quarta-feira, 15 de novembro de 2017

Inexprimível?

Se quiseres definir "amor", à primeira dificuldade dirás: "ah, não se explica; só se sente". Repara que, nem por isso, os sábios deixaram de descrever o aspecto de quem o experimenta, tampouco dissecar seus múltiplos sintomas. Empédocles disse que o amor soma; o ódio subtrai. Afirmava o Kama Sutra que o sexo dispensa o amor; mas não o contrário. Nos Cânticos de Salomão, marido e esposa ressentem a união e a despedida; Nos sonetos líricos, Camões emula Petrarca, para formular o afeto sob a forma de antíteses. No segundo volume de Dom Quixote, o cavaleiro observa a Sancho Pança que amor e poder são as "duas maiores forças" sobre a Terra. Antônio Vieira explicou, no "Sermão do Mandato" (1670) que o amor "naturalmente une; mas se é excessivo, divide", no que reverberou Platão e Santo Agostinho. O excesso redunda em morte. O ciúme matou o amor que Bentinho Santiago talvez nutrisse por Capitu, no que imitou o gesto de Otelo, três séculos antes. Um narrador de Lima Barreto assegurou que "a doçura é a maior força da Terra". Sigmund Freud disse, em "Mal estar da Civilização", que o custo da civilização era a contenção dos desejos. Dave Gahan suplicou, em "Stripped", que a pessoa se afastasse da cidade, desnudasse "até os ossos" e "cantasse apenas para ele". Bono Vox disse, em "Bad", que se pudesse, se conseguisse, deixaria as coisas seguirem outro rumo. Em "Clocks", Chris Martin indefine a mulher ("You are") -- forma bem mais inteligente que relatar minudências chorosas e pueris, a exemplo de uma penca de cantores ditos "sertanejos universitários". Quanto a mim, disse incertas vezes que água demais afoga; terra demais resseca. Convenhamos, rediscutir o tópico não mudará as nossas vidas, mas talvez valha como exercício mental.      

segunda-feira, 13 de novembro de 2017

It's not a garbage!

Conheci o som da banda Garbage no final da década de 1990. Àquela altura, eles haviam lançado dois álbuns (Garbage, de 1995; 2.0, de 1998) e eu ficara bastante impressionado com a qualidade do pop rock/alternativo/hip hop que eles produziam.
De tempos em tempos, boto os CDs para rodar ou acesso a alguns de seus clipes no YouTube. Decorridos alguns meses, a sensação de escutar “Stupid Girl”, “The trick is to keep breathing” ou “Cup of Coffee” (esta, do Beautiful Garbage) é ainda impactante. Afora as belas melodias e complexos arranjos do grupo, a belíssima voz de Shirley Manson e a postura da banda, sob o palco, transborda entusiasmo.
Não costumo esperar pela semana final do ano, para percorrer uma viagem interior. Tenho agido dessa forma há muito tempo (salvo engano, desde os vinte e poucos…). Significa que começo a prestar mais atenção a mim mesmo, às coisas que disse (ou calei) e as atitudes que tomei ou suspendi em novembro – espécie de "mês quinta-feira", se o ano se resumisse a uma semana tida por atarefada e útil.
Na imersão deste 2017, topei com versões raras de diversas bandas, conheci grupos novos, recordei letras de algumas músicas e me deparei com um livrão que traz a biografia do Garbage, escrita em parceria com o jornalista Jason Cohen. Estiloso, em capa dura, e recheado de fotos e depoimentos dos meninos grandes, a biografia começa da melhor forma: a mãe de Douglas Erikson, além de Shirley Manson, “Duke” Erikson, Steve Marker e Butch Vig, registra(m) suas impressões sobre a banda e seu papel nela. 


A chegada do livro, hoje pela manhã, fez-me celebrar o dia com maior alegria ainda. Suspeito que deixarei de fazer muito do que estava em meio (anotações nos TCCs de meus orientandos, leitura de uma tese sobre Guimarães Rosa, escrita de um ensaio sobre Saramago, interpretação de algumas linhas do Garbage no baixo etc), afinal “it’s always Garbage time”!

sexta-feira, 29 de setembro de 2017

Arte de Acolher


"War, children, it's just a shot away

It's just a shot away" (The Rolling Stones)



"Dar guarida" é expressão de alguma beleza e sentido, mas desgastada pelo tempo que, dentre outras coisas, tornou-nos menores, mais exigentes e incertos termos piegas. Vá lá, cogitemos em um sinônimo atualíssimo... Pronto: "acolher". Está bem, assim? Muito obrigado. O senhor é muy gentil.
Afora a questão semântica, pense cá, Quando eu lecionava na Fatec São Caetano do Sul, costumava dizer aos alunos (e colegas), dentro e fora da sala de aula, que acolher os estudantes é tarefa primordial da instituição de ensino dito superior.
Disse e repeti isso ao longo de cinco anos (ou dez semestres), três, quatro vezes por semana, para todas as turmas (ADS, Jogos, Secretariado e Segurança da Informação), onde vendia barato aulas de Língua Portuguesa (I, II e V), Comunicação (I e II) e Ficção Interativa. 
A partir de abril de 2014, percebi que "dar guarida" continuava sendo uma questão importante, também na universidade. Persisti em dizer o mesmo, de outras formas. Há que se investir parte do nosso tempo e energia na acolhida aos estudantes. 
Porventura, alguns verão nisso atitude brega e demagógica; outros, populismo rasteiro e antiacadêmico. Pouco importa. Há que se abrigar os alunos: não podemos nos furtar a servir como eventual referência para eles. Nisso não entra pretensão; apenas obviedade. 
De nada adianta pensar no que fazer, quando eles deixarem a universidade. Acenar de longe é dizer adeus duas vezes. Não confundamos sala de aula com doutrinação mercadológica. 
Que eles vejam, em nossa companhia, oportunidade de refúgio ao senso comum e à padronização. É bem verdade que corremos o risco de não sermos levados a sério, ou que confundam o nosso papel de professor/orientador. Será a oportunidade de dizermos aos nossos alunos: discernimento também é saldo da aprendizagem.

Epístola para Bel

Salut, dear friend!

Salvo engano desta parte, não nos falamos há cerca de um ano: muito tempo de ausência e espera, se considerarmos os longos bate-papos pseudofilosóficos e psicanalíticos (vulgos “desabafos”) que alternávamos nos arredores do Campus!
Você está bem, né?
Digo... apesar de. Esse lance de que me falou, de que nosso país anda ácido e a situação tem afetado a saúde da gente. Pois é, ora se não (putz, agora me dei conta de que empreguei uma interjeição com potencial polemista…).
Oh, my dear, vamos pensar em algo para você se sentir melhor ainda? Digo já. Almoço, dia desses, pretexto para colóquio com café. Da outra vez, tomamos aquele orgânico na Nestor Pestana. Local exclusivo, já que não voltei lá (será o lugar para futura prosa, quando estiver por cá).
Antecipei há minutos, via whatsApp, o que ora registro, lavro, REALÇO em “epístola informal” (seria um paradoxo, segundo os tratados de Ars Dictaminis da Idade Média e além): nossos diálogos fazem falta. Acho, mesmo, que a vida sem determinadas(os) amigas(os) é manca (penso naquele verbo bom do Francês, “manquer”). Se bem que Eugênia era coxa e nem por isso deixou de chamar a atenção do Brás Cubas…
Conte-me, lá, as suas novas, ainda que sejam breves jornadas recentes que experenciou. Da banda de cá, sede de narrativa alheia. Serei fuxiqueiro? Tese para acordar, inclusive, os bois. Continua fazendo pães? Como estão as ruas da Pompeia? (estivéssemos em outro tempo e isso seria questão tratada entre missivistas helenistas, hã?). E o estádio do Pacaembu? Continuará do povo?
Olha que curioso: “hã” me fez lembrar que você inventou a alcunha “Jã”, quando discutíamos questões mais extensas, via e-mail. Bons tempos! Mantenhamos a história em curso, afinal ela não morre. Prova disso é a possibilidade de cruzar micro-histórias, feitas de gente miúda, feito nós.
Aceite, lá, essas palavrinhas de cont(r)ato: Quiçá equivalham a energia e meia. E se tiver que mirar o horizonte, meio nublado pelo vapor vítreo, faça e pronto! Dentre outras coisas, você me ensinou que “a lágrima é aguinha santa”.

