terça-feira, 7 de março de 2017

Filósofos de Boteco

É sintomático, num país de leitores rarefeitos e prepotentes, a condenação de homens que jamais leram e a rejeição de ideias que jamais compreenderam. Cansei de ouvir gente tosca afirmar, com absoluta leviandade e arrogância, que Marx "só funciona na teoria"; que para Freud "tudo é sexo"; que Nietzsche "era doidão"; que ter posicionamento crítico "é coisa de idealista, sonhador, poeta" etc. Não leu? Silencie e ouça.

O Campus da Universidade de São Paulo foi bombardeado, mais uma vez, por uma instituição cujo lema é "servir e proteger" o cidadão. O prefeito mega-privatista confunde gestão com aniquilação do Estado; o governador reina em nome da social-democracia, mas não reconhece ou valoriza seus professores, médicos (nem bombeiros, tampouco... policiais. Pois é...). 

É inócuo comentar os assuntos "do dia", enquanto se alheia à concretude esfregada a metros da sua porta. Chamar essa postura resignada de hipocrisia é eufemismo. O que você tem a VER com isso?(a pergunta contém a resposta).

Não haverá vitória sem maior participação. Não haverá consciência de outras formas de diálogo que não seja pela união das gentes. Posicionem-se e somem as divergências em favor do melhor mundo possível, seja ele a sua universidade (pública, gratuita, inclusiva, coerente e de qualidade), a academia de ginástica, o estádio de futebol, o salão de beleza, ou até mesmo o bar que visitará hoje à noite...

Deixe de conversinha mole: passe do comentário que só "lamenta", mas nada faz para mudar, de fato, a sua condição e a dos outros. Troque a longneck pseudo filosofante do boteco pela eficácia de gestos maiores, porque solidários. Claro esteja, isso não tem nada a ver com o fato de haver, ou não, "pessoas de bem" -- definidas por aquela gentinha gabaritadíssima em hipocrisia política, moral, religiosa, de atitude e pensamento.   

sábado, 4 de março de 2017

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É oficial. Tornei-me adulto. No espaço de duas semanas, fui chamado duas vezes de "senhor" por vendedores de lojas. Está certo, é questão de somenos. O fato é que impacta: serei levado a disfarçar o lado espirituoso (que não resiste a um trocadilho), a porção criança que gosta de olhar lojas de brinquedos (eufemismo para a comunidade secreta de bonecos que habitam o apartamento); a espontaneidade na maior parte dos gestos (o que conflita diretamente com o padrão de comportamento na dita "Academia") etc. 
Mas a idade traz as suas vantagens. 
Por exemplo: quando criança, estudei num Colégio Jesuíta, criado pelas mãos de Marcelino Champagnat (bem depois de a Ordem ter voltado a atuar no reino de Portugal e no Brasil). Era naquele ambiente supostamente reto e direito que a mentalidade de meus colegas defendia a humilhação dos colegas mais pobres, o cultivo extremo da beleza, a morte dos mendigos, a implosão dos presídios, a ideia veemente de que o patrimônio material estaria acima de qualquer direito ou noção de solidariedade. Felizmente a conclusão do, então chamado, "2o Grau" coincidiu com a vida bem longe da casa de mamãe e papai: mundo que me apresentou outras formas de ver o outro (a mulher, os excluídos, os que sofrem preconceitos de variados matizes, a hipocrisia de falsos amigos, o cinismo das legendas partidárias que se supõem isentas de ideologia, o desapego ao dinheiro etc).
Por exemplo: dos vinte e poucos aos trinta sofria desmesuradamente pelas pessoas por que me apaixonava (foram poucas). Vivia "mega available" (como Martín, do filme Medianeras). Respondia a qualquer convite com a máxima disposição; justificava-me para que o erro das criaturas fizesse algum sentido. Hoje suporto os desenlaces com menor capacidade de escândalo: nem cartas muito longas, nem telefonemas implorantes, nem mensagens ridículas pelo celular. Serão amostras de alguma evolução, suponho. 
Por via das dúvidas, vou aparar a barba e o bigode, antes de topar com novos atendentes.