quarta-feira, 13 de setembro de 2017

Como Buscar um Livro

1. Encomende o exemplar recomendado por pessoa de confiança (seja ela de osso, seja de papel)
2. Certifique-se de que há bons cafés perto do sebo (seja para tomar um coado, seja um expresso)
3. Cumprimente as(os) antendentes e, de pronto, diga o nome do autor e/ou título do volume
4. Não deixe a loja sem consultar as demais sessões
5. Carregue o livro com a capa virada para a multidão
6. Peça um café para saborear o novo artefato duplamente
7. Compartilhe a mais nova aquisição com leitores em potencial
8. De volta à casa, cheire, manuseie, percorra capas, lombada e orelhas com os dedos
9. Folheie o interior: ficha catalográfica, sumário e colofão
10. Deposite-o na estante ao lado de outras obras do mesmo autor (ou de seus rivais teóricos)

domingo, 10 de setembro de 2017

Ut Pictura Poesis

Chamava-se Juliete Roinat Chauvin. Muitas vezes, quando visitava meus avós em Garibaldi, descia até a "cave" (porão) e me postava silenciosamente ao lado dela, enquanto pintava. Ninguém lá ia: um local úmido forrado de brita. De lá escutávamos os passos da família, as imprecações de quem estava a jogar cartas com o marido, Jean Alphonse. Vestida com o avental, cheio de cores difusas, Juliete sorria de soslaio, ajeitava os óculos e, caso eu perguntasse, explicava algumas técnicas de autodidata ("assim a gente faz o rio", "assim a gente faz as folhas das árvores", "este aqui no barco, quem é?"). Todos sabíamos: quando a voz de minha avó não se fazia ouvir, ou ela estava dormindo, ou na "cave", a representar retratos, equipada de tubos de tinta, paleta de madeira, pinceis de vário tamanho, removedor e pote d'água. Naqueles instantes -- longe da azáfama da cozinha, depois de recolher as migalhas da mesa de jantar com o verso das mãos, lavar e enxugar a louça, após colher vagens, ervas, cenouras e frutas no quintal -- a desejada solitude. Minha avó era calmaria e atividade em uma só figura: doce e compenetrada. Falava baixo, murmurava explicações, métodos do seu pintar. Era um neto pequenino; não havia lido Horácio, nem sabia que as escolas de pintores se classificavam de acordo com as épocas, estilos, gêneros, técnicas, dimensões, materiais empregados; tampouco o que era decoro. Eram momentos que não saberia exprimir, quando criança; que não sou capaz de versificar ou traduzir, enquanto pretenso adulto. Mas chamava-se Juliete Roinat Chauvin: Juliete, para Jean Alphonse; "mamã", para os filhos; "memê", para os netos. E tinha dois gatos malhados que lhe faziam máxima companhia: Minu e Minete. É bem provável que, em sua mudez, os felinos soubessem desde sempre o que não se pode representar em verbo e imagem. Quem contornasse a casa e mirasse as janelinhas do porão, avistaria uma senhora magra, de óculos quadrados e coque a apanhar os cabelos grisalhos bem no alto, em vestidos floridos e o mesmo avental, a tocar a tela com o pincel, pontilhando-a de árvores, estradas, charretes, rios, montanhas, pessoas, sois e luares. Chamava-se Juliete Roinat Chauvin e era minha avó. Pintava quadros com que presenteava a família -- alguns deles, há tempos, comigo. Não sou pintor, nem sei avaliar bem as artes plásticas, mas são meus quadros prediletos. Talvez emblemas a celebrar os vínculos que não explicitei, quando virei adolescente, o ego inflou e as palavras encolheram. Modos de carregar a minha avó, Jean Alphonse, tonton Raymond, tonton Claude, tia Nadi, tonton Robert, tia Miriam, tia Marta, os primos Kika, André, Dani e Filipe, meu irmão, meus pais, Pierre e Maria, a cadelinha "Pití", os jogos de bocha, as conversas filosóficas no "cabanon" (antigo galinheiro improvisado em reduto para meu tio Raymond), o ruído de cascalhos sob os pés de chinelos, a visita das borboletas às flores, os muros de pedra e cimento (que "ajudei" a mexer); as árvores que auxiliei a plantar; os legumes que colhi com minha tia; a lenha que busquei; os cadarços que aprendi a amarrar; os modos de segurar os talheres; o harmônio, onde assistia meus avós e visitas tocarem músicas lá de longe; os jornais da França para meu avô, que eu lia de curioso; o jogo de palavras cruzadas, disputados alegremente pelos tios, equipados com o Petit Larousse; os vinis da vitrola organizados na discoteca da sala (Verdi, Mozart, Beethoven e que tais), as poltronas amarela e turquesa, os sofás, os quadros na parede; o café, às seis da manhã, com generosas "tartines" recheadas de mel, geleia e manteiga -- o café, puro ou com leite, servido às seis da manhã por Juliete. Nos momentos em que ela mais desejava estar só, eu aparecia a fazer pequenas confidências e constatar o maior silêncio. Terá sido ela que me ensinou a apreciar a quietude, o sussurro? a contemplar as coisas com vagar e ficar na sombra, enquanto o alarde pisa o piche e as luzes inundam as janelas, os carros, as roupas de vinil, a maquiagem carregada? Diga lá que nome isso tem. Merci, "memê", et salut!