Força, resistência e beijo, querida amiga.

JP (29.IX.2017 d.C.)

terça-feira, 26 de setembro de 2017

Emulatio

Toda grande obra, ou mesmo toda obra que impressiona, funciona como uma obra desejada, mas incompleta e como que perdida, porque eu não a fiz eu mesmo e é preciso reencontrá-la, refazendo-a; escrever é querer reescrever: quero juntar-me ativamente ao que é belo, no entanto, me falta, me é necessário” [Roland Barthes].1







O homem, que aí vês, deve orçar pelos quarenta e poucos anos. Diz-nos a barba que branqueja, a fronte que avança, o cabelo que migra de um matiz a outro. Atenta para a roupa com que se reveste, encontrada em alguma loja de departamentos. Sentou-se, não fez nem um minuto, e já mira a avenida como quem acaba de conceber nova ideia. Leva ao colo uma espécie de maleta revestida com epiderme bovina, dessas que os médicos de outrora carregavam; ou pasta semi executiva, comum a bacharéis, advogados – que se veem ainda hoje, nas imediações do Largo – que de se franciscano não tem muito, haja vista o discurso empolado dos doutores, a indumentária com fumos de fidalguia anacrônica, o modo ora lento, ora agitado, de deambular. Para descobrir o objeto e o que nele vai, há que devassá-lo. Ao narrador, permite-se metamorfosear-se em lepidóptero, relativizar a verossimilhança e sugerir que em voo, por demais habilidoso, o inseto ultrapassasse barreira humana (braços cruzados), frincha do zíper e alça, e lá adentrasse. Já cá estamos. De um lado, Agatha Christie; doutra banda, José Saramago. Mais adiante, um estojo de lápis, a seguir este outro, para os óculos; dois molhos de chave no bolso lateral; na divisória, celular; no outro compartimento, carteira. Por detrás dos livros, façamos reparo, uma relação de nomes e códigos. A hipótese é outra: será professor – pessoa que lê por prazer e ofício? Mas, dizia dos olhos. De súbito, a visão abandona as ruas e se fixa, vez ou outra, na mulher que rascunha mentalmente. Imagina que ela esteja a sua frente e os pontos de vista se cruzem, até o relativo pudor desviá-los. Sentados defronte, a catraca de permeio, cores que uma viu, o outro percebeu; e o que este disfarçou, aquela sorriu. Decodificação fisiológica, atração pelas formas e um desejo, porventura mútuo, de som. (continua)



1 A Preparação do Romance, Vol. II. Tradução: Leyla Perrone-Moisés. São Paulo: Martins Fontes, 2005, p. 14 (grifos do autor).

sábado, 23 de setembro de 2017

O Urso

Sábado, 23 de setembro de 2017 d.C., 11h01 da manhã.
Minha filha e eu nos encontramos na catraca da São Bento, rumo à Ladeira Porto Geral, dobra a esquerda, 25 de Março, pula uma rua, loja de brinquedos pequenos e máximos.
O trajeto é entrecortado por gente de todas as etnias, vozes, roupas e jeitos. Vamos nós, eu mais ansioso que ela – mais curiosa (“O que é, pai? Ahhh…Não vale!”). Digo, sorridente: “Acho que é...É aqui!”. Adentramos e eu, ao longe, tinha avistado uns bichos grandes na parede da esquerda. Daqui a pouco é a vez dela, boquiaberta e, agora sim: tão ou mais sorridente que o pai nerd.
Driblando gentes, vamos nós, a tatear pelúcias de vária textura. Ela logo se encanta por um big urso, virado em cabeça. Tira do nicho, abraça como se fosse um velho amigo nosso. Mas, assim não era possível: agora driblávamos parados. Paradoxo que só o consumismo de sábado permite.
Deixamos a muvuca e nos posicionamos em um ângulo de, mais ou menos, 45 graus. Segundo estágio: raciocínio (“Pai, tava pensando, se levar o branco, suja muito, né?”). Voltamos à trincheira inicial, logo embaixo das prateleiras com mais de metro de altura.
Então miramos um mesmo urso. Marrom escuro, com cara de bonzinho, vá lá, vocês entendem o que quero dizer... O vendedor (“eu me chamo Leo”) se oferece para ajudar. Retira esse. Minha filha cogita levar o irmão, cor de rosa choque. (Intimamente, torço para que não). E ela fica com aquele de que mais gostei, também.
Digo a ela o que aqui registro: estava devendo um urso de pelúcia grande desde que você era criança.
De lá, subimos até a São Bento (acesso da mesma Ladeira), saímos no Largo e almoçamos no Bom Gosto. Tiro o ursão da sacola e o posiciono para almoçar conosco. O atendente gargalha e sugere que, para ele (o urso marrom com cara de bonzinho) foi bom respirar um pouco, fora da sacola plástica. Rimos todos. Tirei até foto do bichão, antes que ele se atracasse ao copo e ao prato (fazia calor e ele deveria estar com fome, pois não hibernava).
Conversamos sobre Deus, dogma, murmúrio sobre os militares no Brasil entreguista e corrupto. Também discutimos romances pós-utópicos. Ela me conta mais detalhes da sua casa nova, que ainda não conheci. De lá, seguimos pela rua São Bento até a Saraiva. Topamos com um livro do George R. R. Martin de capa dura, em promoção. Como havíamos mencionado Saramago, dou-lhe O Evangelho Segundo Jesus Cristo, ao que ela se indaga: “Pai, você acha que leio?”, enquanto folheia as páginas. Respondo que sim, a título de entusiasmo: Se você passar por esse, aguenta qualquer um dele. Ah, bem, tem o Memorial do Convento, que é mais difícil…
Na rua São Bento, estamos a trinta passos do Largo do Patriarca. Proponho: Estamos no meio entre a Sé e o Anhangabaú. Por onde vamos? Ela responde, taxativamente e ensacolada: “Onde não tiver sol”. Subimos a rua Direita, viramos à direita, de novo, antes da praça (percorremos Senador Feijó, Benjamin Constant etc).
Como o café estivesse fechado (e ela nem poderia tomar, mesmo), recuamos. Passamos na Livraria da Unesp. Saio de lá com os Fragmentos de Friedrich Schlegel (que é excelente uso em aulas sobre Álvares de Azevedo, Byron e Musset).
Fecha a livraria. Descemos até a esquina seguinte: Uma água sem gás e uma com gás, por favor. Mortos de sede. Minha filha comenta a quantidade de sacolas a levar. Vamos para a Sé, em busca de uma saída aberta. Lamentamos a condição dos miseráveis e a cegueira generalizada. 
Ela ultrapassa a catraca com uma parte das coisas; revezamento de mochila e sacola. Despedida.
Espero que o urso goste de sua nova morada. Lá ele será amigo da gata Alice (que não é de pelúcia) e descansará no sofá, feito rei.

sexta-feira, 22 de setembro de 2017

Copy Left Letter to Ricardo Baitz

Copy Left Letter to Ricardo Baitz


Pauliceia, 22 de setembro de 2017, d.C.


