, com direito à bala, fundamentalismo e a chaga do latifúndio.  Pensando bem, será ótimo ir ao Rio, no domingo. Uma semana à mais para uma universidade de menos: fórmula orginal e oportuna, a ponderar no café da Rua do Ouvidor.

terça-feira, 6 de setembro de 2016

Quadras Militantes

 
Decerto a mulher que aí vês é devota:
Fez o sinal da cruz, mal avistou a Igreja
Metros à frente, ao mendigo ajoelhado
Como de praxe, afetou vista grossa.

Certamente o garoto que aí tens é esforçado:
Fez sinal para o motorista, quando passou o ônibus
Passos distante, o gesto transformou-se em ordem
Ele que me espere: ao fim do mês tem ordenado.

Quiçá a jovem que percorre a loja é deveras feliz:
A cada gôndola uma gargalhada, entre colas e giz
Mal sabe o funcionário, o cliente e o gerente
Que motivos eles dão à moça de brim.

Por certo o homem fardado está ao lado da ordem:
Manda fechar bares e sair clientes, o dedo em riste
Não aprendeu a reconhecer seus legítimos inimigos
Em nome da lei, ele é quem cega, fura e espeta.

Não duvide, o senhor que sai do carro é refinado:
Botou o auto em frente à entrada e, indiscreto,
Ordenou pelo contrário: – Deixei ligado!
Tinha pressa o sujeito, assim muito se explica.

Dia desses, hão de se encontrar na passeata infeliz
A mulher, que ora dará um carro ao filho empenhado
A jovem risonha, ao retirar as algemas do namorado
O senhor atarefado, em nome de deus e da pátria.

quarta-feira, 31 de agosto de 2016

Metafisica de Mefistófeles

Para Lincoln Secco, autor de História do PT

Gostaria de conclamar aos leitores desta Revista Pausa a que leiam a oportuníssima edição n. 109, da Revista Brasileiros – especialmente dedicada a discutir os bastidores que removeram a Presidenta Dilma Roussef do Palácio*, a despeito dos 54 milhões de votos que recebeu há coisa de dois anos.
Hoje, no início da tarde – a exemplo do que já houvera em dias igualmente sombrios –, a cada rojão, acompanhado de gritos de ofensa pessoal, uma parcela bestificada e tacanha da Consolação confirmou a que veio ao planeta: brigar pelo “seu” (o que quer que isso signifique e implique), desqualificar o que não compreende, aniquilar aqueles que “caem na contramão, atrapalhando o tráfego”.**
À época em que Fernando Collor de Melo foi impedido de reinar, vinte e quatro anos atrás – na província de pernas abertas para todo e qualquer capital estrangeiro –, nossa atriz maior*** esteve num Programa entediante e emburrecedor de domingo, e observou com notável lucidez que o “impeachment” do ex-Presidente era a demonstração cabal de que 500 “palhaços” votaram contra 1.
Ora, o episódio de hoje envolve métodos similares, embora os motivos sejam muito diversos. No caso de Dilma, afora os abafamentos do presente e do passado, os meios de comunicação tiveram papel decisivo, ao construir e consolidar uma imagem negativa da mulher e do Partido que ela representa.
Evidentemente, quando as gentes lúcidas, como Mino Carta, Leonardo Boff, Chico Buarque, Letícia Sabatella, Gregório Duvivier etc vieram à internet para manifestar as necessárias ponderações – frente às premissas construídas segundo o ritmo martelado de “ladrões, corruptos, comunistas” –, a imprensa tratou de cristalizar uma nova tática: disseminar a ideia de que uma sigla partidária foi capaz de dividir todo o país.
Mais uma vez, a estratégia simplista – tão óbvia, quanto infeliz – foi imediatamente absorvida e reproduzida por um bando de mentes fracas, cuja opinião é facilmente construída ou desconstruída, ao sabor das “autoridades” globais ou moralistas de ocasião (aqueles que matutam as capas mais ofensivas e partidárias, no país).
Não se trata de inocentar o pessoal que errou, mas de ampliar o alcance do periscópio seletivo das operações de nome pomposo e escopo mínimo. Vale (re)lembrar a história da imprensa no Brasil. Nossos jornais e revistas de maior circulação funcionam sob o tripé Empresários/Anunciantes/Índices de Audiência. Reitero o óbvio: não há discurso neutro; não há jornal sem partido****.
Por exemplo. Noutro dia, visitei um apartamento (o meu está à venda), para tentar uma eventual permuta. Como eu relutasse em dizer que era professor da Universidade de São Paulo, o corretor insistiu, insistiu, até que revelei a disciplina que ministro... e onde. Adivinhem a pergunta seguinte? “Mas você não é daqueles doutrinários, não, é?”. Como se não houvesse doutrina de Direita...
A grande diferença entre uns e outros é que gente da Direita se deleita em provocar sobremodo os outros, ainda que a Esquerda (sim, ela existirá enquanto os entreguistas persistirem em seu cinismo pseudopatriótico) esteja “quieta no seu canto”, como sugeria aquele grande poeta mineiro (puxa, uma terra de pessoas tão diferentes!)*****
Ah, mas é claro: poesia é coisa de gente idealista. O mundo se move segundo os desvãos da Economia, do Sexo e conforme a lógica unitária e perversa da recompensa (a carona, o diploma, o dever de casa, a viagem de formatura, o carro dos dezoito anos, o casamento como perpetuação da Casa Grande...).
Diz pra esse moço pretensioso, metido a blogueiro, que mude de país e reaprenda a conviver com a democracia (unitária) de quem defende o progresso (a qualquer custo), por sobre os mendigos (gente inútil) que se apinham nas ruas, a mercê dos rostos excessivamente maquilados e mentes fúteis, que desfilam na Oscar Freire e na Maria Antônia – sobranceiros, gastando as bolsas do governo e as mesadas de papai e mamãe, enquanto admiram o penteado mefistofélico do estadista de ocasião. Tsc, tsc [31 de agosto de 2016].