terça-feira, 5 de setembro de 2017

Circo X Barbárie

Sonhei que conversava com uma colega imaginária (mas de postura bem verossímil), num gabinete, em defesa dos funcionários da instituição; que a também professora, mais graduada na estrutura hierárquica, desqualificava o relato que eu fizera, supondo parcialidade.
Eu a contestava reafirmando que, sim, já havia conversado tanto com os funcionários quanto com outra professora (graduada), para resolver a questão. A douta hierarquizada, depois de se certificar (pela descrição) de quem era a terceira colega, disparou o segundo petardo: não gosto dela.
De súbito, a conversa – que era uma entrevista a portas fechadas, separando os debatedores por uma mesa estreita – tornou-se assembleia. Agora eu estava no fundo de uma pequena sala, com várias pessoas nas demais carteiras, e o que era diálogo tenso virou discussão.
Z e eu trocávamos farpas, até que precisei proclamar que era “de esquerda” (o que possivelmente explicaria o fato, ainda que em ambiente onírico, de eu defender outra categoria, que não a “minha”). No sonho, Z fez cara de desimportância, diante dessa fala inflamada.
Mas, então, a sala já era bem maior. De repente, para além das cadeiras, numa espécie de coxia ampliada, havia um monte de estudantes a carregar um jornal institucional e equipamentos de filmagem. Seis deles acenavam de longe: convite para gravar uma entrevista. Cumprimentei um ex-aluno (dos tempos de colégio ou Fatec, não me recordo) e os outros, dizendo “muito prazer”.
Acordei.
Qual seria o teor da entrevista? Que perguntas seriam enunciadas?
Acordemos...
...Ainda que seja para reiterar o óbvio: num pseudopaís em que quase todos viram a cara para os menos favorecidos, o papel do Estado é atuar justamente onde quase ninguém tem culhão nem vontade. Desde quando modernizar é excluir?

sexta-feira, 1 de setembro de 2017

Divórcio

Enviei, há pouco, uma cópia autenticada da certidão de casamento para a (ex) mulher – que já foi parte e contraparte – em que consta a averbação de nosso famigerado divórcio (julgado, aprovado e mandado registrar por um juiz desta Pauliceia). Doze anos após a Separação dita consensual (tão cordial que me levou a conhecer diferentes tribunais da vila de Piratininga, durante um ano e meio), aceito o conselho da advogada (“envie a cópia”) e saio dignamente desse pedaço estranho de historieta. Somos tão poucos e pequenos; mas as sensações podem ser maiores.
Coisa de somenos, bem o sei. Mas se me puser a contar o que sucedeu até o despacho da correspondência, via correio, talvez concordem que vivemos epopeias diariamente. Que os olhos do (a) leitor (a) suportem o relato e me digam, por obséquio, se os eventos a seguir podem ser considerados sintomáticos.
Após o equívoco cometido pelo cartório de Garibaldi (em uma transação que se esticou por semanas), enfim a certidão averbada chegou. Hoje, após o singelo café com pão, resolvi uma série de coisas em casa por e-mail. Pouco depois das 11h, saí para encontrar um amigo, dos tempos de graduação, no BH Lanches. No trajeto, fiz duas cópias autenticadas do documento (cartório da Frei Caneca), descobri outra agência fechada dos correios (Shopping Frei Caneca), postei um voucher para Dona Maria (agência da Matias Aires), retornei à Augusta, compartilhei o teor da certidão com o amigo, com quem também gargalhei, acompanhei-o até a Consolação (estação da Paulista), desci novamente em direção à agência (Matias Aires) e solicitei envelope. Balcão ocupado; segui para outro que dispusesse de caneta. A tinta falhou; voltei ao outro balcão, preenchi os campos Remetente e Destinatário e retornei ao caixa (número 9), que registrou o documento, cobrou o pagamento e desejou “bom fim de semana”.
No regresso ao castelo de 40 metros quadrados, mudei a rota de costume. Desci pela Bela Cintra, virei à esquerda na Dona Antônia de Queirós, à direita na Consolação; parei para tirar uma foto de ângulo raro. Na Maria Antônia, a título de celebração, comprei um sapato novo; então, driblei a alunada do Mackenzie e, dois lances de escada depois, sentei-me em frente ao note para escrever.
Os amigos efetivos talvez me dissessem que não haveria necessidade (nem mérito da outra parte) que justificasse o trabalho que tive para enviar a cópia autenticada da certidão – ressalva com a qual eu certamente concordaria (a solidariedade dos amigos faz um bem danado à gente). Mas, sempre que possível, exerço a manutenção das diferenças (quando o caso exige) ou da solidariedade (quando a questão demanda).
Quanto mais tripudiarem, mais civilizado serei; quanto mais odiarem, mais indiferente serei. Lição para nulo aprender alheio, mas re-estabelece a plataforma onde me coloquei, favorece o diálogo com as árvores mais altivas, em meio ao asfalto bruto, e sugere alguma competência deste pseudocronista, orgulhoso por reafirmar que ele caminha melhor sobre as próprias pernas. Certos nomes vêm do mar. Que retornem a ele, também. 