O JUIZ – Esperai! Esperai a sentença […] Vamos ver. De-vo-ta-men-to… Pu-ri-fi-ca-ção! Adiante!” (ANDRADE, aquele, Apud BAITZ, este).1


Caríssimo amigo,


Hoje sucedeu uma jornada de muitos (e) bons encontros: um simpático taxista, de manhã; um grupo de alunas do curso de Editoração2, que me falaram sobre o blog da Estante Virtual; o pessoal da cantina das Letras3; um café com um grande machadiano4, para ajustar detalhes sobre uma aula que darei aos alunos dele, por lá, sobre “Teoria do Medalhão” (Machado); uma conversa sobre Umberto Eco (cultura) e Murray Schafer (paisagem sonora) com a capitã5 do CELLP; um pedaço da aula de uma colega da UERJ6, convidada por uma grande estudiosa do Romantismo7; velhos e novos colegas/amigos8, durante uma mesa sobre literatura lusófona e, minutos antes do evento, o evento outro, que foi revê-lo e ganhar a segunda edição do seu belo ensaio9 sobre Oswald, aquele.
Como lhe antecipei, via mensagem celularística, devorei os paratextos todos – prefácios (de editor, autor e analista institucional), posfácio(s), direito de reprodução de um exemplar na forma impressa, ilustrações, diagramação, tipo de papel e fonte. Isso tudo grifado e anotado à margem (fosse ela direita, esquerda ou terceira10): desde que vendi o carro, tenho aproveitado melhor as viagens de ônibus.
Falo sobre o livro (melhormente, do teor que vai nele ou ele aporta). Começo pelas orelhas: a doçura de uma, o teor didático da seguinte. Menciono o formato inusitado (e, nesse sentido, oswaldiano/baitziano do livro): 21,1 X 14,8cm.
O que de melhor lá colhi sobre Oswald: “sempre foi um leitor contumaz e um homem de campo” (p. 13), o que me lembra o método de Guimarães Rosa de anotar em cadernetas para compor contos e Grande Sertão: Veredas; o papel de um “verdadeiro editor”, qual seja, “trazer a público bons escritores e suas ideias” (p. 14). A conclusão de que, ainda hoje, “o escritor realiza um trabalho intelectual, e trabalho intelectual – ou imaterial – não é percebido como algo sério em uma sociedade que privilegia o trabalho material” (p. 18); a intenção de Oswald em reformular a ABL, de maneira a justapor autores consagrados e novatos – no que o paulistano arejaria o ar catedrático e rotineiro dos chás com pompa (p. 19); a sua aproximação com Oswald, ao questionar a grade, o método de ensino e a suposta crença na infalibilidade (e legitimidade) das leis que um e outro (des)aprenderam em cursos de Direito (p. 24); a suposição, tomada de “um filósofo francês” de que “a análise mata” (p. 25). Aqui, uma provocação: no campo da Psicanálise, é a análise que, em muitos casos, permite surgir um novo sujeito, curado pela própria palavra, colocada sob a lupa do interlocutor (tão neurótico quanto o falante), diria Freud. No campo das Letras, a análise tanto pode salvar quanto sepultar uma obra... Para voltar ao filósofo a que se refere (Lourau? Não o identifiquei), que tipo de morte a análise implica? Questão a mais ver.
Continuando. Agradeço-lhe pela dupla menção a este “amigo formado em Letras”. [É curioso… como o diálogo se estendesse para além da sessão de comunicações, de hoje à tarde, uma historiadora (que cursa uma disciplina optativa comigo) perguntou-me: “você é daqui?”. – Sim, sim, respondi --  Esse negócio de manter um pé em cada unidade é muito interessante…]
(De volta ao livro, perdão) A seguir, sua carta “desaforada” para aquela comissão editorial, que não aceitou o seu artigo [“O Método de Oswald de Andrade”, agora reeditado] e, como também lhe disse, na ocasião: eles é que perderam. Ganhou a Revista FronteiraZ, da PUCSP – veja, só, na mesma casa onde você se (de)formou em Direito, com direito à licença da OAB e, a meu ver, o fortalecimento (por contraponto) da sua concepção dialética materialista e histórica. Você tem razão, outra vez: “o alcance [das revistas eletrônicas] é mundial, mas o público leitor é ínfimo” (p. 29).
Como havia lido o seu artigo original, e seguindo o seu conselho, deixei para relê-lo amanhã. Estou no Posfácio e deparo com esse depoimento sentido do Oswald: “O que desconcertava meus adversários é que minha literatura fugia ao padrão cretino então dominante. E chamavam isso de ‘piada’.” (p. 73). Veja, só, esse tem sido um dos temas para onde convergem minhas energias "de" ler e escrever. Contrapus, recentemente, o poema-piada de Oswald de Andrade, Juó Bananére, Emílio de Menezes, Murilo Mendes (do início, mais corajoso e irreverente) à postura “boa-mocista”, carola, nacionalista, que viu “Barroco” em Minas, supondo movimento de avant-garde no século XVIII, e foi “papa-sarau” de gente graúda daquela turma capitaneada por Mário (adotada e institucionalizada pela própria USP).
Minha admiração ao Oswald começou em meados de 1995, repare, dois anos após você tomar contato com ele (1993)! Mas falo, ainda, sobre as citações do seu livro, porque agora chega a ocasião de um pretenso gran finale…
Quantas bancas compusemos? Respondo já: 26 (até que os “donos” institucionais e das gentes, incomodados com o fato de que um pessoalzinho de “Humanas” tivesse mais respaldo e credibilidade que quaisquer muitos, implodissem o sistema [mais ou menos “democrático”] que eles mesmos haviam formulado. Motivo para mais rir alto, como diria o narrador Riobaldo). Quem quiser faça a conta das mesas-redondas que enquadramos, dos alunos que aconselhamos e das conversas que construímos – com direito a perguntas de ida e vinda, de uma sala a outra, no pavimento “inferior”.
A exemplo de Oswald, enfrentamos muitas touradas com a mesma capa (ou toga, conforme o grau de solenidade), com a vantagem (nossa) de tê-las realizado em parceria (e não isolados, contra um mundo de pseudoliteratos, como o foi o caso dele, oh, Oswald).
Mas, pera aí… Estou retardando o anunciado gran finale! Aí vai:
Em muitas bancas, disse a você e seus orientandos que percebia, na escrita deles, a dicção do professor. Agora, volto a lhe dizer (retificando a nota n. 19, p. 29) que na sua fala há muito da voz oswaldiana, mestre de todos nós, anti-institucionais. Não sei se equivale a um elogio, mesmo porque transparece, desde sempre, feito constatação. Mas antes que você me contradiga, com a hipótese de que sujeito e objeto são categorias estanques e bem pouco interativas (já que um pressupõe emancipação de si e inferiorização do que reifica e congela), digo melhor.
Assim: lendo Ricardo Baitz ouço Oswald de Andrade. Será honesto e, porventura, facultará o movimento perpétuo entre o seu presente e o dele, sem esquecer dos pretéritos, que os subjazem, e o devir.


Um abraço fraterno.


J.P.C.
1Paradoxal o uso de “Adiante”. Da boca de um juiz medíocre para o pensar de quem contesta o legalismo.
2A mãe de uma das alunas viu uma entrevista minha sobre Agatha Christie, no blog.
3Não menciono seus nomes por não sabê-los todos.
4Hélio de Seixas Guimarães.
5Marinês (forma pela qual a conheço).
6Andréa Sirihal Werkema.
7Cilaine Alves Cunha.
8Daiane Cristina Pereira, José Carvalho Vanzelli, Kouassi Loukou Maurice, Penélope e Ivânia.
9Ricardo Baitz. O método de Oswald de Andrade. 2a ed. São Paulo; Editora Tiragem Livre, 2017, 96p. ISBN: 978-85-92900-01-4.
10Aludo ao notável conto “A Terceira Margem do Rio”, de João Guimarães Rosa.

