domingo, 17 de abril de 2016

Militância às avessas

O que leva um espectador de tênis, em Miami ou Monte Carlo, a vociferar contra o nome da Presidenta do Brasil durante games e lances decisivos? O que autoriza um comentarista impertinente, que lastreia o seu discurso fora de hora com lugares-comuns (em defesa do dinheiro como valor universal) a tecer observações que nada dizem respeito ao jogo, além de sentenciar: “viva os ricos, pois são eles que permitem o acesso dos pobres à classe média”? O que leva uma revista nada imparcial a supor que seja “os olhos do Brasil”? A que país ela se refere, mesmo? O que leva um jornal, que diz contabilizar 20 milhões de assinantes, a sequer disfarçar a sua torcida em favor do impedimento? Desde a reeleição de Dilma Roussef, assistimos a um bando de políticos mimados e hipócritas (que se dizem oposição) blindados pela “grande” imprensa (nada neutra), a professar lei, ética e responsabilidade, apesar de manterem seus nomes na lama, sonegarem impostos e agirem de acordo com suas vontades muy particulares (e jamais em defesa do povo, como bem padecemos). Os jornais agirão de mesmo modo fiscalizatório, ao vigiar escutas telefônicas e ao esquadrinhar as ações de um eventual novo governo defensor do estado mínimo e de exceção? Suponho que não. Para afetar o gesto democrático, botam uma voz dissonante (ou seja, de esquerda) em meio a diversos comentários classistas (a justificar os antigos privilégios da elite). A imprensa subestimou seus leitores e telespectadores, atirou uns contra os outros e, no fim, pretende dizer que um único partido terá dividido o país. Ora, o Brasil sempre foi dividido, histórica, cultural e socialmente: mas quando metade dele passou a defender outra conduta e novos direitos, o discurso de jornalistas, comentaristas de tênis e políticos hipócritas inverteram a charada em seu favor. Sejamos implacáveis ao avaliar o discurso e as atitudes de todos os que vierem. Qual o mérito ético, social e político daqueles que atropelaram a democracia em nome de uma guinada à direita? A imprensa, as emissoras de rádio e televisão e a maior parte dos políticos continua a agir de modo subserviente em determinação às ordens e intervenções do poderoso Tio Sam. Cinquenta e dois anos depois de outro golpe, assistimos à banalização do debate, como se a política se reduzisse a polarização entre adversários, num país em que a classe média tradicional e a elite (financeira) confundem nacionalismo com estadunidização; verde-amarelismo com negação do passado e da voz concedida aos menos favorecidos, nos últimos doze anos. Mas, não nos preocupemos: independentemente do resultado desta sessão espúria (embalada por seu coro de cínicos) os Estados Unidos já disseram que o Brasil não corre o risco de "venezualização" (aspas do jornal). Eis o aval para nos sentirmos mais patrióticos e soberanos, Tsc, tsc.   

sábado, 2 de abril de 2016

(Pré) Aula

Sábado, cedo: dia de ampliar leituras de e sobre Bento Teixeira (1561-1600), poeta judeu luso-português que andou dando um bocado de trabalho para o pessoal da "Santa" Inquisição (ao som de Marsheaux: incrível dupla grega que descobri há poucos anos). Há que recriar o ânimo mais otimista para prosseguir no ofício de professar aulas. Comecei a lecionar português e matemática em 1999, para um grupo de funcionários do Instituto de Biociências da Universidade. Em 2002, passei a dar aulas em uma ONG e um Curso Pré-Vestibular. De lá pra cá, estive em cursinhos comunitários, colégios e faculdades. Volta e meia relembro dos termos com que Roland Barthes descreveu o seu trabalho no Collège de France: "pesquisar e falar". Um coordenador me ensinou que "o bom professor é aquele que prepara sua aula". Posso afirmar que nunca investi tanto tempo (e dinheiro) nas tarefas que antecedem as aulas, como nestes dois anos na Escola de Comunicações e Artes -- no honroso lugar de Ivan Prado Teixeira. Tais leituras e estudos, por sinal, ligam-se ao excelente ensino que tive na Faculdade de Letras, entre 1995 e 1998; às aulas de literatura brasileira e portuguesa que ministrei no Colégio da PM, entre 2007 a 2010; e, mais recentemente, à penca de concursos públicos a que me submeti, com maior chance de êxito entre 2013 e 2014. [Nas últimas semanas, tenho assistido sistematicamente a jogos de tênis protagonizados por notáveis esportistas. Além de comprar minha primeira raquete (Federer), não pude evitar a analogia com o fato de que tenistas e professores devem agir feito profissionais, para o bem de si mesmos, do esporte e de seu público]. Que os (bons) alunos reconheçam a fome de bola de seus professores, especialmente aqueles que recolocam em jogo o ensino que investiga, esmiuça e liberta. Se eu fosse jesuíta, repetiria o ensinamento inaciano de que a boa palavra deve se casar ao melhor exemplo. Que o auditório contenha corações e mentes férteis e curiosos pela redescoberta de grandes figuras das Letras praticadas nos Estados do Brasil e do Maranhão e Grão-Pará.