Notas, em tese, elucidativas:

*Palácio passou a ser um perverso eufemismo, no país dos sem-teto, dos sem saúde e dos sem aumento salarial.
**Excerto de Construção, música de Chico Buarque de álbum homônimo (1970).
***Refiro-me a Fernanda Montenegro.
****Alusão ao projeto de lei “Escola sem Partido”, proposto pela gente de bico chato e largo (e seus asseclas).
*****Refiro-me a Carlos Drummond de Andrade (1902-1987).

terça-feira, 23 de agosto de 2016

Balanço Olímpico

Algumas coisas chamaram a atenção, durante a realização dos jogos no Rio de Janeiro. Para começar, a banalização do adjetivo "olímpico" por parte de uma emissora de televisão. A repetição do termo só perdeu a medalha para a qualidade de locuções redundantes e comentários pífios de gente que não merece nem o posto, nem o salário, tampouco a audiência que recebe. Tão ou mais impactante que a fala desautorizada de tanta gente foi a torcida evidente das emissoras pelos atletas dos USA. Vejamos. Na maratona feminina, o grupo que ia à frente recebeu menos consideração que a "valente" corredora ("americana") que vinha bem atrás. Até as câmaras se posicionavam de modo a destacar os esportistas em azul, vermelho e branco, não só nessa modalidade. Durante as apresentações dos ginastas, um repórter experiente ressaltava que a Coreia do Norte fazia de seus atletas garotos-propaganda do regime ditatorial. Como muita gente, ele se esqueceu (providencialmente) de comentar que algo similar acontece, desde a segunda guerra mundial, com os representantes da pseudo democracia liberal estadunidense. Na partida de vôlei com a Rússia, em disputa pelo bronze, à medida que o jogo avançava, a empolgação de locutor e da comentarista perdiam a aparente neutralidade, até a indisfarçável comemoração em torno de mais uma "conquista" daquele país. Por sua vez, a torcida local -- que assustou tanta gente por não respeitar os silêncios necessários e por vaiar gente esforçada, inclusive no pódio -- vestiu a camisa da corrupta entidade futebolística, no melhor "espírito olímpico". Quando digo que muitos dentre nós não passamos de neo-colônia dos Estados Unidos, não há exagero nisso. Cultural e economicamente, muitos brasileiros se espelham nos casos de "sucesso" de lá, embora eles mesmos ressaltem as enormes diferenças entre os países. Estamos cercados de basbaques com microfone e, pior: eles são os maiores responsáveis por "formar" a opinião pública de quem não pensa sem a sua tevê (seja ela smart, ou não).      