quarta-feira, 13 de setembro de 2017

Como Buscar um Livro

1. Encomende o exemplar recomendado por pessoa de confiança (seja ela de osso, seja de papel)
2. Certifique-se de que há bons cafés perto do sebo (seja para tomar um coado, seja um expresso)
3. Cumprimente as(os) antendentes e, de pronto, diga o nome do autor e/ou título do volume
4. Não deixe a loja sem consultar as demais sessões
5. Carregue o livro com a capa virada para a multidão
6. Peça um café para saborear o novo artefato duplamente
7. Compartilhe a mais nova aquisição com leitores em potencial
8. De volta à casa, cheire, manuseie, percorra capas, lombada e orelhas com os dedos
9. Folheie o interior: ficha catalográfica, sumário e colofão
10. Deposite-o na estante ao lado de outras obras do mesmo autor (ou de seus rivais teóricos)

domingo, 10 de setembro de 2017

Ut Pictura Poesis

Chamava-se Juliete Roinat Chauvin. Muitas vezes, quando visitava meus avós em Garibaldi, descia até a "cave" (porão) e me postava silenciosamente ao lado dela, enquanto pintava. Ninguém lá ia: um local úmido forrado de brita. De lá escutávamos os passos da família, as imprecações de quem estava a jogar cartas com o marido, Jean Alphonse. Vestida com o avental, cheio de cores difusas, Juliete sorria de soslaio, ajeitava os óculos e, caso eu perguntasse, explicava algumas técnicas de autodidata ("assim a gente faz o rio", "assim a gente faz as folhas das árvores", "este aqui no barco, quem é?"). Todos sabíamos: quando a voz de minha avó não se fazia ouvir, ou ela estava dormindo, ou na "cave", a representar retratos, equipada de tubos de tinta, paleta de madeira, pinceis de vário tamanho, removedor e pote d'água. Naqueles instantes -- longe da azáfama da cozinha, depois de recolher as migalhas da mesa de jantar com o verso das mãos, lavar e enxugar a louça, após colher vagens, ervas, cenouras e frutas no quintal -- a desejada solitude. Minha avó era calmaria e atividade em uma só figura: doce e compenetrada. Falava baixo, murmurava explicações, métodos do seu pintar. Era um neto pequenino; não havia lido Horácio, nem sabia que as escolas de pintores se classificavam de acordo com as épocas, estilos, gêneros, técnicas, dimensões, materiais empregados; tampouco o que era decoro. Eram momentos que não saberia exprimir, quando criança; que não sou capaz de versificar ou traduzir, enquanto pretenso adulto. Mas chamava-se Juliete Roinat Chauvin: Juliete, para Jean Alphonse; "mamã", para os filhos; "memê", para os netos. E tinha dois gatos malhados que lhe faziam máxima companhia: Minu e Minete. É bem provável que, em sua mudez, os felinos soubessem desde sempre o que não se pode representar em verbo e imagem. Quem contornasse a casa e mirasse as janelinhas do porão, avistaria uma senhora magra, de óculos quadrados e coque a apanhar os cabelos grisalhos bem no alto, em vestidos floridos e o mesmo avental, a tocar a tela com o pincel, pontilhando-a de árvores, estradas, charretes, rios, montanhas, pessoas, sois e luares. Chamava-se Juliete Roinat Chauvin e era minha avó. Pintava quadros com que presenteava a família -- alguns deles, há tempos, comigo. Não sou pintor, nem sei avaliar bem as artes plásticas, mas são meus quadros prediletos. Talvez emblemas a celebrar os vínculos que não explicitei, quando virei adolescente, o ego inflou e as palavras encolheram. Modos de carregar a minha avó, Jean Alphonse, tonton Raymond, tonton Claude, tia Nadi, tonton Robert, tia Miriam, tia Marta, os primos Kika, André, Dani e Filipe, meu irmão, meus pais, Pierre e Maria, a cadelinha "Pití", os jogos de bocha, as conversas filosóficas no "cabanon" (antigo galinheiro improvisado em reduto para meu tio Raymond), o ruído de cascalhos sob os pés de chinelos, a visita das borboletas às flores, os muros de pedra e cimento (que "ajudei" a mexer); as árvores que auxiliei a plantar; os legumes que colhi com minha tia; a lenha que busquei; os cadarços que aprendi a amarrar; os modos de segurar os talheres; o harmônio, onde assistia meus avós e visitas tocarem músicas lá de longe; os jornais da França para meu avô, que eu lia de curioso; o jogo de palavras cruzadas, disputados alegremente pelos tios, equipados com o Petit Larousse; os vinis da vitrola organizados na discoteca da sala (Verdi, Mozart, Beethoven e que tais), as poltronas amarela e turquesa, os sofás, os quadros na parede; o café, às seis da manhã, com generosas "tartines" recheadas de mel, geleia e manteiga -- o café, puro ou com leite, servido às seis da manhã por Juliete. Nos momentos em que ela mais desejava estar só, eu aparecia a fazer pequenas confidências e constatar o maior silêncio. Terá sido ela que me ensinou a apreciar a quietude, o sussurro? a contemplar as coisas com vagar e ficar na sombra, enquanto o alarde pisa o piche e as luzes inundam as janelas, os carros, as roupas de vinil, a maquiagem carregada? Diga lá que nome isso tem. Merci, "memê", et salut!

terça-feira, 5 de setembro de 2017

Circo X Barbárie

Sonhei que conversava com uma colega imaginária (mas de postura bem verossímil), num gabinete, em defesa dos funcionários da instituição; que a também professora, mais graduada na estrutura hierárquica, desqualificava o relato que eu fizera, supondo parcialidade.
Eu a contestava reafirmando que, sim, já havia conversado tanto com os funcionários quanto com outra professora (graduada), para resolver a questão. A douta hierarquizada, depois de se certificar (pela descrição) de quem era a terceira colega, disparou o segundo petardo: não gosto dela.
De súbito, a conversa – que era uma entrevista a portas fechadas, separando os debatedores por uma mesa estreita – tornou-se assembleia. Agora eu estava no fundo de uma pequena sala, com várias pessoas nas demais carteiras, e o que era diálogo tenso virou discussão.
Z e eu trocávamos farpas, até que precisei proclamar que era “de esquerda” (o que possivelmente explicaria o fato, ainda que em ambiente onírico, de eu defender outra categoria, que não a “minha”). No sonho, Z fez cara de desimportância, diante dessa fala inflamada.
Mas, então, a sala já era bem maior. De repente, para além das cadeiras, numa espécie de coxia ampliada, havia um monte de estudantes a carregar um jornal institucional e equipamentos de filmagem. Seis deles acenavam de longe: convite para gravar uma entrevista. Cumprimentei um ex-aluno (dos tempos de colégio ou Fatec, não me recordo) e os outros, dizendo “muito prazer”.
Acordei.
Qual seria o teor da entrevista? Que perguntas seriam enunciadas?
Acordemos...
...Ainda que seja para reiterar o óbvio: num pseudopaís em que quase todos viram a cara para os menos favorecidos, o papel do Estado é atuar justamente onde quase ninguém tem culhão nem vontade. Desde quando modernizar é excluir?