Planeta Terra, 1o de setembro de 2017 d.C., às 15h33.



terça-feira, 22 de agosto de 2017

"O Nazismo é de Direita ou Esquerda?" - Parte 2 (Intervenção)

Intervenção de Jean Pierre Chauvin [21.VIII.2017]

Boa-noite, Pedro. Reli o diálogo, muito bom, entre você e o Ricardo. Vi, na internet, a justa reação de nossos alunos em comum – que se disseram saudosos desses debates na Fatec. Ricardo e eu fizemos uma ótima dupla por lá, durante nove semestres. O trânsito de ideias ia, sem peias, de uma sala a outra no mesmo corredor. Propunhamos perguntas perniciosas que os alunos levavam de um para o outro e isso agitava as aulas. Durante os intervalos, sorríamos de tudo isso e tornávamos o pensamento ainda mais complexo. Isso não aconteceu em escolas e cursinhos; tampouco acontece na USP. Os egos inflados, a falta de tempo (e qualidade de vida) leva-nos a "cuidar" de nós mesmos e esquecer os outros. É a lógica que personagens marcantes da literatura desnudaram por diversas vezes, do Pequeno Príncipe a figuras tímidas de José Saramago; de Fernão Capelo Gaivota (e sua ética do não-trabalho) aos pseudofilósofos/pop de nosso tempo, chamado erroneamente de “pós-moderno” (conceito que nada diz, mas tenta ressignificar o "presente", supondo a morte da história, a anulação do espaço e a inércia. Quer dizer: se Aristóteles estivesse vivo perguntar-se-ia: onde estão as categorias que fazem uma boa narrativa? No cinema é que não estão. No cotidiano é que não se encontram). A questão que propõe tem "agitado" o pequeno grande mundo ciber há semanas (para não dizer há anos, já que, desde que o brasileiro se tornou um dos maiores usuários do Facebook) o pensamento binário, utilitário e intolerante passou a contagiar (ou contaminar) o ambiente. Ora, virtual quer dizer simplesmente o que está em potência, o que poderia vir-a-ser. E disso pouca gente lembra. Então, a questão é complexa, embora a explicação relativamente simples. A afirmação de que "o nazismo" seria "de esquerda" incorre ou em ignorância ou má-fé. Se for por ignorância, o susto é grande, já que bastaria assistir ao excelente documentário "Arquitetura da Destruição", para logo perceber que o regime instaurado pelo chanceler (e golpista) Adolf Hitler pressupunha a anulação das diferenças em nome da pseudociência (quando, se sabe, há décadas, que a questão era financeira: no século XX, os judeus eram donos de bancos e concentravam riquezas materiais etc). Se o holocausto fosse ético, os supostos arianos não teriam se apropriado das posses daqueles de quem retiravam toda a dignidade (como bem definiu o químico Primo Levi, um dos raros sobreviventes de Auschwitz). Evidentemente, uma parcela dentre os seres que disseminam essa falácia (de que o regime era de esquerda) o faz de caso pensado. A intenção parece ser embaralhar as percepções do maior efetivo possível. Como a História foi decretada morta pelos EUA na década de 1980 (e novamente atacada pelo atual des-governo brasileiro entreguista, o que é sintomático), não será difícil a tarefa de inocular no maior público possível a dúvida quanto à esquerda (o que quer que isso queria dizer) e o nacional-socialismo (sigla populista com que o Führer pretendia sugerir a unificação do terceiro império e naturalizar a exclusão dos ditos “imperfeitos” ou “impuros”). A questão passa pelo repertório de cada um e pela capacidade (e disposição), maior ou menor de perceber os traquejos que os homens mais poderosos fazem da linguagem comum. Há um livro muito bacana do Victor Klemperer (A Linguagem do Terceiro Reich) que essas gentes (não as que agem intencionalmente do contra) mereceriam ler. Mas, sabe, Pedro, é dar esmola demais para quem confunde livre-comércio com liberdade humana e supõe que a democracia dos países ditos "desenvolvidos" é como forno autolimpante: não envolve processo histórico, nem o mundo concreto dos homens. Evito empregar o termo "ideologia" para não ser chamado de comunista, comedor de criancinha. Então façamos como o pessoal da Análise do Discurso e abordemos as palavras como coisa plástica: tanto podem servir a justificar o darwinisno social, com direito a um pseudo administrador a disparar jatos de água e atear fogo nos miseráveis da "sua" cidade "linda", quanto a inspirar 53% dos votantes desta Pauliceia a desejar que os dias gélidos, a fome e a garoa façam o trabalho sujo, acelerando a partida dos que já estavam excluídos. Tudo isso, afinal "estão na rua porque querem"; mesmo porque "o sol nasceu para todos" (como dizia o slogan do falecido ex-governador Quércia, do antigo PMDB, que foi MDB e quer voltar a sê-lo). Você tem razão: tempos bicudos. E o que mais irrita o discurso de botinas é a nossa competência para a solidariedade.