quinta-feira, 2 de junho de 2016

A Revolução dos Guarda-Chuvas

As revoluções elegem seus símbolos, lugares e protagonistas. Foi assim com a Revolução do Porto; assim se deu com a Revolução Cubana; assim assado com a Revolução dos Cravos. 
Em tempos de solidariedade rara e engajamento pífio, o sol, a chuva, a tormenta da "grande" mídia; a violência alastrada como justificativa para o "estamos aí", "o mundo é assim", não há como negar o impacto provocado pela soma, pelos movimentos que agregam, repõem e propõem.
Quarta-feira, 1o de junho de 2016 d. C., em acordo com com o Calendário Gregoriano. Sob a chuva, incontáveis guarda-chuvas: metonímia multicor das vozes que não se calam, nem bastarão.

segunda-feira, 23 de maio de 2016

Pausa

Hoje estreio na Revista Pausa, assinando a coluna Literatices -- a convite da editora Márcia Costa e da cronista Marina Ruivo. A ideia é que as colaborações sejam semanais e versem sobre assuntos não exclusivamente relacionados à "Literatura" (conceito recente, aliás, do ponto de vista histórico). No texto inicial falei sobre José Saramago. Não sei bem qual será o tema dos próximos dias e essa boa ansiedade em escrever, para além da forma e do currículo, talvez seja a maior motivação. A revista congrega gente muito boa, inclusive contistas, artistas, pensadores e críticos -- razão, outra, que me orgulha por integrar a equipe. Pausemos. http://revistapausa.blogspot.com  

sábado, 14 de maio de 2016

Tudo a Temer

Há uma lei no país:
A emissora global,
E os maiores jornais,
Mais a revista que vê;

Os homens de bem,
As mulheres puras,
Os anjos da lei,
E a toga suprema,

Só dizem verdades.
Somente eles sabem:
Apenas uns prestam;
A esquerda? Morreu.

Há outra lei no país:
A doutora que mal dirige,
(a faculdade das aves)
O empresário que manda
(nos seus vabagundos);

O professor mais nazista,
A coordenação insegura,
O comerciante inepto,
A gerente de banco:

Todos são neutros;
Afora aqueles que falam
De outros lugares,
Novos pontos de vista:

A inclusão dos demais,
A igualdade social,
A defesa dos outros:
Tudo virou ideologia.

Mas desfilar nas ruas
(De verde e amarelo)
Reiterar o senso comum
Xingar milhões de votantes

Isso tudo é legítimo
(Conforme anunciado
Em jornal e tevê,
Supremo e revista).

A nação, metade entreguista,
(da outra parte é cínica);
Grita nacionalismos que não há;
E o pouco que tem privatiza.

Anunciantes controlam os jornais,
Emissoras reforçam a boa moral,
Na mão de bem poucos, globais,
A nova consciência nacional.

"A nossa bandeira jamais será vermelha"
(Será verde amarela, cor de Bragança);
"É preciso botar ordem na casa e crescer"
(Afora a merenda e a previdência social).

"Chega de assistencialismo!"
(Doutores, devolvam as bolsas)
"Chega de tirania bolchevique!"
(Senadores, vençam nas urnas).