sexta-feira, 1 de setembro de 2017

Divórcio

Enviei, há pouco, uma cópia autenticada da certidão de casamento para a (ex) mulher – que já foi parte e contraparte – em que consta a averbação de nosso famigerado divórcio (julgado, aprovado e mandado registrar por um juiz desta Pauliceia). Doze anos após a Separação dita consensual (tão cordial que me levou a conhecer diferentes tribunais da vila de Piratininga, durante um ano e meio), aceito o conselho da advogada (“envie a cópia”) e saio dignamente desse pedaço estranho de historieta. Somos tão poucos e pequenos; mas as sensações podem ser maiores.
Coisa de somenos, bem o sei. Mas se me puser a contar o que sucedeu até o despacho da correspondência, via correio, talvez concordem que vivemos epopeias diariamente. Que os olhos do (a) leitor (a) suportem o relato e me digam, por obséquio, se os eventos a seguir podem ser considerados sintomáticos.
Após o equívoco cometido pelo cartório de Garibaldi (em uma transação que se esticou por semanas), enfim a certidão averbada chegou. Hoje, após o singelo café com pão, resolvi uma série de coisas em casa por e-mail. Pouco depois das 11h, saí para encontrar um amigo, dos tempos de graduação, no BH Lanches. No trajeto, fiz duas cópias autenticadas do documento (cartório da Frei Caneca), descobri outra agência fechada dos correios (Shopping Frei Caneca), postei um voucher para Dona Maria (agência da Matias Aires), retornei à Augusta, compartilhei o teor da certidão com o amigo, com quem também gargalhei, acompanhei-o até a Consolação (estação da Paulista), desci novamente em direção à agência (Matias Aires) e solicitei envelope. Balcão ocupado; segui para outro que dispusesse de caneta. A tinta falhou; voltei ao outro balcão, preenchi os campos Remetente e Destinatário e retornei ao caixa (número 9), que registrou o documento, cobrou o pagamento e desejou “bom fim de semana”.
No regresso ao castelo de 40 metros quadrados, mudei a rota de costume. Desci pela Bela Cintra, virei à esquerda na Dona Antônia de Queirós, à direita na Consolação; parei para tirar uma foto de ângulo raro. Na Maria Antônia, a título de celebração, comprei um sapato novo; então, driblei a alunada do Mackenzie e, dois lances de escada depois, sentei-me em frente ao note para escrever.
Os amigos efetivos talvez me dissessem que não haveria necessidade (nem mérito da outra parte) que justificasse o trabalho que tive para enviar a cópia autenticada da certidão – ressalva com a qual eu certamente concordaria (a solidariedade dos amigos faz um bem danado à gente). Mas, sempre que possível, exerço a manutenção das diferenças (quando o caso exige) ou da solidariedade (quando a questão demanda).
Quanto mais tripudiarem, mais civilizado serei; quanto mais odiarem, mais indiferente serei. Lição para nulo aprender alheio, mas re-estabelece a plataforma onde me coloquei, favorece o diálogo com as árvores mais altivas, em meio ao asfalto bruto, e sugere alguma competência deste pseudocronista, orgulhoso por reafirmar que ele caminha melhor sobre as próprias pernas. Certos nomes vêm do mar. Que retornem a ele, também. 

Planeta Terra, 1o de setembro de 2017 d.C., às 15h33.



terça-feira, 22 de agosto de 2017

"O Nazismo é de Direita ou Esquerda?" - Parte 2 (Intervenção)

Intervenção de Jean Pierre Chauvin [21.VIII.2017]

Boa-noite, Pedro. Reli o diálogo, muito bom, entre você e o Ricardo. Vi, na internet, a justa reação de nossos alunos em comum – que se disseram saudosos desses debates na Fatec. Ricardo e eu fizemos uma ótima dupla por lá, durante nove semestres. O trânsito de ideias ia, sem peias, de uma sala a outra no mesmo corredor. Propunhamos perguntas perniciosas que os alunos levavam de um para o outro e isso agitava as aulas. Durante os intervalos, sorríamos de tudo isso e tornávamos o pensamento ainda mais complexo. Isso não aconteceu em escolas e cursinhos; tampouco acontece na USP. Os egos inflados, a falta de tempo (e qualidade de vida) leva-nos a "cuidar" de nós mesmos e esquecer os outros. É a lógica que personagens marcantes da literatura desnudaram por diversas vezes, do Pequeno Príncipe a figuras tímidas de José Saramago; de Fernão Capelo Gaivota (e sua ética do não-trabalho) aos pseudofilósofos/pop de nosso tempo, chamado erroneamente de “pós-moderno” (conceito que nada diz, mas tenta ressignificar o "presente", supondo a morte da história, a anulação do espaço e a inércia. Quer dizer: se Aristóteles estivesse vivo perguntar-se-ia: onde estão as categorias que fazem uma boa narrativa? No cinema é que não estão. No cotidiano é que não se encontram). A questão que propõe tem "agitado" o pequeno grande mundo ciber há semanas (para não dizer há anos, já que, desde que o brasileiro se tornou um dos maiores usuários do Facebook) o pensamento binário, utilitário e intolerante passou a contagiar (ou contaminar) o ambiente. Ora, virtual quer dizer simplesmente o que está em potência, o que poderia vir-a-ser. E disso pouca gente lembra. Então, a questão é complexa, embora a explicação relativamente simples. A afirmação de que "o nazismo" seria "de esquerda" incorre ou em ignorância ou má-fé. Se for por ignorância, o susto é grande, já que bastaria assistir ao excelente documentário "Arquitetura da Destruição", para logo perceber que o regime instaurado pelo chanceler (e golpista) Adolf Hitler pressupunha a anulação das diferenças em nome da pseudociência (quando, se sabe, há décadas, que a questão era financeira: no século XX, os judeus eram donos de bancos e concentravam riquezas materiais etc). Se o holocausto fosse ético, os supostos arianos não teriam se apropriado das posses daqueles de quem retiravam toda a dignidade (como bem definiu o químico Primo Levi, um dos raros sobreviventes de Auschwitz). Evidentemente, uma parcela dentre os seres que disseminam essa falácia (de que o regime era de esquerda) o faz de caso pensado. A intenção parece ser embaralhar as percepções do maior efetivo possível. Como a História foi decretada morta pelos EUA na década de 1980 (e novamente atacada pelo atual des-governo brasileiro entreguista, o que é sintomático), não será difícil a tarefa de inocular no maior público possível a dúvida quanto à esquerda (o que quer que isso queria dizer) e o nacional-socialismo (sigla populista com que o Führer pretendia sugerir a unificação do terceiro império e naturalizar a exclusão dos ditos “imperfeitos” ou “impuros”). A questão passa pelo repertório de cada um e pela capacidade (e disposição), maior ou menor de perceber os traquejos que os homens mais poderosos fazem da linguagem comum. Há um livro muito bacana do Victor Klemperer (A Linguagem do Terceiro Reich) que essas gentes (não as que agem intencionalmente do contra) mereceriam ler. Mas, sabe, Pedro, é dar esmola demais para quem confunde livre-comércio com liberdade humana e supõe que a democracia dos países ditos "desenvolvidos" é como forno autolimpante: não envolve processo histórico, nem o mundo concreto dos homens. Evito empregar o termo "ideologia" para não ser chamado de comunista, comedor de criancinha. Então façamos como o pessoal da Análise do Discurso e abordemos as palavras como coisa plástica: tanto podem servir a justificar o darwinisno social, com direito a um pseudo administrador a disparar jatos de água e atear fogo nos miseráveis da "sua" cidade "linda", quanto a inspirar 53% dos votantes desta Pauliceia a desejar que os dias gélidos, a fome e a garoa façam o trabalho sujo, acelerando a partida dos que já estavam excluídos. Tudo isso, afinal "estão na rua porque querem"; mesmo porque "o sol nasceu para todos" (como dizia o slogan do falecido ex-governador Quércia, do antigo PMDB, que foi MDB e quer voltar a sê-lo). Você tem razão: tempos bicudos. E o que mais irrita o discurso de botinas é a nossa competência para a solidariedade.

"O Nazismo é de direita ou de esquerda?" - Parte 1 (Diálogo)

[21.VIII.2017]

