segunda-feira, 21 de março de 2016

A Interdição do Vermelho

Nonada? Dia desses, uma jovem saudável e de bem com a (sua) vida percorria a avenida mais célebre de Piratininga, quando foi violentamente assediada por um bando de acampados. Eles protestavam em razão da cor da bicicleta conduzida pela moça. A notícia trouxe algum alarde nas redes sociais, mas nada de mais nos jornais -- se comparada ao volume que esses tipos andam fazendo, seja de suas varandas-gourmet, seja de seus carros a ocupar cada vez mais espaço nas disputadas ruas da cidade. A ciclovia é vermelha, a bicicleta é vermelha, eu me visto de vermelho. Estamos sofrendo a interdição do uso da cor? Desde quando isso é ser democrático? Nunca vi alguém, em vermelho, hostilizar ou bater panela para um segundo alguém -- por estar usando cor de outra legenda (o verde e amarelo já perdeu o sentido, há muito tempo). Seria o caso de apontar algumas peculiaridades deveras interessantes. Pelo menos três bancos da cidade têm vermelho em sua logomarca; mas o Banco do Brasil, pasmem, é azul e amarelo! O azul predomina em diversas companhias aéreas e na própria Caixa Econômica Federal etc. Houve um tempo em que repetíamos o ensinamento imemorial de nossos pais:  "gosto não se discute". Os novos tempos da pseudo democracia mudaram tudo, até isso. Tudo em nome da ética e da coerência, gritam eles. 

domingo, 20 de março de 2016

18 de março de 2016: Contra-Golpe

Amigos velhos e novos, ex-alunos e colegas de trabalho, encontramo-nos no perímetro que vai da rua Consolação à avenida Paulista. Lá fui: ansioso, e um tanto temeroso com as provocações dos pseudo nacionalistas: aqueles cuja cabeça foi formatada por algumas emissoras de televisão e veículos de imprensa, mas que julgam pensar por conta própria. Participei do manifesto, sem arredar pé, entre as 14h30 e as 20h, motivado por uma série de convicções, combinadas à esperança de que a noção de Justiça não seja confundida com a perseguição a um único partido, como indicia a sanha dos novíssimos heróis de araque, forjados por revistas e canais de rádio e tv que deixaram de fazer jornalismo há eras. Na volta para casa, após um ato marcado por música, democracia e paz, ria sozinho enquanto paneleiros iam se ocupar das pessoas que passavam sob suas janelas, na Frei Caneca. É curioso que parte dessa gente, que dá todo crédito àquela emissora de televisão, impe de orgulho ao se portar como "nacionalista" (que sonha em ser colônia dos EUA), "pessoa do bem" (que não hesita em ofender e linchar aqueles que se arriscam a andar sobre bicicletas vermelhas), "gente avançada" (que não vê retrocesso em privatizar tudo o que for possível), "classe diferenciada" (que não vê contradição em batucar panelas e debochar de todos aqueles que percebem as mudanças no país de um modo bem diverso). A cena mais estúpida aconteceu em frente ao Shopping Frei Caneca. Enquanto um grupo de manifestantes (pró-democracia) respondia às provocações que vinham das alturas, com a pulsão das ruas, "Não vai ter golpe!", um consumidor caiu na própria armadilha: "Vai ter golpe, sim!"... Coincidência ou não, ele gritou apenas uma vez, o que talvez demonstre a asneira do que anda repetindo como se fosse pensamento legítimo e seu. Vamos ver se a sede de tirar o partido do poder condiz com uma ótica imparcial do pega-ladrão. Se esse tipo de gente estivesse motivada por princípios, já teria notado o personalismo de seus atos e os discursos proferidos por heróis de fachada, especializados em fechar boca, olhos e ouvidos, ao falar de seus aliados políticos. Voltemos a vestir vermelho. Voltemos a nos municiar em bons livros de história. A maior luta está nas ruas. Paulo Henrique Morim parece ter corrigido Lima Barreto, cem anos depois: a imprensa não é o quarto poder; é  o primeiro.

quarta-feira, 16 de março de 2016

Manifesto Universitário

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Contra a autofagia institucional: cultural, econômica e social. Se ser humano é conceito ultrapassado, que os robôs tomem o assento dos tecnocratas que regem: receita de Henri Lefebvre. Em defesa dos estudos sobre ler, escrever, contar e dividir. Contra a régua milimétrica das mega-especializações. 
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Contra a apatia propalada como remédio. Se lecionar literatura é ócio improdutivo, relembremos aos homens gerenciais que tanto a filosofia quanto a medicina nasceram na Grécia. Pelo espírito solidário e combativo, marchemos sobre o Campus.
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Contra a sanha produtivista que julga definir o que é ou não útil. Pela proscrição da palavra "serventia", nos ambientes em que a inteligência e a liberdade prevalecem sobre o gosto de estabelecer metas, prazos ou escalar intermináveis rankings.
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Contra os egos inflados, cegos pelas preocupações ministradas cotidianamente sob a forma de pareceres banais, bancas insossas, relatórios de minudências jamais lidas, participação de eventos em que todos falam mas ninguém se comunica. 
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Contra a sanha dos certificados, que tomaram o lugar do que se efetivamente disse, pintou, compôs, operou ou escreveu. Pelo gosto de gritar politica!, sem receio de ser tomado por ingênuo, idealista, utópico e sandeu. 
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Contra os detratores da universidade, donos de linguagem portentosa e cínica, a disfarçar ruínas com o heroísmo magro das cifras. Pela dessacralização do mercado e a destituição da velocidade como fator de atividade preponderante. Nem canibalismo, nem a falácia do bem-estar-social, invariavelmente exclusivista.  