domingo, 17 de abril de 2016

Militância às avessas

O que leva um espectador de tênis, em Miami ou Monte Carlo, a vociferar contra o nome da Presidenta do Brasil durante games e lances decisivos? O que autoriza um comentarista impertinente, que lastreia o seu discurso fora de hora com lugares-comuns (em defesa do dinheiro como valor universal) a tecer observações que nada dizem respeito ao jogo, além de sentenciar: “viva os ricos, pois são eles que permitem o acesso dos pobres à classe média”? O que leva uma revista nada imparcial a supor que seja “os olhos do Brasil”? A que país ela se refere, mesmo? O que leva um jornal, que diz contabilizar 20 milhões de assinantes, a sequer disfarçar a sua torcida em favor do impedimento? Desde a reeleição de Dilma Roussef, assistimos a um bando de políticos mimados e hipócritas (que se dizem oposição) blindados pela “grande” imprensa (nada neutra), a professar lei, ética e responsabilidade, apesar de manterem seus nomes na lama, sonegarem impostos e agirem de acordo com suas vontades muy particulares (e jamais em defesa do povo, como bem padecemos). Os jornais agirão de mesmo modo fiscalizatório, ao vigiar escutas telefônicas e ao esquadrinhar as ações de um eventual novo governo defensor do estado mínimo e de exceção? Suponho que não. Para afetar o gesto democrático, botam uma voz dissonante (ou seja, de esquerda) em meio a diversos comentários classistas (a justificar os antigos privilégios da elite). A imprensa subestimou seus leitores e telespectadores, atirou uns contra os outros e, no fim, pretende dizer que um único partido terá dividido o país. Ora, o Brasil sempre foi dividido, histórica, cultural e socialmente: mas quando metade dele passou a defender outra conduta e novos direitos, o discurso de jornalistas, comentaristas de tênis e políticos hipócritas inverteram a charada em seu favor. Sejamos implacáveis ao avaliar o discurso e as atitudes de todos os que vierem. Qual o mérito ético, social e político daqueles que atropelaram a democracia em nome de uma guinada à direita? A imprensa, as emissoras de rádio e televisão e a maior parte dos políticos continua a agir de modo subserviente em determinação às ordens e intervenções do poderoso Tio Sam. Cinquenta e dois anos depois de outro golpe, assistimos à banalização do debate, como se a política se reduzisse a polarização entre adversários, num país em que a classe média tradicional e a elite (financeira) confundem nacionalismo com estadunidização; verde-amarelismo com negação do passado e da voz concedida aos menos favorecidos, nos últimos doze anos. Mas, não nos preocupemos: independentemente do resultado desta sessão espúria (embalada por seu coro de cínicos) os Estados Unidos já disseram que o Brasil não corre o risco de "venezualização" (aspas do jornal). Eis o aval para nos sentirmos mais patrióticos e soberanos, Tsc, tsc.   

sábado, 2 de abril de 2016

(Pré) Aula

Sábado, cedo: dia de ampliar leituras de e sobre Bento Teixeira (1561-1600), poeta judeu luso-português que andou dando um bocado de trabalho para o pessoal da "Santa" Inquisição (ao som de Marsheaux: incrível dupla grega que descobri há poucos anos). Há que recriar o ânimo mais otimista para prosseguir no ofício de professar aulas. Comecei a lecionar português e matemática em 1999, para um grupo de funcionários do Instituto de Biociências da Universidade. Em 2002, passei a dar aulas em uma ONG e um Curso Pré-Vestibular. De lá pra cá, estive em cursinhos comunitários, colégios e faculdades. Volta e meia relembro dos termos com que Roland Barthes descreveu o seu trabalho no Collège de France: "pesquisar e falar". Um coordenador me ensinou que "o bom professor é aquele que prepara sua aula". Posso afirmar que nunca investi tanto tempo (e dinheiro) nas tarefas que antecedem as aulas, como nestes dois anos na Escola de Comunicações e Artes -- no honroso lugar de Ivan Prado Teixeira. Tais leituras e estudos, por sinal, ligam-se ao excelente ensino que tive na Faculdade de Letras, entre 1995 e 1998; às aulas de literatura brasileira e portuguesa que ministrei no Colégio da PM, entre 2007 a 2010; e, mais recentemente, à penca de concursos públicos a que me submeti, com maior chance de êxito entre 2013 e 2014. [Nas últimas semanas, tenho assistido sistematicamente a jogos de tênis protagonizados por notáveis esportistas. Além de comprar minha primeira raquete (Federer), não pude evitar a analogia com o fato de que tenistas e professores devem agir feito profissionais, para o bem de si mesmos, do esporte e de seu público]. Que os (bons) alunos reconheçam a fome de bola de seus professores, especialmente aqueles que recolocam em jogo o ensino que investiga, esmiuça e liberta. Se eu fosse jesuíta, repetiria o ensinamento inaciano de que a boa palavra deve se casar ao melhor exemplo. Que o auditório contenha corações e mentes férteis e curiosos pela redescoberta de grandes figuras das Letras praticadas nos Estados do Brasil e do Maranhão e Grão-Pará. 