 Diálogo entre Pedro Francisco Morel e Ricardo Baitz

Bom dia, meu amigo Ricardo Baitz, tudo bem com você?
Ricardo, tenho visto ultimamente inúmeras crônicas, artigos, quadrinhos, powerpoints e citações acerca desta dúvida que passou a assolar o Brasil. O nazismo é de esquerda ou de direita?
Como cresci num período maniqueísta, em que achávamos, absurdamente, que o bem e o mal se dividiam em Arena e MDB, em Cuba ou Taiwan, católicos ou protestantes, azuis ou vermelhos, um ou outro, este ou aquele, jamais um pouco dos dois, ou seja, onde não se permitia muita discussão acerca de problemas no time, partido, religião, paradigma escolhido, e talvez por ter filhos que não tenham vivenciado os problemas políticos que meus avôs e meus pais vivenciaram, cheguei a discutir sobre o assunto. Cai no conto, entrei na discussão, felizmente apenas por uns dias…
Os últimos anos têm sido muito complicados para minha geração, pouco mais velha que a sua, como se não bastassem todas as inovações tecnológicas…
Mesmo sendo filho de professores universitários politizados, estudei no período militar, com aulas de educação moral e cívica, estudos dos problemas brasileiros, e estudos sociais, ou seja, o aprendizado foi total e absolutamente distorcido…
Se falarmos aos nossos filhos que Tiradentes, um alferes, ou seja, um tenente, era descrito como alguém com longas barbas, como Jesus Cristo, é capaz de não acreditarem, mas era assim. Foi assim que aprendi, e foi assim que toda a minha geração aprendeu…
Voltando aos nossos bicudos e atuais tempos, os ânimos andam cada vez mais acirrados, pessoas defendendo pontos de vista até o final, indo de encontro a fatos irrefutáveis, e a tentativa de desconstrução de tudo e de todos é geral…
As definições do que é esquerda; do que é direita, o surgimento da pós-verdade; a absurda aceitação de movimentos que discutem supremacia branca, agora com subdivisões entre a supremacia branca, branca mesmo, a supremacia branca estadunidense e a supremacia branca, mais ou menos ou latina… ridículo, imponderável, inaceitável…
Enquanto acadêmicos, ativistas, agitadores ficam discutindo se Hitler era apenas nacionalista, se apenas não gostava de judeus, se era ou não diferente de Stalin, nossos políticos estão discutindo quanto seus partidos ganharão do nosso dinheiro para fazerem campanha; qual será a maneira mais fácil de serem reeleitos, para que não percam imunidades parlamentares; baixando o salário mínimo, para recomposição do caixa; um terço dos políticos é alvo de investigações criminais; universidades públicas são sucateadas; crianças têm suas mãos riscadas com caneta, para não repetirem merenda; a reforma trabalhista ocorreu sem que a absurda maioria da população entendesse o que estava ou está ocorrendo, e sem que a elite tivesse um mínimo de perda com essa estória; a reforma política está nas mãos da pior geração de políticos que o Brasil já teve, e a reforma tributária transformou-se em criações de impostos e mais impostos sobre a classe pobre e classe média, enquanto empresários serão mais uma vez beneficiados com refis…
Sinceramente, Ricardo, se o nazismo – algo que jamais deveria existir –  era de esquerda ou de direita, e se o partido por ele criado tinha ou não o nome de socialista, me parece ser questão de somenos importância…
Tenho inclusive brincado, postando no Face:
A fome é de esquerda ou de direita?
A miséria é direita ou de esquerda?
A ignorância é de esquerda ou de direita?
– Caro Pedro, não sou assim tão mais novo, mas concordo com tudo o que você disse. Vamos agora ao entretanto, tudo bem?
O Hitler começa o livro Minha Luta com uma parábola, a de um gato e um rato. Em resumo, ele diz que na natureza, o que faz o gato? Come o rato, pois essa é a sua missão natural. O gato que não age assim se rebaixa, age contra as leis naturais, não é um gato… Ele então diz que o povo alemão é o gato, e faz as demais derivações que constatamos na história.
Essa parábola é importante pois há um pensamento que transforma os homens em animais. Não apela para o fato dos homens poderem constituir uma humanidade. Esse pensamento ou regride as conquistas feitas por uma coisa chamada humanidade ou pretende manter as diferenças e os privilégios existentes até o atual.
O que definiria o outro lado seria o contrário: a busca por mais humanidade (não necessariamente humanitarismo, que é o que a igreja faz) e humanitarismo, lutando para mostrar que o existente é construído e pode ser modificado, melhorado para um número maior de pessoas.
O ser humano é, de certo modo, animal e homem. Ele pode simplesmente comer. Ou pode se alimentar, sentindo os diferentes gostos, experimentando a comida, vivenciando algo quase sublime. No mesmo sentido, um ser humano pode fazer sexo como um cachorro ou fazê-lo de um modo muito melhor, porque humano. Pode se envolver no trabalho e fazê-lo por prazer ou agir como um boi preso a um moinho, andando em círculos por obrigação. A verdade, meu amigo, é que, diante do caos instaurado no presente, há duas espécies de “revolucionários”: os que encampam o passado e se apoiam em uma suposta natureza humana, e aqueles que acreditam na capacidade humana e na confraternização de todos os homens, que haverão de superar a barra pesada que é prover comida e alimentação para todos com o intuito de liberar as pessoas para fazerem aquilo que farão melhor: humanizar-se. Decida agora o que é direita e o que é esquerda.
Decida, também, se Hitler era de direita ou de esquerda… E isso perante os alemães e perante os demais homens…
Pedrão, quer rir um pouco mais?
Semana passada eu ministrei uma aula sobre Adam Smith e expliquei que ele não é um humanista, mas um economista, ou seja, um homem que reduz as pessoas a relações econômicas. Então, após falar da potência do pensamento dele (a indústria e a divisão do trabalho como “Riqueza da Nação”), selecionei um trecho para mostrar o que era um homem a ele:  na página 48 (SMITH, ADAM. Esboço primitivo de A riqueza das Nações in Economistas políticos. São Paulo: Musa Editora, 2001), ele diz “Ninguém nunca viu um cachorro fazer uma justa e deliberada troca de um osso por outro com outro cachorro. Ninguém nunca viu nenhum animal, por meio de gestos e gritos, procurar mostrar a outro que ‘isto é meu, aquilo é teu; concordo em dar isto em troca daquilo’. Quando um animal deseja obter algo de um homem ou de um outro animal, ele não dispõe de outro meio de persuasão senão tentar ganhar a simpatia e o favor daqueles de cujos préstimos necessita. Um cachorrinho bajula a sua mãe, e um spaniel procura, de mil modos, chamar a atenção de seu dono que está jantando quando quer ser alimentado por ele. O homem usa, às vezes, as mesmas manhas em relação a seus amigos, e quando não tem outros meios para fazer com que eles ajam de acordo com as suas inclinações, tenta, bajulando-os, obter o que deseja. (…)”. Depois ele diz na página seguinte (p. 49): “quando uma pessoa propõe a outra uma barganha de qualquer tipo, na verdade ela lhe propõe o seguinte: ‘Dá-me o que eu preciso e terás o que precisas’. Este é o único significado de toda e qualquer proposta. É este o modo como obtemos uns dos outros a parte mais significativa daqueles bons ofícios de que necessitamos. Não é da boa vontade do açougueiro, do cervejeiro e do padeiro que depende o nosso jantar, mas do interesse deles.”.
E por aí vai… então lhe pergunto: pelo conteúdo, é um pensamento de direita ou esquerda?

sexta-feira, 11 de agosto de 2017

Poema retirado de uma Crônica

Não se pensa a Lapa sem a Glória,
Botafogo sem Flamengo
O Flamengo sem Aterro
Nem a Glória sem Outeiro

Não se cruza, incólume,
O Rio de Janeiro:
Pedaço do Oitocentos
Porção de Portugal

Se algum saldo fica,
Confirma-se o mais gostar:
Antes Santa Luzia
Que Avenida Beira-Mar

Não permitam os médicos
Que eu morra...

...Sem voltar à Praça Quinze
Ou sorver a Rua do Ouvidor;
Demorar-me na Confeitaria Colombo
E assistir as gentes na Praça Mauá.

(Rio, 11.VIII.2017).

sexta-feira, 30 de junho de 2017

EGÃO

Em curso, a histeria coletiva – manifesta no uivo doído do desabrigado que perdeu razão, casa e a dignidade do olhar alheio.
Os sinais persistem, desde tempos imemoriais, na autoisenção de homens bons (hoje, “de bem”), posicionados mais acima da massa, devido à “origem”, “mérito”, “estudo” ou “empenho” – infensos à moral, à ética e às leis; mas, especialmente, incapazes de solidariedade. O histérico só fala dos outros em chave de comparação negativa.
Sintoma de grupo, o paradoxo da histeria está em se alimentar do exacerbado individualismo que finge justificar o “salve-se-quem-puder”, nas palavras duras dos bocas-moles que Deus e o Mercado supostamente elegeram.
Ela também reside no “uma ajuda, por favor” – expressão “naturalmente” etiquetada à fome e à sede daqueles que não fecham a conta do capital: mercadoria vencida, saldo negativo, expurgo que a “livre-iniciativa” celebra com chavões do tipo “mas eu venci na vida”.
A histeria se manifesta nos berros dos neofascistas, com palanque, senso comum e plateia (o sujeito que lamenta o horror do nazismo pode ser o mesmo a apoiá-los). O megaindivíduo, que critica as violências do Tribunal do Santo Ofício, talvez seja o mesmo a recriminar e xingar as pessoas “menos comportadas”, “desavergonhadas” ou de outras condições sexuais.
Histeria coletiva. Seus pacientes, a céu aberto, estão a espancar buzinas, invadir as faixas, desprezar as noções básicas de civilidade. Trotam nas calçadas, a consumir desenfreadamente para mais uma bebedeira heroicizar.
Sobremodo arrogantes, os não-internados dispensam terapêutica. Incapazes de autoexame, clamam por escuta e cuidado em gargalhadas repentinas, inautênticas e sem razão.