"O Nazismo é de direita ou de esquerda?" - Parte 1 (Diálogo)

[21.VIII.2017]

 Diálogo entre Pedro Francisco Morel e Ricardo Baitz

Bom dia, meu amigo Ricardo Baitz, tudo bem com você?
Ricardo, tenho visto ultimamente inúmeras crônicas, artigos, quadrinhos, powerpoints e citações acerca desta dúvida que passou a assolar o Brasil. O nazismo é de esquerda ou de direita?
Como cresci num período maniqueísta, em que achávamos, absurdamente, que o bem e o mal se dividiam em Arena e MDB, em Cuba ou Taiwan, católicos ou protestantes, azuis ou vermelhos, um ou outro, este ou aquele, jamais um pouco dos dois, ou seja, onde não se permitia muita discussão acerca de problemas no time, partido, religião, paradigma escolhido, e talvez por ter filhos que não tenham vivenciado os problemas políticos que meus avôs e meus pais vivenciaram, cheguei a discutir sobre o assunto. Cai no conto, entrei na discussão, felizmente apenas por uns dias…
Os últimos anos têm sido muito complicados para minha geração, pouco mais velha que a sua, como se não bastassem todas as inovações tecnológicas…
Mesmo sendo filho de professores universitários politizados, estudei no período militar, com aulas de educação moral e cívica, estudos dos problemas brasileiros, e estudos sociais, ou seja, o aprendizado foi total e absolutamente distorcido…
Se falarmos aos nossos filhos que Tiradentes, um alferes, ou seja, um tenente, era descrito como alguém com longas barbas, como Jesus Cristo, é capaz de não acreditarem, mas era assim. Foi assim que aprendi, e foi assim que toda a minha geração aprendeu…
Voltando aos nossos bicudos e atuais tempos, os ânimos andam cada vez mais acirrados, pessoas defendendo pontos de vista até o final, indo de encontro a fatos irrefutáveis, e a tentativa de desconstrução de tudo e de todos é geral…
As definições do que é esquerda; do que é direita, o surgimento da pós-verdade; a absurda aceitação de movimentos que discutem supremacia branca, agora com subdivisões entre a supremacia branca, branca mesmo, a supremacia branca estadunidense e a supremacia branca, mais ou menos ou latina… ridículo, imponderável, inaceitável…
Enquanto acadêmicos, ativistas, agitadores ficam discutindo se Hitler era apenas nacionalista, se apenas não gostava de judeus, se era ou não diferente de Stalin, nossos políticos estão discutindo quanto seus partidos ganharão do nosso dinheiro para fazerem campanha; qual será a maneira mais fácil de serem reeleitos, para que não percam imunidades parlamentares; baixando o salário mínimo, para recomposição do caixa; um terço dos políticos é alvo de investigações criminais; universidades públicas são sucateadas; crianças têm suas mãos riscadas com caneta, para não repetirem merenda; a reforma trabalhista ocorreu sem que a absurda maioria da população entendesse o que estava ou está ocorrendo, e sem que a elite tivesse um mínimo de perda com essa estória; a reforma política está nas mãos da pior geração de políticos que o Brasil já teve, e a reforma tributária transformou-se em criações de impostos e mais impostos sobre a classe pobre e classe média, enquanto empresários serão mais uma vez beneficiados com refis…
Sinceramente, Ricardo, se o nazismo – algo que jamais deveria existir –  era de esquerda ou de direita, e se o partido por ele criado tinha ou não o nome de socialista, me parece ser questão de somenos importância…
Tenho inclusive brincado, postando no Face:
A fome é de esquerda ou de direita?
A miséria é direita ou de esquerda?
A ignorância é de esquerda ou de direita?
– Caro Pedro, não sou assim tão mais novo, mas concordo com tudo o que você disse. Vamos agora ao entretanto, tudo bem?
O Hitler começa o livro Minha Luta com uma parábola, a de um gato e um rato. Em resumo, ele diz que na natureza, o que faz o gato? Come o rato, pois essa é a sua missão natural. O gato que não age assim se rebaixa, age contra as leis naturais, não é um gato… Ele então diz que o povo alemão é o gato, e faz as demais derivações que constatamos na história.
Essa parábola é importante pois há um pensamento que transforma os homens em animais. Não apela para o fato dos homens poderem constituir uma humanidade. Esse pensamento ou regride as conquistas feitas por uma coisa chamada humanidade ou pretende manter as diferenças e os privilégios existentes até o atual.
O que definiria o outro lado seria o contrário: a busca por mais humanidade (não necessariamente humanitarismo, que é o que a igreja faz) e humanitarismo, lutando para mostrar que o existente é construído e pode ser modificado, melhorado para um número maior de pessoas.
O ser humano é, de certo modo, animal e homem. Ele pode simplesmente comer. Ou pode se alimentar, sentindo os diferentes gostos, experimentando a comida, vivenciando algo quase sublime. No mesmo sentido, um ser humano pode fazer sexo como um cachorro ou fazê-lo de um modo muito melhor, porque humano. Pode se envolver no trabalho e fazê-lo por prazer ou agir como um boi preso a um moinho, andando em círculos por obrigação. A verdade, meu amigo, é que, diante do caos instaurado no presente, há duas espécies de “revolucionários”: os que encampam o passado e se apoiam em uma suposta natureza humana, e aqueles que acreditam na capacidade humana e na confraternização de todos os homens, que haverão de superar a barra pesada que é prover comida e alimentação para todos com o intuito de liberar as pessoas para fazerem aquilo que farão melhor: humanizar-se. Decida agora o que é direita e o que é esquerda.
Decida, também, se Hitler era de direita ou de esquerda… E isso perante os alemães e perante os demais homens…
Pedrão, quer rir um pouco mais?
Semana passada eu ministrei uma aula sobre Adam Smith e expliquei que ele não é um humanista, mas um economista, ou seja, um homem que reduz as pessoas a relações econômicas. Então, após falar da potência do pensamento dele (a indústria e a divisão do trabalho como “Riqueza da Nação”), selecionei um trecho para mostrar o que era um homem a ele:  na página 48 (SMITH, ADAM. Esboço primitivo de A riqueza das Nações in Economistas políticos. São Paulo: Musa Editora, 2001), ele diz “Ninguém nunca viu um cachorro fazer uma justa e deliberada troca de um osso por outro com outro cachorro. Ninguém nunca viu nenhum animal, por meio de gestos e gritos, procurar mostrar a outro que ‘isto é meu, aquilo é teu; concordo em dar isto em troca daquilo’. Quando um animal deseja obter algo de um homem ou de um outro animal, ele não dispõe de outro meio de persuasão senão tentar ganhar a simpatia e o favor daqueles de cujos préstimos necessita. Um cachorrinho bajula a sua mãe, e um spaniel procura, de mil modos, chamar a atenção de seu dono que está jantando quando quer ser alimentado por ele. O homem usa, às vezes, as mesmas manhas em relação a seus amigos, e quando não tem outros meios para fazer com que eles ajam de acordo com as suas inclinações, tenta, bajulando-os, obter o que deseja. (…)”. Depois ele diz na página seguinte (p. 49): “quando uma pessoa propõe a outra uma barganha de qualquer tipo, na verdade ela lhe propõe o seguinte: ‘Dá-me o que eu preciso e terás o que precisas’. Este é o único significado de toda e qualquer proposta. É este o modo como obtemos uns dos outros a parte mais significativa daqueles bons ofícios de que necessitamos. Não é da boa vontade do açougueiro, do cervejeiro e do padeiro que depende o nosso jantar, mas do interesse deles.”.
E por aí vai… então lhe pergunto: pelo conteúdo, é um pensamento de direita ou esquerda?