segunda-feira, 21 de março de 2016

A Interdição do Vermelho

Nonada? Dia desses, uma jovem saudável e de bem com a (sua) vida percorria a avenida mais célebre de Piratininga, quando foi violentamente assediada por um bando de acampados. Eles protestavam em razão da cor da bicicleta conduzida pela moça. A notícia trouxe algum alarde nas redes sociais, mas nada de mais nos jornais -- se comparada ao volume que esses tipos andam fazendo, seja de suas varandas-gourmet, seja de seus carros a ocupar cada vez mais espaço nas disputadas ruas da cidade. A ciclovia é vermelha, a bicicleta é vermelha, eu me visto de vermelho. Estamos sofrendo a interdição do uso da cor? Desde quando isso é ser democrático? Nunca vi alguém, em vermelho, hostilizar ou bater panela para um segundo alguém -- por estar usando cor de outra legenda (o verde e amarelo já perdeu o sentido, há muito tempo). Seria o caso de apontar algumas peculiaridades deveras interessantes. Pelo menos três bancos da cidade têm vermelho em sua logomarca; mas o Banco do Brasil, pasmem, é azul e amarelo! O azul predomina em diversas companhias aéreas e na própria Caixa Econômica Federal etc. Houve um tempo em que repetíamos o ensinamento imemorial de nossos pais:  "gosto não se discute". Os novos tempos da pseudo democracia mudaram tudo, até isso. Tudo em nome da ética e da coerência, gritam eles. 

domingo, 20 de março de 2016

18 de março de 2016: Contra-Golpe

Amigos velhos e novos, ex-alunos e colegas de trabalho, encontramo-nos no perímetro que vai da rua Consolação à avenida Paulista. Lá fui: ansioso, e um tanto temeroso com as provocações dos pseudo nacionalistas: aqueles cuja cabeça foi formatada por algumas emissoras de televisão e veículos de imprensa, mas que julgam pensar por conta própria. Participei do manifesto, sem arredar pé, entre as 14h30 e as 20h, motivado por uma série de convicções, combinadas à esperança de que a noção de Justiça não seja confundida com a perseguição a um único partido, como indicia a sanha dos novíssimos heróis de araque, forjados por revistas e canais de rádio e tv que deixaram de fazer jornalismo há eras. Na volta para casa, após um ato marcado por música, democracia e paz, ria sozinho enquanto paneleiros iam se ocupar das pessoas que passavam sob suas janelas, na Frei Caneca. É curioso que parte dessa gente, que dá todo crédito àquela emissora de televisão, impe de orgulho ao se portar como "nacionalista" (que sonha em ser colônia dos EUA), "pessoa do bem" (que não hesita em ofender e linchar aqueles que se arriscam a andar sobre bicicletas vermelhas), "gente avançada" (que não vê retrocesso em privatizar tudo o que for possível), "classe diferenciada" (que não vê contradição em batucar panelas e debochar de todos aqueles que percebem as mudanças no país de um modo bem diverso). A cena mais estúpida aconteceu em frente ao Shopping Frei Caneca. Enquanto um grupo de manifestantes (pró-democracia) respondia às provocações que vinham das alturas, com a pulsão das ruas, "Não vai ter golpe!", um consumidor caiu na própria armadilha: "Vai ter golpe, sim!"... Coincidência ou não, ele gritou apenas uma vez, o que talvez demonstre a asneira do que anda repetindo como se fosse pensamento legítimo e seu. Vamos ver se a sede de tirar o partido do poder condiz com uma ótica imparcial do pega-ladrão. Se esse tipo de gente estivesse motivada por princípios, já teria notado o personalismo de seus atos e os discursos proferidos por heróis de fachada, especializados em fechar boca, olhos e ouvidos, ao falar de seus aliados políticos. Voltemos a vestir vermelho. Voltemos a nos municiar em bons livros de história. A maior luta está nas ruas. Paulo Henrique Morim parece ter corrigido Lima Barreto, cem anos depois: a imprensa não é o quarto poder; é  o primeiro.

