sexta-feira, 12 de fevereiro de 2016

Carnaval como Violência

Às vésperas de completar 43 anos, fui tomado de assalto pela notícia de que haveria uma Micareta na sexta-feira, a partir das 16h, nas ruas que perfazem o périplo dos pseudo alunos que mais descem do que sobem à rua Maria Antônia. Na volta da Universidade, avistei um mar de gente a se acotovelar, sorridente, na esquina da Consolação com a Cesário Mota. Eis mais um ato que renderia uma senhora tese de psicologia social e ciência política. Mas, não sendo este o espaço adequado para dissertar tão longamente, faço alguns reparos. O primeiro deles é que o prolongamento das celebrações do Carnaval (que quase nada têm a ver com o sentido original da festa) contradiz o discurso histórico de muita gente que se acostumou a dizer que o Carnaval na Bahia começa uma semana antes. Se isso fosse verdade, seria caso de somenos em comparação com a bárbarie mal disfarçada pelas festas alimentadas pelas classes que frequentam (mal) uma renomada instituição universitária. Outra questão que alguns apresentadores de teletragédias poderiam explorar: o fato de haver um elevado aparato policial para assegurar a ordem dos jovens bem nascidos, que só querem se divertir. Se uma festa de tais proporções fechasse ruas da periferia e seus atores fossem os garotos de outra condição, os agentes da repressão procederiam da mesma forma? Seria um truísmo mencionar o desprezo cotidiano desses jovens, de fala e trejeitos afetados, pelo direito de ir e vir dos moradores dessas ruas. Frequentemente deparo com gente descolada que, nas alturas da embriaguez e da fumaça brança, faz do portão dos prédios sanitário particular. Essa gente parece desejar a imortalização do espírito de festa. É possível que a maior parte deles tenha uma origem nada humilde e esteja acostumada a reinar em qualquer lugar, sob quaisquer circunstâncias. Como oscilam entre as múltiplas formas de violentar as liberdades alheias, não se percebem como parte de um processo de depauperização generalizado, em que a sala de aula, porventura frequentada, tornou-se pedágio para as coisas divertidas -- quase sempre situadas em mesas de bar e discursos repletos de frases feitas e contação de vantagens inúteis. São Paulo é cidade de abuso de violência e de festas abusivas: não por acaso, protagonizadas pelos mesmos atores.