sexta-feira, 11 de agosto de 2017

Poema retirado de uma Crônica

Não se pensa a Lapa sem a Glória,
Botafogo sem Flamengo
O Flamengo sem Aterro
Nem a Glória sem Outeiro

Não se cruza, incólume,
O Rio de Janeiro:
Pedaço do Oitocentos
Porção de Portugal

Se algum saldo fica,
Confirma-se o mais gostar:
Antes Santa Luzia
Que Avenida Beira-Mar

Não permitam os médicos
Que eu morra...

...Sem voltar à Praça Quinze
Ou sorver a Rua do Ouvidor;
Demorar-me na Confeitaria Colombo
E assistir as gentes na Praça Mauá.

(Rio, 11.VIII.2017).

sexta-feira, 30 de junho de 2017

EGÃO

Em curso, a histeria coletiva – manifesta no uivo doído do desabrigado que perdeu razão, casa e a dignidade do olhar alheio.
Os sinais persistem, desde tempos imemoriais, na autoisenção de homens bons (hoje, “de bem”), posicionados mais acima da massa, devido à “origem”, “mérito”, “estudo” ou “empenho” – infensos à moral, à ética e às leis; mas, especialmente, incapazes de solidariedade. O histérico só fala dos outros em chave de comparação negativa.
Sintoma de grupo, o paradoxo da histeria está em se alimentar do exacerbado individualismo que finge justificar o “salve-se-quem-puder”, nas palavras duras dos bocas-moles que Deus e o Mercado supostamente elegeram.
Ela também reside no “uma ajuda, por favor” – expressão “naturalmente” etiquetada à fome e à sede daqueles que não fecham a conta do capital: mercadoria vencida, saldo negativo, expurgo que a “livre-iniciativa” celebra com chavões do tipo “mas eu venci na vida”.
A histeria se manifesta nos berros dos neofascistas, com palanque, senso comum e plateia (o sujeito que lamenta o horror do nazismo pode ser o mesmo a apoiá-los). O megaindivíduo, que critica as violências do Tribunal do Santo Ofício, talvez seja o mesmo a recriminar e xingar as pessoas “menos comportadas”, “desavergonhadas” ou de outras condições sexuais.
Histeria coletiva. Seus pacientes, a céu aberto, estão a espancar buzinas, invadir as faixas, desprezar as noções básicas de civilidade. Trotam nas calçadas, a consumir desenfreadamente para mais uma bebedeira heroicizar.
Sobremodo arrogantes, os não-internados dispensam terapêutica. Incapazes de autoexame, clamam por escuta e cuidado em gargalhadas repentinas, inautênticas e sem razão.