quarta-feira, 16 de março de 2016

Manifesto Universitário

*
Contra a autofagia institucional: cultural, econômica e social. Se ser humano é conceito ultrapassado, que os robôs tomem o assento dos tecnocratas que regem: receita de Henri Lefebvre. Em defesa dos estudos sobre ler, escrever, contar e dividir. Contra a régua milimétrica das mega-especializações. 
*
Contra a apatia propalada como remédio. Se lecionar literatura é ócio improdutivo, relembremos aos homens gerenciais que tanto a filosofia quanto a medicina nasceram na Grécia. Pelo espírito solidário e combativo, marchemos sobre o Campus.
*
Contra a sanha produtivista que julga definir o que é ou não útil. Pela proscrição da palavra "serventia", nos ambientes em que a inteligência e a liberdade prevalecem sobre o gosto de estabelecer metas, prazos ou escalar intermináveis rankings.
*
Contra os egos inflados, cegos pelas preocupações ministradas cotidianamente sob a forma de pareceres banais, bancas insossas, relatórios de minudências jamais lidas, participação de eventos em que todos falam mas ninguém se comunica. 
*
Contra a sanha dos certificados, que tomaram o lugar do que se efetivamente disse, pintou, compôs, operou ou escreveu. Pelo gosto de gritar politica!, sem receio de ser tomado por ingênuo, idealista, utópico e sandeu. 
*
Contra os detratores da universidade, donos de linguagem portentosa e cínica, a disfarçar ruínas com o heroísmo magro das cifras. Pela dessacralização do mercado e a destituição da velocidade como fator de atividade preponderante. Nem canibalismo, nem a falácia do bem-estar-social, invariavelmente exclusivista.  

Piratininga, há um quarto de século sob a indi-gestão dos privatistas 
que se autoproclamam homens melhores: homens de  bem. 

terça-feira, 15 de março de 2016

Pixies

Ontem, em meio às coisas do dia, resolvi escutar o álbum Doolittle, dos Pixies -- obra prima do pop rock de um grupo, classificado no final dos anos 80 como "guitar band", que fazia música "alternativa" (ironicamente tocada frequentemente nas rádios "comerciais"). Minha faixa preferida (a n. 11) traz uma das melodias mais bonitas que conheço. Não sei se, por efeito da lua (que não vi), do conhaque (que não bebi), ou dos rumos que alguns (des)entendidos têm dado à Universidade, o fato é que escutei o CD muitas vezes, em particular Number 13, baby. Repitamos, repitamos, repitamos: "I'm in a state"! e, em seguida, ouçamos Surfer Rosa

quinta-feira, 10 de março de 2016

Contorcionismo de corredor

O sujeito passa lá, uma penca de semestres com o mesmo professor. Mostra-se atento e sorridente, na maior parte das aulas (e mesmo, fora delas). Eis que, findo o período letivo, passa a executar a estranha ginástica do desprezo: olha fixo para o além; desce ao chão para amarrar o cadarço pela terceira vez; contorce pescoço, tronco e membros na direção contrária ao do transeunte. Em sua defesa, alguns dirão que se trata de timidez crônica; outros jurarão que o elemento "não enxerga, mesmo, muito bem" (aproveitando cá o verso de Caetano Veloso. Quem?). É curioso como evitar o outro parece eximir o contorcionista de fazer a ginástica mais difícil: um exame crítico de si mesmo(a). Costumo dizer que os alunos contam com um diferencial em relação às pessoas comuns (extra-muros): além do dinheiro e do sexo, eles ainda dispõem da nota como motivação para fingir interesse e estudo -- o que nem sempre implica aprimorar a sua personalidade ou a qualidade do que fazem, evidentemente. Tsc, tsc.

