sábado, 18 de fevereiro de 2017

Palavras de Raduan

Hoje é dia 18. Em vinte e quatro minutos, a contar deste ato de escrever, será 19 de fevereiro. A julgar pelo ritmo sobre-veloz que tudo atropela (sentimentos, gentes, ideias e paisagens), terá se passado muito tempo para comentar o que disse Raduan Nassar, ontem de manhã, durante a entrega do honroso prêmio Camões -- invenção de Portugal, a despeito de o Brasil entrar com metade do valor outorgado ao romancista. Eu havia lido e relido o discurso de Raduan. Mas somente há pouco criei coragem para assistir ao vídeo. Um homem de idade, com inquestionável talento ao lidar com a palavra impressa, aproveita os minutos que lhe cabem para posicionar-se contra as incoerências que presidem o mais recente golpe de Estado, impetrado nesta terra em que metade de sua população ou está cega ou é cínica. Em reação, tenho notícias de que o excelentíssimo Ministro da Cultura (em posição tão questionável quanto o presidente, dito interino) perdeu a oportunidade de se manter calado. Seria uma saída mais honrosa reunir os fragmentos de vergonha, por pertencer a esse bando no poder supremo, e preservar seu nome e terno, que dar margem à controvérsia, desrespeitando o ato solene, em que se espera prestigiar a melhor palavra. Ao agir desta forma, o senhor engravatado desrespeitou o direito à palavra do agraciado (um senhor de idade, volto a lembrar): um dos poucos representantes culturais de que podemos nos orgulhar, para além de nossas fronteiras -- atentamente vigiadas e cobiçadas por Estados Unidos e companhia. Trata-se de um dos prêmios mais honrosos do planeta. Mas, a exemplo de tantos atos injustificáveis do atual des-governo, não basta fazer parte da corja; é preciso muito cinismo para defender a farsa democrática em que infra-vivemos, para custear a máfia mais poderosa de que se tem notícia. Raduan recorreu a fatos sabidos por todos aqueles que, em tese, amam este país. Mas, por aqui, a metade entreguista está a se embrulhar em verde-e-amarelo, reproduzir o que dizem os engravatados da Rede Globo e, evidentemente, estão a perder seu preciso tempo por não ler nada, nem mesmo os livros de um de seus maiores representantes. A Raduan não falta coerência, talento e honradez. Digam-me os mestres do cinismo se o Congresso não está carente de coragem e vontade para defender os que não caíram na falácia de que o "sol nasceu para todos". Viva, Raduan Nassar!