(Piratininga, 28 de junho de 2017 d.C.)

terça-feira, 2 de maio de 2017

Paródia Oswaldiana

Na cafeteria paulistana de Seatlle
Mesas pescoceiam em direção à porta-automática
O segurança invisível veste terno
E a fila espicha em nome do melhor atendimento

[Dicas para interpretação:
1. Cubistas, os versos podem ser lidos em qualquer ordem (o que explica a falta de pontuação).
2. Rearranjadas, as letras iniciais (dos versos) podem formar NOME.
3. O estabelecimento localiza-se nas imediações da Praça da República.
4. Palavras-chave: (N) neocolonialismo; (M) reificação; (O) preconceito; (E) fachada]. 
 

sexta-feira, 7 de abril de 2017

Máxima contra a Pólvora

Enquanto o mundo beija as bombas e este país execra a noção de "povo", na Universidade assistimos a parcerias de pesquisa com o Santander. Não tarda o dia em que obedeceremos à CAPES e aos Terminais 24h.

terça-feira, 7 de março de 2017

Filósofos de Boteco

É sintomático, num país de leitores rarefeitos e prepotentes, a condenação de homens que jamais leram e a rejeição de ideias que jamais compreenderam. Cansei de ouvir gente tosca afirmar, com absoluta leviandade e arrogância, que Marx "só funciona na teoria"; que para Freud "tudo é sexo"; que Nietzsche "era doidão"; que ter posicionamento crítico "é coisa de idealista, sonhador, poeta" etc. Não leu? Silencie e ouça.

O Campus da Universidade de São Paulo foi bombardeado, mais uma vez, por uma instituição cujo lema é "servir e proteger" o cidadão. O prefeito mega-privatista confunde gestão com aniquilação do Estado; o governador reina em nome da social-democracia, mas não reconhece ou valoriza seus professores, médicos (nem bombeiros, tampouco... policiais. Pois é...). 

É inócuo comentar os assuntos "do dia", enquanto se alheia à concretude esfregada a metros da sua porta. Chamar essa postura resignada de hipocrisia é eufemismo. O que você tem a VER com isso?(a pergunta contém a resposta).

Não haverá vitória sem maior participação. Não haverá consciência de outras formas de diálogo que não seja pela união das gentes. Posicionem-se e somem as divergências em favor do melhor mundo possível, seja ele a sua universidade (pública, gratuita, inclusiva, coerente e de qualidade), a academia de ginástica, o estádio de futebol, o salão de beleza, ou até mesmo o bar que visitará hoje à noite...

Deixe de conversinha mole: passe do comentário que só "lamenta", mas nada faz para mudar, de fato, a sua condição e a dos outros. Troque a longneck pseudo filosofante do boteco pela eficácia de gestos maiores, porque solidários. Claro esteja, isso não tem nada a ver com o fato de haver, ou não, "pessoas de bem" -- definidas por aquela gentinha gabaritadíssima em hipocrisia política, moral, religiosa, de atitude e pensamento.   

sábado, 4 de março de 2017

44

É oficial. Tornei-me adulto. No espaço de duas semanas, fui chamado duas vezes de "senhor" por vendedores de lojas. Está certo, é questão de somenos. O fato é que impacta: serei levado a disfarçar o lado espirituoso (que não resiste a um trocadilho), a porção criança que gosta de olhar lojas de brinquedos (eufemismo para a comunidade secreta de bonecos que habitam o apartamento); a espontaneidade na maior parte dos gestos (o que conflita diretamente com o padrão de comportamento na dita "Academia") etc. 
Mas a idade traz as suas vantagens. 
Por exemplo: quando criança, estudei num Colégio Jesuíta, criado pelas mãos de Marcelino Champagnat (bem depois de a Ordem ter voltado a atuar no reino de Portugal e no Brasil). Era naquele ambiente supostamente reto e direito que a mentalidade de meus colegas defendia a humilhação dos colegas mais pobres, o cultivo extremo da beleza, a morte dos mendigos, a implosão dos presídios, a ideia veemente de que o patrimônio material estaria acima de qualquer direito ou noção de solidariedade. Felizmente a conclusão do, então chamado, "2o Grau" coincidiu com a vida bem longe da casa de mamãe e papai: mundo que me apresentou outras formas de ver o outro (a mulher, os excluídos, os que sofrem preconceitos de variados matizes, a hipocrisia de falsos amigos, o cinismo das legendas partidárias que se supõem isentas de ideologia, o desapego ao dinheiro etc).
Por exemplo: dos vinte e poucos aos trinta sofria desmesuradamente pelas pessoas por que me apaixonava (foram poucas). Vivia "mega available" (como Martín, do filme Medianeras). Respondia a qualquer convite com a máxima disposição; justificava-me para que o erro das criaturas fizesse algum sentido. Hoje suporto os desenlaces com menor capacidade de escândalo: nem cartas muito longas, nem telefonemas implorantes, nem mensagens ridículas pelo celular. Serão amostras de alguma evolução, suponho. 
Por via das dúvidas, vou aparar a barba e o bigode, antes de topar com novos atendentes.    