domingo, 6 de março de 2016

Lição de Nabokov

Em 2009 li, numa fotobiografia sobre o escritor Vladimir Nabokov, que em suas aulas inaugurais de Literatura, ministradas nos Estados Unidos, ele principiava o seu curso desta forma: "Por favor, não disfarcem ignorância com arrogância". Quem leciona, ou lecionará, certamente deparar-se-á com alunos que agem de modo nada recomendável, em termos de educação (coisa que se aprende nas boas casas) e humildade (algo que se refere à consideração pelo outro e por suas formas de atuação). Não bastasse a imagem depauperada do professor; não importasse o fato de que seu trabalho envolve a longa preparação de uma aula e a carência de boa parte de seus alunnos, volta e meia o educador precisa contar com perguntas impertinentes de estudantes sádicos (e vazios), cujo prazer maior reside na forma como dirigem petardos verbais ao mestre, preferencialmente em público. Um questiona o que falamos sobre os jesuítas, supondo que sejamos adeptos do anticristianismo (embora o credo não estivesse em questão, durante a aula); outros sorriem altivamente, enquanto questionam coisas sobre as quais sequer têm interesse. A humildade é o primeiro degrau que o bom aluno ou pesquisador deve escalar. Agora, se o professor é visto pelo aluno como um ser rebaixado; se o assunto da aula não é de seu interesse; se a docência ou a pesquisa não estão em seus planos, quais as razões para o aluno desprezar o mestre ou fingir interesse que nunca teve?   

quarta-feira, 2 de março de 2016

A menina que molhava livros

Ora, ora: a humanidade bem que pode nos supreender, a despeito de sabermos que nada de muito novo se pode criar em nossos dias. Ontem, entrei na Martins Fontes simultaneamente com uma jovem (estudante universitária, possivelmente) que fez uma das perguntas sintomáticas de nosso tempo. Como chovesse -- e o ser, dito humano, costuma se proteger das gotas celestiais -- ela perguntou a um dos atendentes se ele disporia de um livro que a abrigasse da chuva. A princípio, julguei ter ouvido mal. Nem chovia tanto. Além disso, que mal há em apanhar umas gotas d'água, considerando que estamos sujeitos a violências muito piores, praticadas cá na Terra, mesmo? Passei um bom tempo ruminando a pergunta que a garota fez. Poderíamos pensar: "afinal, que mal há em se abrigar da chuva?" Mas qualquer resposta que eu cogitasse redundaria no mesmo: qual o papel do livro? Começo a acreditar que o ato de ler é uma demanda utópica. Quisera eu que essa jovem desinformada (símbolo de uma geração de sujeitos superficiais, desatentos e desinteressados) fizesse do livro um guarda-chuva metafófico contra intempéries outras: o desprezo pela palavra e por tudo aquilo que já foi escrito. Quanto a mim, voltei em companhia de Paul Veyne (Pão e Circo) e  Sigmund Freud (Estudos sobre a Histeria). Devidamente protegidos da chuva, claro esteja.

sexta-feira, 12 de fevereiro de 2016

Carnaval como Violência

Às vésperas de completar 43 anos, fui tomado de assalto pela notícia de que haveria uma Micareta na sexta-feira, a partir das 16h, nas ruas que perfazem o périplo dos pseudo alunos que mais descem do que sobem à rua Maria Antônia. Na volta da Universidade, avistei um mar de gente a se acotovelar, sorridente, na esquina da Consolação com a Cesário Mota. Eis mais um ato que renderia uma senhora tese de psicologia social e ciência política. Mas, não sendo este o espaço adequado para dissertar tão longamente, faço alguns reparos. O primeiro deles é que o prolongamento das celebrações do Carnaval (que quase nada têm a ver com o sentido original da festa) contradiz o discurso histórico de muita gente que se acostumou a dizer que o Carnaval na Bahia começa uma semana antes. Se isso fosse verdade, seria caso de somenos em comparação com a bárbarie mal disfarçada pelas festas alimentadas pelas classes que frequentam (mal) uma renomada instituição universitária. Outra questão que alguns apresentadores de teletragédias poderiam explorar: o fato de haver um elevado aparato policial para assegurar a ordem dos jovens bem nascidos, que só querem se divertir. Se uma festa de tais proporções fechasse ruas da periferia e seus atores fossem os garotos de outra condição, os agentes da repressão procederiam da mesma forma? Seria um truísmo mencionar o desprezo cotidiano desses jovens, de fala e trejeitos afetados, pelo direito de ir e vir dos moradores dessas ruas. Frequentemente deparo com gente descolada que, nas alturas da embriaguez e da fumaça brança, faz do portão dos prédios sanitário particular. Essa gente parece desejar a imortalização do espírito de festa. É possível que a maior parte deles tenha uma origem nada humilde e esteja acostumada a reinar em qualquer lugar, sob quaisquer circunstâncias. Como oscilam entre as múltiplas formas de violentar as liberdades alheias, não se percebem como parte de um processo de depauperização generalizado, em que a sala de aula, porventura frequentada, tornou-se pedágio para as coisas divertidas -- quase sempre situadas em mesas de bar e discursos repletos de frases feitas e contação de vantagens inúteis. São Paulo é cidade de abuso de violência e de festas abusivas: não por acaso, protagonizadas pelos mesmos atores.       