(Piratininga, 28 de junho de 2017 d.C.)

terça-feira, 2 de maio de 2017

Paródia Oswaldiana

Na cafeteria paulistana de Seatlle
Mesas pescoceiam em direção à porta-automática
O segurança invisível veste terno
E a fila espicha em nome do melhor atendimento

[Dicas para interpretação:
1. Cubistas, os versos podem ser lidos em qualquer ordem (o que explica a falta de pontuação).
2. Rearranjadas, as letras iniciais (dos versos) podem formar NOME.
3. O estabelecimento localiza-se nas imediações da Praça da República.
4. Palavras-chave: (N) neocolonialismo; (M) reificação; (O) preconceito; (E) fachada]. 
 

sexta-feira, 7 de abril de 2017

Máxima contra a Pólvora

Enquanto o mundo beija as bombas e este país execra a noção de "povo", na Universidade assistimos a parcerias de pesquisa com o Santander. Não tarda o dia em que obedeceremos à CAPES e aos Terminais 24h.

terça-feira, 7 de março de 2017

Filósofos de Boteco

É sintomático, num país de leitores rarefeitos e prepotentes, a condenação de homens que jamais leram e a rejeição de ideias que jamais compreenderam. Cansei de ouvir gente tosca afirmar, com absoluta leviandade e arrogância, que Marx "só funciona na teoria"; que para Freud "tudo é sexo"; que Nietzsche "era doidão"; que ter posicionamento crítico "é coisa de idealista, sonhador, poeta" etc. Não leu? Silencie e ouça.

O Campus da Universidade de São Paulo foi bombardeado, mais uma vez, por uma instituição cujo lema é "servir e proteger" o cidadão. O prefeito mega-privatista confunde gestão com aniquilação do Estado; o governador reina em nome da social-democracia, mas não reconhece ou valoriza seus professores, médicos (nem bombeiros, tampouco... policiais. Pois é...). 

É inócuo comentar os assuntos "do dia", enquanto se alheia à concretude esfregada a metros da sua porta. Chamar essa postura resignada de hipocrisia é eufemismo. O que você tem a VER com isso?(a pergunta contém a resposta).

Não haverá vitória sem maior participação. Não haverá consciência de outras formas de diálogo que não seja pela união das gentes. Posicionem-se e somem as divergências em favor do melhor mundo possível, seja ele a sua universidade (pública, gratuita, inclusiva, coerente e de qualidade), a academia de ginástica, o estádio de futebol, o salão de beleza, ou até mesmo o bar que visitará hoje à noite...

Deixe de conversinha mole: passe do comentário que só "lamenta", mas nada faz para mudar, de fato, a sua condição e a dos outros. Troque a longneck pseudo filosofante do boteco pela eficácia de gestos maiores, porque solidários. Claro esteja, isso não tem nada a ver com o fato de haver, ou não, "pessoas de bem" -- definidas por aquela gentinha gabaritadíssima em hipocrisia política, moral, religiosa, de atitude e pensamento.   

sábado, 4 de março de 2017

44

É oficial. Tornei-me adulto. No espaço de duas semanas, fui chamado duas vezes de "senhor" por vendedores de lojas. Está certo, é questão de somenos. O fato é que impacta: serei levado a disfarçar o lado espirituoso (que não resiste a um trocadilho), a porção criança que gosta de olhar lojas de brinquedos (eufemismo para a comunidade secreta de bonecos que habitam o apartamento); a espontaneidade na maior parte dos gestos (o que conflita diretamente com o padrão de comportamento na dita "Academia") etc. 
Mas a idade traz as suas vantagens. 
Por exemplo: quando criança, estudei num Colégio Jesuíta, criado pelas mãos de Marcelino Champagnat (bem depois de a Ordem ter voltado a atuar no reino de Portugal e no Brasil). Era naquele ambiente supostamente reto e direito que a mentalidade de meus colegas defendia a humilhação dos colegas mais pobres, o cultivo extremo da beleza, a morte dos mendigos, a implosão dos presídios, a ideia veemente de que o patrimônio material estaria acima de qualquer direito ou noção de solidariedade. Felizmente a conclusão do, então chamado, "2o Grau" coincidiu com a vida bem longe da casa de mamãe e papai: mundo que me apresentou outras formas de ver o outro (a mulher, os excluídos, os que sofrem preconceitos de variados matizes, a hipocrisia de falsos amigos, o cinismo das legendas partidárias que se supõem isentas de ideologia, o desapego ao dinheiro etc).
Por exemplo: dos vinte e poucos aos trinta sofria desmesuradamente pelas pessoas por que me apaixonava (foram poucas). Vivia "mega available" (como Martín, do filme Medianeras). Respondia a qualquer convite com a máxima disposição; justificava-me para que o erro das criaturas fizesse algum sentido. Hoje suporto os desenlaces com menor capacidade de escândalo: nem cartas muito longas, nem telefonemas implorantes, nem mensagens ridículas pelo celular. Serão amostras de alguma evolução, suponho. 
Por via das dúvidas, vou aparar a barba e o bigode, antes de topar com novos atendentes.    

segunda-feira, 20 de fevereiro de 2017

Avenida Paulista

Hoje de manhã, enquanto esperava por uma pessoa, voltou-me a triste sensação de que algumas criaturas não compreendem ou valorizam o mundo (e, portanto, os seres) à sua volta. Em meio a outras questões que me incomodavam, decidi mudar de postura em relação a determinadas figuras. Dentre as resoluções tomadas, deixei o curso de baixo -- já que, para soar educado, não estava correspondendo às expectativas do professor. Imediatamente em seguida ao envio da mensagem cancelando minha matrícula, subi até a Avenida Paulista para visitar o pessoal do MTST, acampado por lá. Enquanto me aproximava da ocupação, sob lonas e pedaços de madeira, confirmei o esperado: a maioria dos estudantes e (des)empregados que circulam, pomposos e vulgares, no distinto lougradouro fingem ignorar o movimento -- enquanto se utilizam da sombra produzida pelas barracas improvisadas, abrigando-os do sol sobre a faixa de altivos pedestres. Lá conversei com algums membros, incluindo Bruna e Tia Cida, a quem levei dois ouvidos e um mínimo de solidariedade. Trocamos contatos e me coloquei à disposição para ajudar no que fosse preciso. Antes que o leitor deste breve relato cogite reproduzir o estreito senso comum, chamando-os de "vagabundos", afianço-lhe de que não foi isso o que vi na cozinha que atende a incontáveis pessoas, por lá. Durante a breve conversa com as mulheres, perguntei se havia novidades; se o Presidente Interino havia se comprometido a honrar o que foi acordado com o movimento. Responderam que haverá nova assembleia hoje à noite, ocasião em que terão notícias. Indaguei como eles estão sendo olhados pelas outras criaturas que circulam pela avenida. Disseram que, em geral, são muito hostilizados, mas que também recebem saudações de apoio, na forma de buzinaços acompanhados de gritos contra o atual des-governo. Pedi licença para fotografar e divulgar a relação de alimentos e utensílios de que eles precisam (afixada numa das "paredes" da Copa). Sejamos solidários. Alimenta-nos muito mais proceder dessa forma. De certo modo, compensa o fato de suportar egos inflados ou defensores (ainda que descamisados) do cinismo neo-liberal -- que só exclui, mata e propaga o ódio entre nós e aqueles que não dispõem sequer do básico.


