sábado, 4 de março de 2017

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É oficial. Tornei-me adulto. No espaço de duas semanas, fui chamado duas vezes de "senhor" por vendedores de lojas. Está certo, é questão de somenos. O fato é que impacta: serei levado a disfarçar o lado espirituoso (que não resiste a um trocadilho), a porção criança que gosta de olhar lojas de brinquedos (eufemismo para a comunidade secreta de bonecos que habitam o apartamento); a espontaneidade na maior parte dos gestos (o que conflita diretamente com o padrão de comportamento na dita "Academia") etc. 
Mas a idade traz as suas vantagens. 
Por exemplo: quando criança, estudei num Colégio Jesuíta, criado pelas mãos de Marcelino Champagnat (bem depois de a Ordem ter voltado a atuar no reino de Portugal e no Brasil). Era naquele ambiente supostamente reto e direito que a mentalidade de meus colegas defendia a humilhação dos colegas mais pobres, o cultivo extremo da beleza, a morte dos mendigos, a implosão dos presídios, a ideia veemente de que o patrimônio material estaria acima de qualquer direito ou noção de solidariedade. Felizmente a conclusão do, então chamado, "2o Grau" coincidiu com a vida bem longe da casa de mamãe e papai: mundo que me apresentou outras formas de ver o outro (a mulher, os excluídos, os que sofrem preconceitos de variados matizes, a hipocrisia de falsos amigos, o cinismo das legendas partidárias que se supõem isentas de ideologia, o desapego ao dinheiro etc).
Por exemplo: dos vinte e poucos aos trinta sofria desmesuradamente pelas pessoas por que me apaixonava (foram poucas). Vivia "mega available" (como Martín, do filme Medianeras). Respondia a qualquer convite com a máxima disposição; justificava-me para que o erro das criaturas fizesse algum sentido. Hoje suporto os desenlaces com menor capacidade de escândalo: nem cartas muito longas, nem telefonemas implorantes, nem mensagens ridículas pelo celular. Serão amostras de alguma evolução, suponho. 
Por via das dúvidas, vou aparar a barba e o bigode, antes de topar com novos atendentes.