segunda-feira, 20 de fevereiro de 2017

Avenida Paulista

Hoje de manhã, enquanto esperava por uma pessoa, voltou-me a triste sensação de que algumas criaturas não compreendem ou valorizam o mundo (e, portanto, os seres) à sua volta. Em meio a outras questões que me incomodavam, decidi mudar de postura em relação a determinadas figuras. Dentre as resoluções tomadas, deixei o curso de baixo -- já que, para soar educado, não estava correspondendo às expectativas do professor. Imediatamente em seguida ao envio da mensagem cancelando minha matrícula, subi até a Avenida Paulista para visitar o pessoal do MTST, acampado por lá. Enquanto me aproximava da ocupação, sob lonas e pedaços de madeira, confirmei o esperado: a maioria dos estudantes e (des)empregados que circulam, pomposos e vulgares, no distinto lougradouro fingem ignorar o movimento -- enquanto se utilizam da sombra produzida pelas barracas improvisadas, abrigando-os do sol sobre a faixa de altivos pedestres. Lá conversei com algums membros, incluindo Bruna e Tia Cida, a quem levei dois ouvidos e um mínimo de solidariedade. Trocamos contatos e me coloquei à disposição para ajudar no que fosse preciso. Antes que o leitor deste breve relato cogite reproduzir o estreito senso comum, chamando-os de "vagabundos", afianço-lhe de que não foi isso o que vi na cozinha que atende a incontáveis pessoas, por lá. Durante a breve conversa com as mulheres, perguntei se havia novidades; se o Presidente Interino havia se comprometido a honrar o que foi acordado com o movimento. Responderam que haverá nova assembleia hoje à noite, ocasião em que terão notícias. Indaguei como eles estão sendo olhados pelas outras criaturas que circulam pela avenida. Disseram que, em geral, são muito hostilizados, mas que também recebem saudações de apoio, na forma de buzinaços acompanhados de gritos contra o atual des-governo. Pedi licença para fotografar e divulgar a relação de alimentos e utensílios de que eles precisam (afixada numa das "paredes" da Copa). Sejamos solidários. Alimenta-nos muito mais proceder dessa forma. De certo modo, compensa o fato de suportar egos inflados ou defensores (ainda que descamisados) do cinismo neo-liberal -- que só exclui, mata e propaga o ódio entre nós e aqueles que não dispõem sequer do básico.


sábado, 18 de fevereiro de 2017

Palavras de Raduan

Hoje é dia 18. Em vinte e quatro minutos, a contar deste ato de escrever, será 19 de fevereiro. A julgar pelo ritmo sobre-veloz que tudo atropela (sentimentos, gentes, ideias e paisagens), terá se passado muito tempo para comentar o que disse Raduan Nassar, ontem de manhã, durante a entrega do honroso prêmio Camões -- invenção de Portugal, a despeito de o Brasil entrar com metade do valor outorgado ao romancista. Eu havia lido e relido o discurso de Raduan. Mas somente há pouco criei coragem para assistir ao vídeo. Um homem de idade, com inquestionável talento ao lidar com a palavra impressa, aproveita os minutos que lhe cabem para posicionar-se contra as incoerências que presidem o mais recente golpe de Estado, impetrado nesta terra em que metade de sua população ou está cega ou é cínica. Em reação, tenho notícias de que o excelentíssimo Ministro da Cultura (em posição tão questionável quanto o presidente, dito interino) perdeu a oportunidade de se manter calado. Seria uma saída mais honrosa reunir os fragmentos de vergonha, por pertencer a esse bando no poder supremo, e preservar seu nome e terno, que dar margem à controvérsia, desrespeitando o ato solene, em que se espera prestigiar a melhor palavra. Ao agir desta forma, o senhor engravatado desrespeitou o direito à palavra do agraciado (um senhor de idade, volto a lembrar): um dos poucos representantes culturais de que podemos nos orgulhar, para além de nossas fronteiras -- atentamente vigiadas e cobiçadas por Estados Unidos e companhia. Trata-se de um dos prêmios mais honrosos do planeta. Mas, a exemplo de tantos atos injustificáveis do atual des-governo, não basta fazer parte da corja; é preciso muito cinismo para defender a farsa democrática em que infra-vivemos, para custear a máfia mais poderosa de que se tem notícia. Raduan recorreu a fatos sabidos por todos aqueles que, em tese, amam este país. Mas, por aqui, a metade entreguista está a se embrulhar em verde-e-amarelo, reproduzir o que dizem os engravatados da Rede Globo e, evidentemente, estão a perder seu preciso tempo por não ler nada, nem mesmo os livros de um de seus maiores representantes. A Raduan não falta coerência, talento e honradez. Digam-me os mestres do cinismo se o Congresso não está carente de coragem e vontade para defender os que não caíram na falácia de que o "sol nasceu para todos". Viva, Raduan Nassar!