sábado, 18 de fevereiro de 2017

Palavras de Raduan

Hoje é dia 18. Em vinte e quatro minutos, a contar deste ato de escrever, será 19 de fevereiro. A julgar pelo ritmo sobre-veloz que tudo atropela (sentimentos, gentes, ideias e paisagens), terá se passado muito tempo para comentar o que disse Raduan Nassar, ontem de manhã, durante a entrega do honroso prêmio Camões -- invenção de Portugal, a despeito de o Brasil entrar com metade do valor outorgado ao romancista. Eu havia lido e relido o discurso de Raduan. Mas somente há pouco criei coragem para assistir ao vídeo. Um homem de idade, com inquestionável talento ao lidar com a palavra impressa, aproveita os minutos que lhe cabem para posicionar-se contra as incoerências que presidem o mais recente golpe de Estado, impetrado nesta terra em que metade de sua população ou está cega ou é cínica. Em reação, tenho notícias de que o excelentíssimo Ministro da Cultura (em posição tão questionável quanto o presidente, dito interino) perdeu a oportunidade de se manter calado. Seria uma saída mais honrosa reunir os fragmentos de vergonha, por pertencer a esse bando no poder supremo, e preservar seu nome e terno, que dar margem à controvérsia, desrespeitando o ato solene, em que se espera prestigiar a melhor palavra. Ao agir desta forma, o senhor engravatado desrespeitou o direito à palavra do agraciado (um senhor de idade, volto a lembrar): um dos poucos representantes culturais de que podemos nos orgulhar, para além de nossas fronteiras -- atentamente vigiadas e cobiçadas por Estados Unidos e companhia. Trata-se de um dos prêmios mais honrosos do planeta. Mas, a exemplo de tantos atos injustificáveis do atual des-governo, não basta fazer parte da corja; é preciso muito cinismo para defender a farsa democrática em que infra-vivemos, para custear a máfia mais poderosa de que se tem notícia. Raduan recorreu a fatos sabidos por todos aqueles que, em tese, amam este país. Mas, por aqui, a metade entreguista está a se embrulhar em verde-e-amarelo, reproduzir o que dizem os engravatados da Rede Globo e, evidentemente, estão a perder seu preciso tempo por não ler nada, nem mesmo os livros de um de seus maiores representantes. A Raduan não falta coerência, talento e honradez. Digam-me os mestres do cinismo se o Congresso não está carente de coragem e vontade para defender os que não caíram na falácia de que o "sol nasceu para todos". Viva, Raduan Nassar!

domingo, 5 de fevereiro de 2017

Argumento de Tânatos

Morei em Garibaldi (RS) entre 1990 e 1994. Quatro anos contados até o meu retorno a São Paulo. Lá aprendi muitas coisas; especialmente, nunca me esqueci de um provérbio: "Pessoas felizes não agridem". Só criaturas egocêntricas e arrogantes dão início a uma discussão e saem dela achando que armazenam toda a razão. Só indivíduos incapazes de amar (os outros) se valem de argumentos que não têm qualquer relação com o sentimento próprio e alheio, para conquistar a vitória do pseudo debate. Em momentos de ódio, é Tânatos que se mistura entre nós. Diz a um: "trabalhe sem cessar"; a outro: "produza sem cansar"; ao terceiro, recomenda que odeie, vença, bloqueie, delete, exclua. Incertas demandas do campo profissional contaminam certas decisões tomadas, por impulso, no âmbito pessoal. Por exemplo, a figura deixa de dialogar como se fosse uma decisão racional (e não motivada justamente pela paixão reprimida). Supõe que criar muros à volta de si mesma não seja um modo de fugir ao convívio. Para afetar força, age covardemente. Para se sentir inteira fragmenta a concepção sobre a vida e obsta a visão do outro com barreiras que cerceiam a si própria. Critica e censura gestos do outro; mas não admite réplicas e, sequer, reflexões sobre as coisas que diz, faz e agita. Mas nutramos esperança. Agora podemos usar Whats App para pseudo argumentar. Em vinte anos, as discussões serão representadas por hologramas. Será a micro-Era de Tânatos.  

sexta-feira, 3 de fevereiro de 2017

Paradoxo de Eros

Estou farto de ouvir gente dizer que o Amor é difícil ou que "ainda não o encontrou". Talvez seja incompetência de minha parte, mas acumulo impressões bem diferentes sobre o "tema". A criatura incapaz de amar procura pelo Amor ao longo de toda a vida; gira o planeta (que também pode ser sua piscina, academia de ginástica, bar, teatro, cinema, shopping center, bairro, cidade e estado). Quando se depara com o sentimento que supõe sê-lo, passa a encará-lo como passatempo: enjoa fácil, questiona, desgosta. Olha para si mesma e pergunta "para que investir?". Amor não é plano de negócios. "Não era amor", suspeita. Então, a pessoa logo transfere seu tédio e insuficiência para o outro (seja ele uma pessoa, seja ele o próprio sonho "besta" de amar). Corre mais um pouco. Ajeita o cabelo, disfarça com a roupa, cansa, retoma contatos. Topa com um suposto novo amor. "Agora sim! Tenho certeza..." Mas então o aprisiona em frascos com tampas que raramente se abrem (um para o arroz, outro para o café, outro para a amizade, outro para os afetos). Mas Amor não se administra: ele se espraia e contagia a gente e os que estão a nossa volta. Se a vida fosse uma loja de Departamentos, o Amor ocuparia um andar inteiro e se infiltraria para os demais. Isso não tem a ver com tempo; mas com intensidade. Há uma qualidade do sentir que é irredutível: se for Amor, Eros comparecerá e nos fará torcer pela vida ao máximo, também como forma de postergar a dor, o tédio, a morte. O Amor permite idealizar, desejar e sobrevalorizar as formas, sons e cheiros do outro. Faz admirar a sua sensibilidade e inteligência. Acima de tudo, deseja que aquilo tudo perdure, numa espécie de manutenção do absoluto, em escala para duplas (ou trios, conforme o caso). Amor administrável não O é. Amor não é mergulho de Narciso (aquele de Ovídio), cego para os outros; não é calcular o tempo que haverá para o que vem antes ou mais tarde. Frases como "temos todo o tempo do mundo" são pseudo argumentos de Jacu. O amor tem pressa na aparente calmaria e demanda mais tempo que a vida ordinária tem a oferecer. Não pode ser nivelado com contas a pagar, correspondências a enviar, mensagens a responder. Não possuímos o amor, nem ele nos detém. Ele não se entende bem com contabilidades, ou planejamentos que não envolvam uma sequência infinita de instantes preenchidos pelo máximo. Ele está acima de nós, pois é condição de uma existência menos murcha. É mais forte que nossa (des)crença em divindades, espíritos ou convicções. Não se tira diploma para (des)amar. Não há especialização na "área" (embora haja aqueles que confundam produtividade com qualidade).  Já pensou? A criatura pode ter encontrado o amor em mais de uma ocasião e o "deixou" passar. Mas isso ainda soa arrogante. É necessário humildade e energia para sentimentos maiores.

domingo, 8 de janeiro de 2017

6 de janeiro de 2017, às 9h e pouco

Sinto falta de Vitória. Algo estranho para se dizer, tendo em vista que embarquei há pouco, de volta à Pauliceia. Da primeira vez, estive lá em 2003, em visita a Maria, minha mãe. Foi um "alumbramento" -- como diria Manuel Bandeira (confira lá em Evocação do Recife). Amei a cidade; desconfiei de suas intenções -- diante de tantos grupos religiosos a tripudiar sobre o Estado laico (sim, e a despeito do nome sugerido por suas iniciais). A bem da verdade, não é bem do mapa ou da paisagem que sinto falta. Mas de minha mãe.