domingo, 24 de janeiro de 2016

Piratininga

O Estado é laico
(E a Câmara de Vereadores leva o nome de José de Anchieta).
O Estado é ordeiro
(Altaneiros cidadãos, com carrões à prestação, passeiam indiferentes por entre o exército de miseráveis).
O Estado é nacionalista.
(E o povo alternativo fez do Halloween seu feriado predileto).
O Estado tem lugar para todos
(Desde que todos refira-se à "gente de bem", pensamento do século XVI).
"Gente de bem", hoje, são aqueles que estudam, trabalham e perseveram
(Com a ajuda obrigatória e constante de seus familiares, da mesada até o escritório montado).
O Estado representa o povo
(Inclusive a parcela contrária às novas estações de metrô, corredores de ônibus e ciclovias).
O Estado é democrático
(Por isso zomba de quem pensa diferente, renega a diversidade e elogia o intervencionismo made in USA).
"A nossa bandeira jamais será vermelha"
(Porque seus habitantes ignoram o que significa o "verde e louro" de sua flâmula).

quinta-feira, 21 de janeiro de 2016

Descontrole remoto

Em uma coisa os terráqueos sobrepujaram a Tecnologia: andávamos desconectados (uns dos outros) muito antes do wireless.

quarta-feira, 6 de janeiro de 2016

Sebastião José de Carvalho e Melo

No firme propósito de me dedicar prioritariamente aos assuntos da "Colônia" luso-brasileira, propus-me a tarefa de estudar o perfil e a atuação do Marquês de Pombal (1699-1782). Para isso, acerquei-me de livros e artigos relativos ao período em que vigorou o Reinado de Dom José I (1750-1777). Alguns deles fui buscar na Biblioteca da Faculdade de Educação; muitos outros encomendei em sebos e lojas. O assunto é tão fascinante quanto revelador das artimanhas do estadista e asseclas, em prol da chamada Reforma da Educação, transcorrida em Portugal e nas possessões ultramarinas a partir da década de 1760. Em tese, o assunto deveria interessar a um público muito maior, para além dos empenhados historiadores, educadores, literatos e advogados; mas, a exemplo do que acontece com as coisas de outro tempo (que demandam leitura disciplinada e atenta), olhar para o passado tem sido tarefa reservada a especialistas. Generalista que sou, não faço jus a um título tão enobrecedor: persisto em investigar as questões de meu interesse, no momento e à maneira como elas se me apresentarem, ao longo dos dias. Há muito para além de Machado de Assis, claro está.        

terça-feira, 5 de janeiro de 2016

A box from England

O ano de 2015 foi marcado pelo reencontro formal com Dame Agatha Christie (1890-1976) -- uma de minhas (re)leituras prediletas, desde a adolescência. No semestre passado ministrei pela primeira vez a disciplina O Romance Policial de Agatha Christie, o que despertou a curiosidade de mais de cem alunos, frente à oferta de apenas vinte e cinco vagas. Muito oportunamente, desde o ano passado a Editora Nova Fronteira reedita os livros da Rainha do Mistério, numa bela coleção em capa dura, que acompanho de perto. À medida que os exemplares chegam, substituo os antigos volumes e tresleio os romances protagonizados pelos geniais Hercule Poirot e Miss Marple. Hoje, revendo sucintas e pueris impressões sobre seus romances que escrevi a partir dos 14, 15 anos, decidi acondicionar as notas em uma caixa. Como tinha de passar pelo mercado, aproveitei para procurar por um recipiente à altura da nobre tarefa. Voltei da rua com iogurte, pão, Nutella, Paçoquinhas-rolha e uma caixa de 20 X 20 cm, que reproduz a bandeira da Inglaterra. Nada seria mais adequado para homenagear personagens cativantes e enredos envolventes, em obras permeadas pela síntese mordaz das figuras criadas pela notável romancista inglesa. Eh, bien.