Piratininga, há um quarto de século sob a indi-gestão dos privatistas 
que se autoproclamam homens melhores: homens de  bem. 

terça-feira, 15 de março de 2016

Pixies

Ontem, em meio às coisas do dia, resolvi escutar o álbum Doolittle, dos Pixies -- obra prima do pop rock de um grupo, classificado no final dos anos 80 como "guitar band", que fazia música "alternativa" (ironicamente tocada frequentemente nas rádios "comerciais"). Minha faixa preferida (a n. 11) traz uma das melodias mais bonitas que conheço. Não sei se, por efeito da lua (que não vi), do conhaque (que não bebi), ou dos rumos que alguns (des)entendidos têm dado à Universidade, o fato é que escutei o CD muitas vezes, em particular Number 13, baby. Repitamos, repitamos, repitamos: "I'm in a state"! e, em seguida, ouçamos Surfer Rosa

quinta-feira, 10 de março de 2016

Contorcionismo de corredor

O sujeito passa lá, uma penca de semestres com o mesmo professor. Mostra-se atento e sorridente, na maior parte das aulas (e mesmo, fora delas). Eis que, findo o período letivo, passa a executar a estranha ginástica do desprezo: olha fixo para o além; desce ao chão para amarrar o cadarço pela terceira vez; contorce pescoço, tronco e membros na direção contrária ao do transeunte. Em sua defesa, alguns dirão que se trata de timidez crônica; outros jurarão que o elemento "não enxerga, mesmo, muito bem" (aproveitando cá o verso de Caetano Veloso. Quem?). É curioso como evitar o outro parece eximir o contorcionista de fazer a ginástica mais difícil: um exame crítico de si mesmo(a). Costumo dizer que os alunos contam com um diferencial em relação às pessoas comuns (extra-muros): além do dinheiro e do sexo, eles ainda dispõem da nota como motivação para fingir interesse e estudo -- o que nem sempre implica aprimorar a sua personalidade ou a qualidade do que fazem, evidentemente. Tsc, tsc.

domingo, 6 de março de 2016

Lição de Nabokov

Em 2009 li, numa fotobiografia sobre o escritor Vladimir Nabokov, que em suas aulas inaugurais de Literatura, ministradas nos Estados Unidos, ele principiava o seu curso desta forma: "Por favor, não disfarcem ignorância com arrogância". Quem leciona, ou lecionará, certamente deparar-se-á com alunos que agem de modo nada recomendável, em termos de educação (coisa que se aprende nas boas casas) e humildade (algo que se refere à consideração pelo outro e por suas formas de atuação). Não bastasse a imagem depauperada do professor; não importasse o fato de que seu trabalho envolve a longa preparação de uma aula e a carência de boa parte de seus alunnos, volta e meia o educador precisa contar com perguntas impertinentes de estudantes sádicos (e vazios), cujo prazer maior reside na forma como dirigem petardos verbais ao mestre, preferencialmente em público. Um questiona o que falamos sobre os jesuítas, supondo que sejamos adeptos do anticristianismo (embora o credo não estivesse em questão, durante a aula); outros sorriem altivamente, enquanto questionam coisas sobre as quais sequer têm interesse. A humildade é o primeiro degrau que o bom aluno ou pesquisador deve escalar. Agora, se o professor é visto pelo aluno como um ser rebaixado; se o assunto da aula não é de seu interesse; se a docência ou a pesquisa não estão em seus planos, quais as razões para o aluno desprezar o mestre ou fingir interesse que nunca teve?   

quarta-feira, 2 de março de 2016

A menina que molhava livros

Ora, ora: a humanidade bem que pode nos supreender, a despeito de sabermos que nada de muito novo se pode criar em nossos dias. Ontem, entrei na Martins Fontes simultaneamente com uma jovem (estudante universitária, possivelmente) que fez uma das perguntas sintomáticas de nosso tempo. Como chovesse -- e o ser, dito humano, costuma se proteger das gotas celestiais -- ela perguntou a um dos atendentes se ele disporia de um livro que a abrigasse da chuva. A princípio, julguei ter ouvido mal. Nem chovia tanto. Além disso, que mal há em apanhar umas gotas d'água, considerando que estamos sujeitos a violências muito piores, praticadas cá na Terra, mesmo? Passei um bom tempo ruminando a pergunta que a garota fez. Poderíamos pensar: "afinal, que mal há em se abrigar da chuva?" Mas qualquer resposta que eu cogitasse redundaria no mesmo: qual o papel do livro? Começo a acreditar que o ato de ler é uma demanda utópica. Quisera eu que essa jovem desinformada (símbolo de uma geração de sujeitos superficiais, desatentos e desinteressados) fizesse do livro um guarda-chuva metafófico contra intempéries outras: o desprezo pela palavra e por tudo aquilo que já foi escrito. Quanto a mim, voltei em companhia de Paul Veyne (Pão e Circo) e  Sigmund Freud (Estudos sobre a Histeria). Devidamente protegidos da chuva, claro esteja.