domingo, 5 de fevereiro de 2017

Argumento de Tânatos

Morei em Garibaldi (RS) entre 1990 e 1994. Quatro anos contados até o meu retorno a São Paulo. Lá aprendi muitas coisas; especialmente, nunca me esqueci de um provérbio: "Pessoas felizes não agridem". Só criaturas egocêntricas e arrogantes dão início a uma discussão e saem dela achando que armazenam toda a razão. Só indivíduos incapazes de amar (os outros) se valem de argumentos que não têm qualquer relação com o sentimento próprio e alheio, para conquistar a vitória do pseudo debate. Em momentos de ódio, é Tânatos que se mistura entre nós. Diz a um: "trabalhe sem cessar"; a outro: "produza sem cansar"; ao terceiro, recomenda que odeie, vença, bloqueie, delete, exclua. Incertas demandas do campo profissional contaminam certas decisões tomadas, por impulso, no âmbito pessoal. Por exemplo, a figura deixa de dialogar como se fosse uma decisão racional (e não motivada justamente pela paixão reprimida). Supõe que criar muros à volta de si mesma não seja um modo de fugir ao convívio. Para afetar força, age covardemente. Para se sentir inteira fragmenta a concepção sobre a vida e obsta a visão do outro com barreiras que cerceiam a si própria. Critica e censura gestos do outro; mas não admite réplicas e, sequer, reflexões sobre as coisas que diz, faz e agita. Mas nutramos esperança. Agora podemos usar Whats App para pseudo argumentar. Em vinte anos, as discussões serão representadas por hologramas. Será a micro-Era de Tânatos.  

sexta-feira, 3 de fevereiro de 2017

Paradoxo de Eros

Estou farto de ouvir gente dizer que o Amor é difícil ou que "ainda não o encontrou". Talvez seja incompetência de minha parte, mas acumulo impressões bem diferentes sobre o "tema". A criatura incapaz de amar procura pelo Amor ao longo de toda a vida; gira o planeta (que também pode ser sua piscina, academia de ginástica, bar, teatro, cinema, shopping center, bairro, cidade e estado). Quando se depara com o sentimento que supõe sê-lo, passa a encará-lo como passatempo: enjoa fácil, questiona, desgosta. Olha para si mesma e pergunta "para que investir?". Amor não é plano de negócios. "Não era amor", suspeita. Então, a pessoa logo transfere seu tédio e insuficiência para o outro (seja ele uma pessoa, seja ele o próprio sonho "besta" de amar). Corre mais um pouco. Ajeita o cabelo, disfarça com a roupa, cansa, retoma contatos. Topa com um suposto novo amor. "Agora sim! Tenho certeza..." Mas então o aprisiona em frascos com tampas que raramente se abrem (um para o arroz, outro para o café, outro para a amizade, outro para os afetos). Mas Amor não se administra: ele se espraia e contagia a gente e os que estão a nossa volta. Se a vida fosse uma loja de Departamentos, o Amor ocuparia um andar inteiro e se infiltraria para os demais. Isso não tem a ver com tempo; mas com intensidade. Há uma qualidade do sentir que é irredutível: se for Amor, Eros comparecerá e nos fará torcer pela vida ao máximo, também como forma de postergar a dor, o tédio, a morte. O Amor permite idealizar, desejar e sobrevalorizar as formas, sons e cheiros do outro. Faz admirar a sua sensibilidade e inteligência. Acima de tudo, deseja que aquilo tudo perdure, numa espécie de manutenção do absoluto, em escala para duplas (ou trios, conforme o caso). Amor administrável não O é. Amor não é mergulho de Narciso (aquele de Ovídio), cego para os outros; não é calcular o tempo que haverá para o que vem antes ou mais tarde. Frases como "temos todo o tempo do mundo" são pseudo argumentos de Jacu. O amor tem pressa na aparente calmaria e demanda mais tempo que a vida ordinária tem a oferecer. Não pode ser nivelado com contas a pagar, correspondências a enviar, mensagens a responder. Não possuímos o amor, nem ele nos detém. Ele não se entende bem com contabilidades, ou planejamentos que não envolvam uma sequência infinita de instantes preenchidos pelo máximo. Ele está acima de nós, pois é condição de uma existência menos murcha. É mais forte que nossa (des)crença em divindades, espíritos ou convicções. Não se tira diploma para (des)amar. Não há especialização na "área" (embora haja aqueles que confundam produtividade com qualidade).  Já pensou? A criatura pode ter encontrado o amor em mais de uma ocasião e o "deixou" passar. Mas isso ainda soa arrogante. É necessário humildade e energia para sentimentos maiores.

domingo, 8 de janeiro de 2017

6 de janeiro de 2017, às 9h e pouco

Sinto falta de Vitória. Algo estranho para se dizer, tendo em vista que embarquei há pouco, de volta à Pauliceia. Da primeira vez, estive lá em 2003, em visita a Maria, minha mãe. Foi um "alumbramento" -- como diria Manuel Bandeira (confira lá em Evocação do Recife). Amei a cidade; desconfiei de suas intenções -- diante de tantos grupos religiosos a tripudiar sobre o Estado laico (sim, e a despeito do nome sugerido por suas iniciais). A bem da verdade, não é bem do mapa ou da paisagem que sinto falta. Mas de minha mãe.